Com esta publicação, Donald Trump confirma que a reunião com a sua equipa de Segurança Nacional, cujo único ponto da agenda era definir a hora e o dia para voltar a atacar o Irão, fazia parte, afinal, de mais uma manobra de distracção para enganar os iranianos.
Além deste encontro, a Casa Branca, como foi anunciado em Teerão, tinha enviado uma nova proposta para discussão das condições para o fim da guerra com cinco pontos, que, afinal, era igualmente uma ferramenta para camuflar o ataque iminente.
Recorde-se que o mesmo já foi feito em Junho de 2025, quando os EUA e Israel atacaram o Irão num momento de intensas negociações sobre o programa nuclear de Teerão e com uma nova ronda negocial agendada para o dia seguinte ao ataque.
E em 28 de Fevereiro deste ano de 2026, a coligação israelo-americana voltou a atacar o Irão quando a Casa Branca tinha agendada uma nova ronda negocial em Viena de Áustria, sede da Agência Internacional de Energia Atómica, para, de novo, encontrar uma solução.
Nesse ataque de finais de Fevereiro, que começou com o assassinato do Líder Supremo, aiatola Ali Khamenei, e mais 50 chefes militares e políticos, e a morte de 168 crianças na escola primária de Minab, um dos mais violentos crimes de guerra em décadas, teve início o conflito que ainda perdura, embora esteja em vigor um cessar-fogo desde o início de Abril.
Este novo ataque israelo-americano, que deveria acontecer hoje, segundo palavras do Presidente dos EUA, para o qual Donald Trump estava a ser pressionado publicamente em Telavive pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyhau, foi cancelado a pedido dos países árabes do Golfo Pérsico.
Isto, quando o Presidente iraniano, Masssou Pezeshkian, tinha feito saber que os dois países, Irão e EUA, estavam a avançar positivamente em negociações mediadas pelo Paquistão, com progressos sólidos, deixando entender estarem em curso cedências de ambos os lados.
Do lado iraniano ficou claro que havia, e há, disponibilidade para aceitar um período longo de suspensão do seu programa nuclear e, provavelmente, entregar a um terceiro país o seu urânio enriquecido em percentagens pré-militares (60%) para utilização em produção de armas atómicas, bem como facilitar o tráfego marítimo por Ormuz.
E do lado norte-americano era igualmente evidente uma vontade de ceder nas condições maximalistas até agora conhecidas, abandonando as exigências sobre o desmantelamento dos sistemas de misseis avançados iranianos, desligar a ficha dos alaidos regionais de Teerão ou ainda no capitulo das sanções internacionais...
A única força motriz a empurrar Trump para a guerra conhecida publicamente era a de Netanyhau, em Telavive, e o senador Lindsey Graham, a cara mais conhecida do lobby israelita, em Washington, e seu amigo de décadas.
Alegadamente, este cancelamento de última hora da retoma da guerra contra o Irão, foi feito a pedido dos líderes da Arábia Saudita, do Catar e do Kuwait, que lhe asseguraram estarem envolvidos em "negociações muito sérias" e prometedoras com o Irão.
Logo a seguir, num claro esforço para reduzir as tensões e reconduzir o "combate" para a mesa das negociações, o Presidente iraniano veio dizer, citado pela Farsi, a agência de notícias estatal do país, que "o diálogo não significa uma rendição".
Pelo contrário, Massoud Pezeshkian acrescentou que que o Irão está neste processo de diálogo com "dignidade, autoridade e para assegurar a preservação dos direitos da Nação iraniana", notando igualmente que as negociações em curso "são sérias e rigorosas".
Apesar deste empenho regional, que envolve todos os países do Golfo Pérsico, Donald Trump, no mesmo longo texto publicado na sua rede social, sublinha que se trata de uma suspensão temporária dos ataques e não o seu cancelamento definitivo.
Mas deixou uma rampa escapatória na qual se pode "ler" que foi convencido que as consequências económicas - que levaram sauditas e cataris a agir preventivamente - seriam de tal modo trágicas se voltar a atacar o Irão que a saída para a paz é não apenas aconselhável, é a única saída que evitar a catástrofe global.
É que o Irão poderia não apenas fechar por longo meses o Estreito de Ormuz, uma das artérias vitais e insubstituíveis da economia mundial, mas também tem capacidade para destruir toda a infra-estrutura energética do Golfo Pérsico.
Com isso, atiraria para fora de circulação por anos 20% do crude e do gás mundiais, mas também secar as suas fontes de vida, que são as centrais de dessalinização de água do mar sem as quais a vida é impossível nos moldes actuais e modernos nos países árabes do Golfo e em Israel também.
E nos últimos dias, o que, segundo alguns analistas, terá sido a gota de água que levou Donald Trump a desligar o telefone para Benjamin Netanyhau e o seu amigo Lindsey Graham, pelo Golfo Pérsico passam os cabos submarinos de fibra óptica que literalmente ligam o mundo ocidental à Ásia, onde predominam as gigantes tecnológicas norte-americanas, como a Apple, a Nvidia, a Microsoft, Cisco, AT&T, Verizon...
Se estes cabnos fossem destruídos pelo Irão, o que segundo vários especialistas, seria ainda mais fácil que manter fechado o Estreito de Ormuz, a economia norte-americana poderia colapsar resultado de um misto de efeito borboleta nas bolsas e na desconfiança dos investidores, aliado à inflação e à crise incandescente no sector agrícola devido à falha dos fertilizantes que dependem do Golfo Pérsico.
Tudo somado, Donald Trump parece estar agora a apostar claramente como rampa de saída da "auto-estrada" da guerra em que estava a circular em grande velocidade na ideia de que pode ganhar a guerra com o Irão "apenas" garantindo que este país "nunca terá uma bomba nuclear".
O que seria uma saída aveludada visto que o Irão nunca disse que queria ter bombas nucleares e existem mesmo fatwas - decretos religiosos determinantes - dos dois Líderes Supremos anteriores, Khomeini e Khamenei, a impedir que o país adquira essa capacidade militar.
Sabendo que Donald Trump está longe de ser homem de uma palavra só, como as suas mudanças de planos abruptas o demonstram, nenhum cenário pode ser dado como certo para os próximos dias ou semanas, mas há um elemento da sua retórica mais agressiva que esteve sempre presente desde que chegou à Casa Branca: "O Irão não pode ter uma ama nuclear!".
Uma exigência que o Irão facilmente aceita e lhe pode oferecer de bandeja para acabar com a ameaça permanente de ataque dos EUA e de Israel. Ver-se-á em breve a que preço...









