Há quanto tempo Zé Túbia faz música e o que o motiva a fazer arte?
Faço música desde 1999. Nesta altura, eu já vivia em Luanda e, aos pés de Zé do Pau, eu ganhei gosto pela música, Semba. Fui conhecendo os estúdios em Luanda por meio dele, com ele, acompanhando-o na gravação do seu disco. Foi ali que conheci o Santos Figueiredo na Gajajeira, São Paulo, o primeiro estúdio com o qual tive contacto e gravei a minha primeira música.
Como compõe e quanto tempo leva para compor as suas canções?
Naquela altura, não consigo precisar com exactidão cirúrgica quanto tempo levava para compor uma "keta" (gíria angolana para canção). Dependia do estado de espírito do momento, da inspiração e, principalmente, do tema ou assunto que retrataria na keta. Depois tinha que ensaiar bastante no sentido de enquadrar-se com a melodia da letra. Só depois ia para o estúdio e, muitas vezes, também não era fácil a gravação no mesmo dia no estúdio, por conta da produção do beat que teria que ser feita e também por conta dos valores [kumbú] que a pessoa teria que ter para pagar o produtor. Nada era grátis, tudo tinha custos elevados. Eu dependia somente da arte, minha fonte de renda, e era um processo sofrível. Levava mesmo muito tempo. Às vezes, levava três meses ou seis meses só para produzir uma única música. Dependia muito do factor psicológico, financeiro e da própria criatividade em si.
Praticamente, disponibiliza músicas em todas as semanas. Por que esta sequência?
Sim, hoje, com o advento da tecnologia, ficou bué fácil a produção e o lançamento das músicas nas várias plataformas online. Todos os dias disponibilizo música revolucionária que fala da nossa realidade "mwangolé", dos efeitos negativos, desastrosos da má governação do MPLA e de políticos orgulhosos que temos no poder. Mas a razão de toda essa brevidade, essa rapidez e este lado revolucionário nas minhas ketas vêm de uma revolta das marcas físicas e psicológicas que carrego no meu corpo, cujo único culpado é o MPLA, que inventou uma guerra burra, estúpida, que nos atrasou a todos, amarrou-nos a situações deploráveis e inaceitáveis para um ser humano que sabe pensar pela própria cabeça e não aceita ver "kandéngues", velhos e mulheres inocentes alimentarem-se nos contentores de lixo. Em 2004, deixo Angola em direcção a Londres, onde vivo até hoje. Aqui, fui tendo contacto com a tecnologia musical e voltei a fazer música de forma diferente da que eu fazia em Angola. Daí a razão da rapidez na produção, execução e divulgação da mesma música.
Produz sozinho as suas músicas?
Sim e não. Produzo sozinho as minhas ketas, desde a composição e a produção final, mas também não, porque tenho tido suporte de outros músicos bem posicionados da nossa bandula, que ajudam mais na direcção, mas preferem o anonimato para não entrarem em choque com o sistema ou o regime do MPLA. Dão-me ideias, dão-me letras, me suportam bué na direcção artística daquilo que produzo.
Conta com ajuda da Inteligência Artificial (IA) no seu trabalho? De que forma?
Sim, faço uso da Inteligência Artificial (IA) na produção das minhas ketas, criação dos beats, mistura, masterização e criação de melodias vocais. Ou seja, na criação de beats e melodias vocais que me ajudam a gerar progressões de acordes, ideias de topline (melodias de voz) e timbres únicos que servem de faísca criativa nas minhas ketas.
Misturo com plugins inteligentes que identificam conflitos de frequências (mascaramento) nas ketas, ajustam compressão dinâmica e equilibram o som.
Masterizo a faixa comparando-a com referências comerciais para entregar o volume [LUFS] e o balanço tonal perfeito para o streaming.
Em que ano e com que idade deixou de viver em Angola?
Com 30 e poucos anos, deixei Angola, ou seja, em 2004, desatei-me dos panos da mamã Angola em direcção à Europa, propriamente em Londres. De lá para cá, nunca mais regressei à terra-mãe e as saudades do nosso musseque, dos nossos becos, dos kambas e das nossas vivências, mesmo com aquelas dificuldades todas, é que corroem ou devoram. Mas trago tudo isso nas ketas da vida como um desabafo.
Então, desde 2004 que não volta a Angola...
Desde que deixei Angola, em 2004, nunca mais voltei para Angola, ou seja, estou há mais de 20 anos fora da bandula.
E como foi parar em Londres?
