Primos-como-Irmãos (romance) e Fabuloso Mundu Iêtu (fábula), já apresentados em Lisboa, cidade em que cada vez mais a diáspora angolana (africana em geral) vai marcando a agenda cultural, são textos do realismo nacional, onde o escritor, sem falinhas mansas, faz a denúncia dessa sociedade levada ao abismo pela elite política.

Em Primos-como-Irmãos, cativante romance, o Mwadyakimi retrata o comportamento dos colonos, a resistência angolana à ocupação colonial e o modus vivendi de certa elite da sociedade colonial e pós-colonial angolanas, numa crítica social mordaz, como é seu apanágio.
A trama do livro, bem estruturado, bem escrito e que se lê num fôlego, abarcando o fim do período de dominação colonial portuguesa e a Angola pós-colonial, independente, passa-se entre Angola e Portugal e, dentro de Angola, entre A Sul do Rio Grande e a capital, Luanda.

Baseado no carácter, venturas e peripécias da atribulada vida do ambicioso Basílico em Angola e em Portugal para onde bazou, o romance relata as agruras da sociedade colonial, a repressão e opressão, o racismo, a luta dos angolanos, bem como a decadência ético-moral na actualidade.
Tal como na obra O Primo Basílio, em que Eça de Queirós descreve a sociedade burguesa portuguesa do século XIX, em Primos-Como-Irmãos, Jaques dos Santos pega no quotidiano de um País que clama por mudanças contra as injustiças, para descrever um tempo e a desregulação de uma sociedade que precisa de se afirmar no mundo.

Se na obra de Queirós a personagem principal é o primo Basílio, que tem um romance clandestino com a sua prima Luísa, mesmo depois de esta se casar, Jacques dos Santos atribui ao protagonista principal do enredo o nome de Basílico (Benjamim Borges), primo-como-irmão de outras figuras centrais da estória, nomeadamente Man Germano Parte-os-Cornos e Francisco da Cruz, secretário para a informação do (seu) partido.

A começar pelo título, Primos-como-Irmãos dá ênfase à História de Angola e à cultura mbundu, nomeadamente às relações de parentesco desses povos e a influência europeia, bem como ao papel da família na tomada de decisão individual.
Enquanto nas relações de parentesco europeias os primos-como-irmãos são primos de primeiro grau, na cultura tradicional mbundu, centrada em laços uterinos e de proximidade, por exemplo, os filhos de duas irmãs são simplesmente irmãos ou manos.
O lugar do feitiço na vida dessa elite local, resultante, por um lado, de factores culturais, mas, por outro, de um certo obscurantismo condicionante do progresso da própria sociedade, perpassa por toda a obra.
A resistência à ocupação colonial está descrita através de diversas referências, particularmente do Chiquito Afamado, exímio guerrilheiro que lutava contra os militares tugas, da luta clandestina de políticos nacionalistas angolanos e do 4 de Fevereiro, data que simboliza o eclodir da Luta Armada de Libertação Nacional em Angola.

Luta pela dignidade humana e pelo direito de os angolanos escolherem o seu próprio destino, bem como sonharem com um futuro melhor, como fazia o nacionalista da clandestinidade "Zé Augusto," que sonhava ser ministro dos Negócios Estrangeiros de uma Angola independente e que foi "encarcerado pela segunda vez pelos seus ideais".
A discriminação racial e a estratificação das raças, através de uma espécie de sistema de castas, em que os pretos, os da casta inferior, não tinham direitos e eram vilipendiados, maltratados e humilhados (as mulheres violadas e estupradas) pelos colonos, são muito bem dissecadas pelo autor.
Neste sistema de castas raciais (liderado pelos brancos, em que quanto mais claro fosse o tom de pele, mais privilégios tinha o indivíduo), depois dos brancos, seguem-se, por ordem decrescente, os "cabritos", "mulatos", "cafuzos", "pretos fulos", "pretos finos" e, por fim, os pretos propriamente ditos. A maioria esmagadora.

