Desde que esta epidemia do vírus hemorrágico mais letal conhecido foi detectada oficialmente, a 15 de Maio, embora existam indícios científicos de que o vírus já está activo desde Janeiro, que os campos de refugiados estão sob máxima vigilância.
Uma das ferramentas usadas pelas autoridades sanitárias congolesas, em coordenação com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o CDC-África, o centro de controlo de doenças da União Africana, para tentar evitar que a infecção entre nestas áreas é usar militares para os manter sob observação.
Para isso, nas áreas de maior agitação de guerrilhas, como as ugandesas ADF, ligadas ao daesh, na província de Ituri, onde começou a espalhar-se, estão a ser colocadas unidades especiais da MONUSCO, a missão militarizada e armada da ONU, uma das poucas no mundo com mãos livres para entrar em combate.
E agora esse risco vem plasmado num alerta do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), na RDC, sobre a ocorrência de infecções confirmadas em pelo menos cinco dos 69 campos de refugiados oficiais.
Este aleta emerge de um cenário de elevado risco com a OMS e o CDC-África a admitirem que o vírus tem mais agilidade que as forças que combatem, apresentando uma taxa de expansão entre as mais elevadas desde que o Ébola foi pela primeira vez detectado em humanos, em 1976, na província do Equador, no oeste da RDC.
No documento divulgado pelo ACNUR está dito que o Ébola está a "espalhar-se rapidamente" nos campos de deslocados RDC, onde o número de mortes confirmadas é agora de 1.850 e os casos registados se elevam a 4.053.
O ACNUR, como cita a Lusa, alertou também que os deslocados internos que vivem em acampamentos, que muitas vezes não têm acesso à água potável e infraestrutura sanitária, e muitos dos quais desconfiam dos serviços de saúde, criam um "ambiente propício à disseminação do Ébola".
As províncias de Ituri - onde, segundo as autoridades de saúde congolesas, estão concentrados 87,1% dos casos -, Kivu do Norte, Kivu do Sul, Alto Uélé e Tshopo abrigam cerca de 4,4 milhões de deslocados internos e estão a ser afetadas pelo vírus.
Segundo o último relatório divulgado pelas autoridades do país, existem atualmente 4.053 casos confirmados, dos quais 694 são pacientes em isolamento ou hospitalizados, enquanto o número de mortes subiu para 1.850, o que eleva a taxa de letalidade para 45,7%.
Além disso, recorda ainda a Lusa, 793 pessoas estão a recuperar da doença e a taxa de rastreamento de contacto é de 77,7%.
A epidemia atual tornou-se, em 31 de julho, o segundo surto com o maior número de infeções registadas na história e o maior em termos de infeções na RDC, depois de ultrapassar o que também ocorreu no leste do Congo entre 2018 e 2020, que causou 2.299 mortes e 3.481 casos.
Esta é a 17.ª epidemia a afetar a RDCe é a que apresenta o crescimento mais rápido de infeções em comparação com qualquer outro surto desde a sua declaração, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Segundo a OMS, o vírus começou a circular em Ituri cerca de dois meses antes da declaração oficial do surto, embora uma pesquisa publicada pela revista "Science" no final de julho tenha sugerido que as primeiras infeções podem ter ocorrido pelo menos já em janeiro.
No entanto, ainda está longe da pior epidemia de Ébola da história, que ocorreu na África Ocidental entre 2014 e 2016 e causou cerca de 11.000 mortes e 28.000 infeções.
O país vizinho, o Uganda, onde a doença também se espalhou, declarou-o "livre do Ébola" em 28 de julho, após 20 infeções confirmadas, incluindo 15 casos considerados importados da RDCongo, entre os quais houve duas mortes.
A epidemia corresponde à estirpe Bundibugyo, cuja taxa de mortalidade varia entre 30% e 50% e para a qual não existe vacina autorizada ou tratamento específico, segundo a OMS, que considera o risco de propagação do surto na África Subsaariana como "alto" e "baixo" em escala global.
O vírus do Ébola é transmitido por contacto direto com fluidos corporais de pessoas ou animais infetados e causa febre hemorrágica grave, vómitos, diarreia e hemorragia interna.