Fiz parte do Conselho Consultivo do CNIDAH (Comissão Nacional Intersectorial de Desminagem e Assistência Humanitária)], que era dirigido pelo general "Petroff". Nós nos reuníamos na Cidade Alta e eu, representando a LARDEF, com um projecto piloto da luta contra as minas e sensibilização contra o perigo das minas para as crianças em Angola. Tinha o patrocínio das Nações Unidas via UNICEF.
Então, entro para esta Comissão do CNIDAH e ali discutíamos estratégias de como combater o perigo das minas para as crianças e isso fez com que fosse muito odiado, porque eu era muito frontal. Recebia ameaças de gente do MPLA e, deste conselho, faziam parte alguns representantes de embaixadas acreditadas em Angola. A Embaixada dos Estados Unidos, a Embaixada do Reino Unido e de outros países de peso. Então, eu fui fazendo amizade com o pessoal das embaixadas e eles viam os boicotes e as ameaças que eu passava, viam que eu sofria nas mãos dos senhores que se dizem ser governantes, a gente do MPLA. E assim fui cozinhando e preparando a minha saída. Via a necessidade de sair, deixar Angola e lutar a partir de fora.
Sabemos que, aos sete anos, Zé Túbia perdeu os braços num acidente. Pode recordar como tudo aconteceu?
Sim, exato. Aos 7 de idade, no Lobito, propriamente no bairro do Lobito Velho, eu e mais dois amigos, totalizando o número de 3 kambas, pegamos, a poucos metros de casa, no lixo, uma granada abandonada ali. Achamos engraçado, curioso. Pegamos uma pedra no sentido de arrancarmos a anilha que parecia um brinco, algo que chamava a nossa atenção. Eu bati, não consegui, passei para o outro amigo, bateu, também não conseguiu, ele passou para o terceiro, bateu e não conseguiu a anilha. E, à medida que íamos batendo, a anilha foi se soltando sem nós percebermos ou darmos conta que aquilo era um grande perigo para nós. Voltou para as minhas mãos e eu bati, mas a anilha já estava meio solta e ela acabou explodindo nas minhas mãos, arrancando as minhas duas mãos, o olho / vista direita, deixando-me com marca de estilhaços na barriga, no peito e na testa, porque ela quase abriu a minha testa de cima a baixo em direção à vista direita, a que eu perdi neste acidente.
Foi assim que aconteceu, não tive o apoio do Governo do MPLA, que era e é o partido que está no poder desde então. Não tive apoio psicológico, reabilitação física no sentido de eu conseguir alguma prótese ou mesmo bolsas de estudo para que eu pudesse me formar numa escola especializada para pessoas com deficiência física causada pela guerra ou por coisas parecidas. Minha mãe bateu portas quando eu era puto, acompanhava, andava com a minha mãe, via como ignoravam a minha mãe. Saímos de Benguela, fomos para Luanda no sentido de buscarmos esse apoio junto do Governo Central, mas sem sucesso.
Cresci assim, com esta revolta. Fiz-me homem, fui viver em Luanda, dei sequência na busca de apoio, aquilo que a minha mãe começou e não conseguiu. Ainda assim, não tive sucesso. Fui ignorado, fui humilhado e não consegui nada daquilo que também é meu por direito, mas eles enviavam os sobrinhos para estudar fora do País com o dinheiro que era de todos nós. Eu, que não tinha padrinho na cozinha, não me deram essa oportunidade, mas o dinheiro também era meu, também é meu. Sou angolano, a terra é de todos nós. Então, isso tudo revoltou-me, criou em mim essa revolta e trago aqui essa revolta em forma de ketas para despertar os mwangolés contra a gatunagem, a mentira, a manipulação que o MPLA tem infringido contra esse povo inocente.
Então, perdeu o olho nesse acidente...!
Perdi no mesmo incidente em que eu perdi as duas mãos. Nasci perfeitamente bem, com as duas mãos e os dois olhos. Um menino saudável, cheio de sonhos, como qualquer um da nossa época. O destino, o orgulho e a ambição desmedida do Satanás, o MPLA, me levaram a essa situação e condição, perdendo o olho direito e as duas mãos, no mesmo acidente da granada.
Zé Túbia também é activista contra minas terrestres. Será que a experiência traumática que teve aos 7 anos o influenciou nisso?
Sim, sou activista contra as minas terrestres. Venho fazendo esse trabalho desde 1999 Luanda, Angola. Já representei Angola na luta contra as minas terrestres, das quais fui vítima. Fiz parte das reuniões internacionais que tiveram lugar em Genebra, na Suíça, e em Washington, nos Estados Unidos da América.
