Desde o começo da invasão russa, a 24 de Fevereiro de 2022, que o líder ucraniano "sabe" que os russos não vão usar nenhuma das suas mais sofisticadas armas hipersónicas para o eliminar.

A garantia de Vladimir Putin de que a Rússia não estava nem iria tentar eliminar Volodymyr Zelensky chegou a Kiev pela voz do então primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett, após este ter estado em Moscovo com o Presidente russo. Mas parece muito que essa garantia caducou.

Zelensky pode ter dado um passo em falso ao ameaçar publicamente toda a aviação comercial a atravessar o espaço aéreo da Federação Russa de um ataque iminente pelos seus drones de longo alcance.

O Presidente ucraniano lançou um aviso às companhias aéreas que usam o espaço aéreo russo, afirmando que todos os voos comerciais estão a partir de agora em risco devido à crescente capacidade dos drones ucranianos de longo alcance.

Esta ameaça de Zelensky não é a primeira feita contra os voos comerciais em território russo, porque os aeroportos de Moscovo e de São Petersburgo estão, amiúde, sob ataque de drones ucranianos sendo encerrados múltiplas vezes nos últimos dois anos por precaução.

Mas a colocação dos voos comerciais na mira dos novos drones de Zelensky, constitui uma escalada no "excel" das ameaças ucranianas contra a Rússia, porque os aviões de passageiros não possuem capacidades militares de defesa contra este tipo de ataques.

Na reacção a esta ameaça, questionado pelos jornalistas em Bishkek, capital do Quirguistão, onde esteve no âmbito da Cimeira da Organização para a Cooperação de Xangai (SCO), Vladimir Putin disse que Zelensky assumiu a condição de "líder de um Estado terrorista" e será tratado como tal.

A frase de Zelensky que enfureceu Putin foi esta: "Os dias seguros nos céus da Rússia acabaram. O espaço aéreo russo é agora completamente inseguro, especialmente os voos comerciais que se dirigem para Moscovo ou São Petersburgo".

No mesmo momento, enquanto, a partir da capital do Quirguistão, reagia ao vídeo de Zelensky divulgado nas redes sociais, Putin disse que estranhava estas declarações do ucraniano porque "ele tem estado a pedir para se voltar a negociar a paz".

"E ele sabe que nós não negociamos com terroristas que é o que (Zelensky) acaba de assumir que o seu país é, um Estado terrorista", avisou o chefe do Kremlin, que ao longo das duas décadas de liderança na Rússia disse e repetiu sempre que Moscovo não lida com terroristas, elimina-os.

"Gostaria ainda de chamar a atenção para o facto de eles estarem a pedir para se voltar às negociações em encontros cara a cara quando sabem que nós não aceitamos nunca negociar com terroristas", apontou o Presidente russo.

Na mesma toada, garantiu que a Rússia não terá dificuldades em responder "de forma adequada" se estas ameaças resultarem numa tragédia e acrescentou que "é melhor que em Kiev não exista qualquer dúvida quanto a isso".

O que foi, afinal, fazer o chefe da CIA a Moscovo?

Nesta mesma conferência de imprensa em Bishkek, capital do Quirguistão, Vladimir Putin levantou o véu sobre a misteriosa, e que até agora estava por explicar e perceber, viagem de John Ratcliffe, o director da norte-americana CIA, a Moscovo, na passada terça-feira, 28 de Agosto. (ver links em baixo)

Após um encontro com o Presidente do Irão, Massoud Pezeshkian, à margem da Cimeira da SCO, Vladimir Putin fez, pela primeira vez, e algo raro na sua forma de agir, uma declaração a anunciar formalmente que a Rússia está a apoiar militarmente o Irão.

Ao longo da guerra que os EUA, conjuntamente com Israel, declararam ao Irão, a 28 de Fevereiro, Donald Trump disse por diversas vezes que acreditava que Moscovo não estava nem iria apoiar o Irão.

A resposta foi agora dada por Putin, que não apenas vai continuar a apoiar militarmente Teerão como já o está a fazer desde o início da guerra, dizendo isso em público e ao lado de Pezeshkian.

Ora, o que levou Putin a dar este passo claramente inamistoso para com os Estados Unidos?

A resposta deu-a o próprio ao fazer saber que Teerão conta com a ajuda russa para reagir e contra-atacar nos bombardeamentos americanos sobre o Irão que esta semana foram retomados com renovado vigor.

E o que tem isto a ver com a ida do director da conhecida agência de intelligentsia externa norte-americana a Moscovo?

É que Ratcliffe, como os analistas mais próximos de Moscovo têm repetido, é um empenhado activo anti-Rússia na Administração Trump e a CIA tem estado colada com especial vigor ao apoio à Ucrânia na guerra com a Rússia.

Além disso, foi, é convicção do Kremlin, ainda segundo vários analistas ligados à Rússia, a CIA que organizou e apoiou Kiev na tentativa de assassinar Putin em Valdai, perto de São Petersburgo, em Dezembro de 2025, com dezenas de drones, quando o Presidente russo estava ao telefone com Donald Trump a partir daquele local.

Esta rara confirmação em público de que Moscovo está a apoiar um país que está em guerra com os EUA, coisa que até na Guerra Fria a então União Soviética raramente fazia, apesar das evidências, sendo disso um bom exemplo a guerra do Vietname, foi claramente pensada para alcançar um objectivo concreto.

O que tem tudo para que essa confirmação seja, neste contexto, vista como "a" resposta de Putin a um pedido de Ratcliffe, provavelmente em nome de Trump, porque a CIA tem, naturalmente, essa informação, para Moscovo deixar de ajudar o Irão a defender-se, permitindo assim a Washington mais facilmente vergar Teerão à sua vontade.

É que Trump e o seu Partido Republicano precisam com urgência ganhar a guerra com o Irão e reabrir o Estreito de Ormuz de forma a debelar os problemas que esta situação está a provocar na economia dos EUA, e do mundo, quando faltam pouco mais de dois meses para as eleições intercalares de Novembro.

É que se Trump perder a maioria Republicana no Congresso, no Senado e na Câmara dos Representantes, não apenas fica tolhido na sua acção para ordenar operações militares no estrangeiro, como tem à perna, como a oposição já garantiu, vários processos de destituição.

Um deles é garantido devido ao caso dos Ficheiros Epstein, o maior escândalo de pedofilia de sempre e nos quais o nome de Trump é dos mais citados, que o Presidente prometeu divulgar na totalidade, mas manteve no segredo dos deuses claramente para se proteger.

O outro é porque lançou a sua guerra contra o Irão sem, como a Constituição impõe, informar previamente o Congresso, o que a oposição Democrata não lhe perdoa.

E só se conseguirá libertar deste cenário se ganhar as eleições de Novembro, o que parece cada vez mais difícil, segundo as sondagens, porque os eleitores desaprovam numa esmagadora maioria esta guerra e têm como principal exigência que os combustíveis regressem ao preço de antes da guerra com o Irão.

Para o conseguir, Donald Trump tem de abrir o Estreito de Ormuz, o que só será possível de duas formas, ou forçar o Irão a isso pela via das armas ou através de uma negociação, mas essa possibilidade o norte-americano parece já dela ter abdicado, como se percebe pela retoma dos bombardeamentos contra o Irão nas últimas 24 horas.