Estes últimos eram os indígenas, os não assimilados, do estatuto colonial do indigenato que dividia os angolanos entre assimilados e indígenas em função da sua maior ou menor aculturação e tom de pele.
Os "festivais de crueldade", traduzindo a barbaridade e o sadismo coloniais, uma constante dos colonos, são bem demonstrados nesta frase lapidar do livro: "os gajos ejaculam quando são enforcados... - dizia Caguinchas com uma alegria incontida nos olhos maldosos, ao contar as suas façanhas".
Caguinchas, amigo e colega de infância e de escola de alguns dos nacionalistas, como Chico Tibúrcio ou Balbúrdia, por si executados sem qualquer piedade, em actos de extrema violência, como espancamentos à mocada, fuzilamentos e enforcamentos, é o protótipo do indivíduo ao serviço do sistema assassino dos colonos.

A conquista da Independência, a seguir ao 25 de Abril, golpe de Estado que derrubou a ditadura fascista em Portugal, depois de mais de uma dezena de anos de Luta Armada de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, a euforia da Independência e a esperança no "Homem Novo" (revolucionário, justo e libertador) contra o "Homem Velho" (reacionário, explorador e opressor), também merecem a atenção de Jacques dos Santos.

O romance do realismo angolano termina com a denúncia dos desvios do processo emancipatório, das gritantes desigualdades, da corrupção e da miséria que criam novas castas na sociedade angolana. Aqui, o Mwadiakimi Jacques mostra a sua veia de intrépido defensor da moral e da ética republicanas.

Na mesma linha e indo ao encontro do seu anseio e do clamor das populações que rogam por um país diferente para melhor, na fábula Fabuloso Mundu Iêtu, o escritor reafirma a necessidade da luta pela materialização dos sonhos de ontem e de hoje por liberdade com dignidade.
Sonhos em tudo diferentes do que se passa na Nação Wakangu (palco central da fábula), dirigida por Katambi (pequeno óbito/desgraça, em kimbundu), ou seja, um pequeno ditador desse reino animal onde se "sonha mentirosamente com processos de democratização da sociedade".
Um retrato facilmente identificável com Angola da actualidade, na boa pena de um intelectual que faz da integridade um valor inegociável, num Pais em que esta virtude parece em vias de extinção e a caminho de se tornar objecto de museu.
Nessa Nação Wakangu, onde não faltam as famigeradas "ordens superiores" e é "proibido discordar do Ngana Chefe", a justiça não é justa, não julga, a comunicação social é conivente com o poder e a resignação de alguns mais parece apoio ao ditador em miniatura, como se percebe pela expressão em kimbundu: "Tu rila ngo, Tu banga Kiêbi", ou seja, não podemos fazer mais do que chorar.
Na fábula, maribondos e hienas definem o "retrato implacável da maldade" dessa sociedade totalitária, onde "ser chefe dá direito a ter sempre razão" e o chefe, "horrível e temido homem, era um indivíduo feio como a fome", flagelo que condena injustamente à morte milhões de angolanos de todas as idades.

Por isso, fazendo lembrar a Política de Clemência e Harmonização Nacional de 1976, a sociedade do Fabuloso Mundu Iêtu precisa de instituir um "dia de clemência e do perdão", para amnistiar a elite predadora.
Um pedido de perdão particularmente dirigido àqueles aos quais a sociedade, assente em desigualdades, retirou o direito à prosperidade, ou seja, a uma vida com dignidade.
Fabuloso Mundu Iêtu e outros escritos do Mwadyakimi Jacques mostram o papel central das parábolas, provérbios metafóricos e ditados na educação e no processo de socialização em África.

Tal como o moçambicano Luís Bernardo Howana nos contos do livro Nós Matámos o Cão Tinhoso, referência da literatura moçambicana, também o Mwadyakimi Jacques usa bichos maus para simbolizar o opressor.
Se Honwana denuncia a ditadura, o colonialismo e o racismo portugueses em Moçambique, já o escritor angolano, nesta fábula de texto elegante como a escultura de uma kianda, agradável e cativante, que se lê num fôlego, desnuda o totalitarismo na sua Pátria no pós-independência.