Sabe-se que, além de artista, praticou natação e já representou Angola nos Jogos Pan-Africanos para Pessoas com Deficiência. Pode partilhar connosco a sua história no desporto?
Sim, fui atleta paralímpico de natação na Selecção de Angola. Fiz parte dos Jogos Pan-Africanos de 1999, em Joanesburgo, na África do Sul. Quando chego a Luanda, eu junto-me à Organização Não Governamental Liga de Apoio à Integração dos Deficientes (LARDEF) e lá fui inscrito como membro. Lá, quando se faz a inscrição, perguntam as capacidades ou habilidades que a pessoa tem ou pode fazer, sendo portadora de deficiência. E uma das capacidades que apresentei no acto da inscrição na LARDEF foi a da natação. Então, eles levaram-me para a Piscina do Alvalade. E, naquela altura, Angola não dispunha de uma equipa de natação para pessoas portadoras de deficiência. Angola não tinha uma Selecção de natação para pessoas portadoras de deficiência. Então, surgiu ali a ideia de criarmos uma selecção paralímpica de natação de Angola por causa da presença do Zé Túbia que foi levado ali pela LARDEF. E assim nasce a Seleção Nacional Paralímpica de Natação de Angola, por causa do Zé Tubia.
Também é artista plástico e já teve as suas obras exibidas a nível internacional, pois não?
Sim, sou artista plástico, dom desenvolvido após o acidente da granada, onde perdi as 2 mãos e a vista / olho direito. Fui desenvolvendo este dom de desenhador e, quando fui viver em Luanda, comecei como artista plástico, nadador e músico. Mas foi nas artes plásticas onde eu comecei a dar nas vistas. Já tive exibições das minhas pinturas em Genebra, em 1999, por ocasião das festividades do Segundo Tratado de Ottawa, que proíbe a utilização ou a produção de minas terrestres. Ali, eu exibi a minha arte / pintura, diante do Sir Paul McCartney, o ex-Beatle, que esteve presente neste festival de Ottawa, no Palácio das Nações Unidas, em Genebra. Tive também a exibição da minha arte em Washington, em Luanda, no Brasil e cá em Londres.
As suas letras retratam questões sociais de forma aberta. Tem sofrido represálias pelas suas canções?
Boa pergunta... estava à espera desta pergunta. Sim, a minha arte musical tem sofrido boicotes e represálias da parte do Satanás, os bandidos que estão no poder, vestidos de governantes, com o nome de MPLA. Essa gente tem desmerecido, tem assassinado o meu carácter, a minha arte, reduzindo-me a nada, tentando programar a mente das pessoas contra a minha pessoa, com os seguintes dizeres: "Esse Zé Túbia não existe, é Inteligência Artificial. Esse Zé Túbia não tem as duas mãos, não consegue escrever, não sabe escrever''...
E ouvir isso é bué triste, porque essa gente toda, começando pelo próprio Presidente João Lourenço, conhece-me. Já tiveram contacto comigo, em 2003, na Assembleia Nacional. Já viram a minha arte. Eu já apareci, por várias ocasiões, nas televisão deles, a pintar ao vivo, a falar da minha arte. Mas como me perderam de vista, escorreguei-lhes feito sabonete na mão, eles buscam reduzir-me a um inútil, que não tem capacidade intelectual, psicológica e física para fazer o que faço.
Na verdade, essa gente tem feito de tudo para me desacreditar e tentar assassinar o meu bom nome e carácter. Mas eu tenho Deus, sei de que trono eu falo. Eu falo a partir do trono do amor, tudo o que eu faço nas minhas ketas, tudo o que eu falo e retrato vem do trono do amor de Deus. Faço por amor ao povo, disponibilizo as músicas, a minha arte, a minha história de forma grátis para que os outros despertem e se inspirem nela. Busquem força e não se deixem levar pela música distorcida, descompassada, desafinada, da mentira e do engano do MPLA.
Tem sido convidado em shows na Europa?
Sim, já tive alguns convites cá em Londres, para algumas actividades da comunidade mwangolé, para Portugal e para Moçambique. Rejeitei / declinei todos. Não há condições de segurança. Conheço esse pessoal. O MPLA infiltrou muitos agentes cá nas comunidades angolanas na diáspora.
Esses "wys" são promotores de eventos. E eu, como sou bué vivo, já dei conta, não aceito. Eles propõem o pagamento, propõem o convite, eles querem uma prova contra o Zé Túbia por meio desses pagamentos para depois esfregarem na minha cara ou na cara do povo que o Zé Túbia é um vendido e corrompido...
