Entre os analistas dos mercados petrolíferos cresce a olhos vistos uma dúvida que não deveria ser difícil de ver para os media especializados: como é que refinarias em todo o mundo continuam a arder, o Estreito de Ormuz permanece fechado e os mercados energéticos parece que foram lobotomizados?

Por exemplo, Jeffrey Currie, da Abaxx Commodity Futures Exchange, num recente podcast, referia que não há como explicar que os refinados do crude, como gasóleo e gasolina, tenham quase duplicado o seu valor nos mercados globais e o barril de petróleo mal se tenha mexido.

Só uma tremenda e bem calculada manipulação permite que um cenário destes esteja a desenvolver-se à frente de todos, como nota Chris Martenson, investigador na área dos mercados, que no podcast de Mario Nawfall, notava já há semanas que nunca como hoje se assistiu a tamanha e bem sucedida manipulação.

Mas numa coisa todos os analistas independentes estão alinhados: este "teatro" não é possível de aguentar por muito mais tempo, visto que as reservas estratégicas das grandes economias, às quais, sendo libertadas estrategicamente para compensar, muito se deve este "estranho equilíbrio", estão à beira do colapso, como é disso exemplo os EUA, sendo reconhecido esse perigo pelo próprio Donald Trump.

Além das novas ameaças de Trump sobre Ormuz, contra Omã e o Irão, como sempre, o Memorando de Entendimento (MdE) que EUA e Irão assinaram em Junho, extinguiu-se esta segunda-feira, 17, sem qualquer resultado.

A guerra está relançada de novo... e os primeiros indícios disso é o evidente aumento de ataques aos petroleiros e cargueiros que procuram passar por Ormuz fora do controlo de Teerão, mesmo depois de o Irão e Omã, terem acertado agulhas na definição de rotas, o que enfureceu Trump.

E acresce a isto que também o Estreito de Bab-el-Mandeb, entre o Mar vermelho/Suez e o Oceano Índico, está sob fortes restrições impostas pelos Houthis, do Iémen, que estão de novo em guerra quase aberta com a Arábia Saudita, onde as refinarias mais importantes do Golfo continuam a arder.

Ainda assim, o barril de Brent, a principal referência para as ramas exportadas por Angola, estava esta terça-feira, 18, perto das 11:00, hora de Luanda, a valer 90,03 USD, com uma ligeira descida de 0,03%.

Angola soma ganhos, mas...

O actual cenário internacional tende claramente a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara com os actuais 90 USD, no caso do Brent, cerca de 29 USD acima desse valor.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.