Mas, na verdade, essa arte que eu vou fazendo, a qual chamo de artivismo, é mesmo grátis. Não faço em busca de protagonismo, fama ou dinheiro. Por isso é que eles não conseguem parar-me. Declino todos os convites e vou fazendo só mesmo o meu artivismo, despertando o povo. Lá em frente, se Deus quiser, e no tempo de Deus, o dinheiro depois virá.
E para Angola? Também tem recebido convites para shows?
Não, eu nunca tive. Aí é impossível. O MPLA controla o monopólio da arte. Principalmente da música, por meio da LS Produções, do Kangamba, do dinheiro de Angola, para amordaçar os angolanos. Então, seria muito impossível. Ainda que tivesse um convite para shows em Angola, também não aceitaria ir para Angola nas condições em que nos encontramos e na posição [de odiado pelo MPLA] em que me encontro. Contra este desgoverno que está no poder. Impossível.
Então não vive da música? Vive de outra profissão?
A minha vida é produto de um milagre. Eu sobrevivi ao acidente por um milagre de Deus. Deus não deixou, não permitiu que eu morresse, porque me guardou para esse momento: despertar o povo angolano. E de lá para cá, sempre vivi pelo milagre de Deus. Vivo do milagre de Deus na minha arte, vou ganhando um pouco aqui, invisto um pouco ali e com a graça de Deus em mim, vou multiplicando os meus activos. E vivo disso, da graça de Deus. Essa é a mais pura, completa e sincera resposta à pergunta que me faz. É a graça de Deus que me sustenta.
Já se pode dizer então que faz dinheiro com a música que produz, certo?
Sim, numa ou outra música de homenagens que eu faço, cobro, recebo alguma coisa, vendo em alguns sites uma ou outra música. Mas na música revolucionária contra as mentiras e as manipulações do MPLA ninguém investe. Ninguém compra. Eu faço mesmo por amor ao meu povo, a minha Angola e à minha própria vida que carrega marcas deixadas pela incompetência, burrice, estupidez dessa gente do MPLA. E vou continuar fazendo na graça de Deus, para despertar os angolanos contra o MPLA, contra o regime.
Como selecciona os temas das suas canções?
Eu sou artista, eu penso, eu faço, eu crio e eu mesmo selecciono os temas. Tenho Deus como parceiro. Deus vive dentro de mim. Deus me dá sabedoria, Deus me ilumina, me leva a investigar as bandeiras do MPLA, os temas candentes ou picantes da actualidade. Ligo para pessoas que conheço em Angola, me passam as informações, eu mesmo componho a letra e faço a keta acontecer. Depois lanço. Só tenho mesmo Deus como parceiro nisso, para selecionar, para criar e fazer acontecer as ketas.
Quais são as principais dificuldades que enfrenta no seu quotidiano?
São várias dificuldades e, ao mesmo tempo, nada. Nada quando deixo de olhar para o que é externo, para a aparência, para o físico e olho para dentro, para o espírito e vejo que eu sou completo no espírito e nada me falta.
Não preciso do externo ou da aparência como carro, dinheiro ou roupas de marca para me fazer feliz.
Sou feliz porque a minha essência é o espírito, eu vivo a partir do espírito. Dentro de mim, sou feliz, sou completo, não me falta nada. Mas quando olho para fora de mim, para o que é externo / aparência, falta de tudo um pouco. Muitas dificuldades, a limitação física que eu carrego, o sofrimento do kandengue, do velho e da mulher inocente que são obrigados a alimentar-se num contentor de lixo. Tudo isso entristece, tudo isso faz confusão na mente. Tudo isso desperta uma revolta e leva-me a concluir que me falta muito.
Tenho faltas e dificuldades. Se eu pudesse e tivesse o poder material de ajudar essas pessoas, com alimentação, roupa e outras condições como medicamentos, eu o faria. Mas não tenho. Então, o que eu tenho, eu ofereço para essa gente, que é a visão, o despertar da consciência, da mente colectiva mwangolé. Trago isso nas ketas, alimento a alma deles, alimento o espírito e a esperança deles. Eles se revêem nas ketas, recebem essa frequência, choram e despertam das mentiras e das manipulações do MPLA, o Satanás...
Como olha para a inclusão da pessoa com deficiência física em Angola?
Desde já, eu acredito que esse Governo do MPLA só fez 0,5 em benefício das pessoas portadoras de deficiência, principalmente dos antigos combatentes ou os seus descendentes e aqueles que, de forma indirecta, foram vítimas dessa guerra criada e sustentada pela ambição cega do MPLA. Eu eu faço parte desse grupo de pessoas que foram vítimas indirectas dessa guerra.
Ora, vejamos, eu ouço ali alguns ''zum-zuns'' dizerem que está sendo construída uma vila para os kuduristas. Os kuduristas cobram cachê, ganham bué de dinheiro. O MPLA é quem os usa e paga-lhes com dinheiro de todos nós. Com esse dinheiro, esses rapazes kuduristas deviam ter comprado terreno e construído as suas próprias casas, mas vivem a mendigar para o MPLA. E o MPLA gosta desse tipo de jovem, porque é o protótipo de jovens que eles querem. E isso leva ao desprezo e ao abandono daqueles que o próprio MPLA usou na guerra e acabaram perdendo as pernas, as mãos, as vistas ou que destruíram as famílias nessa guerra.
Estas pessoas é que deviam ter sido apoiadas por esse tipo de projectos e não os kuduristas. Mas, voltando para a sua pergunta, o MPLA não tem feito praticamente nada a favor da inclusão das pessoas portadoras de deficiência física, quer seja das vítimas de guerra, de forma directa (aqueles que combateram), assim como, de forma indirecta, daqueles que não combateram, mas acabaram sendo vítimas dessa guerra, como eu, Zé Túbia, sou.
O que representa o Lobito para si?
O Lobito, para mim, representa muito: o meu berço, minha terra, meu chão, minha infância, minha história e uma conexão espiritual. Representa uma parte da minha vida, de lembranças tristes, do que passei, do que sofri, das humilhações, mas também das lembranças muito boas, de onde tudo começou. Onde nasci, onde eu cresci, onde eu brinquei e aprendi a ser alguém para depois despontar para Luanda e de Luanda para fora. Então, o Lobito é tudo isso ao mesmo tempo na minha vida.
No seu Lobito, onde foi nascido?
Nasci e cresci no Lobito Velho, um bairro maioritariamente habitado por pescadores. Meu pai foi mestre de pesca e, a minha mãe, doméstica.
Zé Túbia é casado? Quantos filhos tem? Quer falar um pouco da importância deles na sua vida?
Sim, sou casado, tenho sete filhos, tenho um casal de netos e uma família bué maravilhosa, abençoada, que Deus me deu. Cuido deles com muito amor e eles cuidam de mim também com muito amor. Somos muito amigos e são os melhores amigos que Deus me deu. Vivo com todos eles cá em Londres. Três nasceram em Angola.
Antes de vir a Londres, eu tive três filhos em Angola, deixei-os com a esposa lá e vim para Londres. Preparei as condições, chamei a família para que viesse e se juntasse a mim cá no Reino Unido. E cá no Reino Unido nasceram mais quatro filhos, totalizando o número sete. Os meus netos nasceram também cá no Reino Unido.
Como se define?
Defino-me como um ser humano normal, como qualquer um. Um irmão angolano, cristão, que ama a sua terra e luta por ela, sonha ver uma Angola reunida, em que a gente não se categorize mais pelos do sul ou do norte, mulato, branco ou negro, deficiente físico ou não deficiente físico, mas que o denominador comum seja o amor por Angola, pelo nosso povo, pela nossa terra. Que todos nós tenhamos os mesmos direitos daquilo que a terra dá e tem para todos nós. Então, eu me defino como este homem que luta para que isso aconteça. Nasci e vivo nesta geração para cumprir um propósito, e tudo que venho fazendo é parte deste propósito que está sendo cumprido na nossa geração.
Como olha para o País?
Olho para Angola com uma certa tristeza, por ver e perceber naqueles que têm o poder de decisão e gestão daquilo que é de todos nós uma grande cegueira, orgulho, ambição e muita maldade, empurrando o povo inocente, kandengues, velhos e mulheres no mais baixo desprezo e a se alimentarem com os cães no contentor de lixo. Isso entristece quando olho para esta Angola. Mas também olho com esperança quando vejo irmãos espalhados por esse mundo afora, lutando para uma Angola melhor, livre, inclusiva e próspera para todos, movimento do qual faço parte. Isso me dá esperança, me dá força e acredito que em 2027 vamos conseguir, com a graça de Deus, porque a alternância já aconteceu. Sinto isso no espírito e é só uma questão de tempo para que aquilo que eu sinto no espírito se manifeste na matéria, se manifeste na terra, nas nossas circunstâncias e em nossas vidas.
Tem saudades de Angola?
Tenho bué de saudades de Angola, da minha terra, da minha gente, das nossas vivências, de tudo um pouco. Gostaria um dia de lá voltar para abraçar os meus amigos, para voltar a palmilhar os lugares que um dia palmilhei na bandula.
