É nas urnas, disputando a Presidência da Ucrânia, que Mikhail Fedorov quer mostrar a Zelensky que a sua demissão foi um erro, como o próprio lhe disse (ver aqui), e as ruas confirmavam com muitos milhares de pessoas a apoiar o jovem político de 35 anos.
Fedorov destacou-se na política ucraniana em vários cargos de Governo mas foi quando chegou à Defesa, há perto de oito meses, que ganhou a estima popular ao propor que a Guerra com a Rússia fosse travada pelo ar e não nas trincheiras de forma a poupar vidas.
Com um número de baixas, entre mortos e feridos, elevada, na ordem das largas centenas de milhares, segundo algumas fontes, a população ucraniana viu com alívio Fedorov apostar no recurso aos drones e à tecnologia aliviando a pressão na frente.
Mas essa aposta chocou de frente com o pensamento estratégico do general Oleksandr Syrskyi, então CEMGFA, que defendia que era no terreno que a guerra seria ganha aos russos e não pelos ares, onde se provocam baixas mas não se conquista território.
Sob a pressão das ruas em defesa de Mikhail Fedorov, o Presidente Zelensky viu-se obrigado a afastar também Oleksandr Syrskyi, com a ideia de que com ambos fora do poder, as ruas se acalmariam...
Não foi assim. Pelo contrário, Fedorov continuou a ser aclamado nas ruas e nas últimas horas, sem grande surpresa, porque já se tinha falado que existia uma vaga de fundo a exigir que se fizesse á estrada para chegar à Presidência, o ex-ministro da Defesa veio a público desafiar Zelensky a realizar eleições o mais rapidamente possível.
Zelensky sabe que está obrigado a realizar eleições em breve, até porque as sondagens apontam para um relativo desgaste da sua popularidade, com a última, do Instituto de Sondagens de Kiev (SOCIS), a apontar para um derrota clara na segunda volta tanto contra Fedorov como contra Valery Zaluzhny, antigo CEMGFA e actual embaixador do Reino Unido.
Mas a razão maior é que o seu mandato conquistado em 2019 tem estado a ser prolongado artificialmente desde Maio de 2024 devido à eclosão do conflito com a Rússia, em 2022, através das prorrogativas da Lei Marcial que foi accionada já há 4 anos.
Mikhail Fedorov sabe que assim é, mas numa intervenção pública divulgada em vídeo na noite desta terça-feira, 18, afirmou que Volodymyr Zelensky dispõe de mecanismos constitucionais que lhe permitem realizar as eleições devido às novas ferramentas tecnológicas, mesmo com a Lei Marcial em Vigor.
Sempre que Zelensky fala em eleições e o seu adiamento contante com cada prorrogação da Lei Marcial, alude à impossibilidade de o fazer no terreno devido à guerra, com perto de 20% do território ucraniano ocupado pelos russos, uma razão descabida, segundo Fedorov, porque há tecnologia que pode ser usada para contornar esses obstáculos que não existiam aquando da elaboração da Constituição.
Recorde-se que Mikhail Fedorov é a cara das gigantes tecnológicas norte-americanas na Ucrânia, como a Palantir, de Peter Thiel, uma das líderes mundiais em Inteligência Artificial, que esteve por detrás da sua estratégia que previa substituir os drones pelos soldados na linha da frente.
"Temos de encontrar uma forma legal e realista que permita à Ucrânia restaurar a sua democracia em pleno, revigorando o processo democrático mesmo em tempo de guerra", apontou Fedorov, acrescentando que "a democracia não pode ser um luxo reservado aos tempos de paz, até porque é por ela que lutamos hoje".
Este desenvolvimento, relevante mas não uma total surpresa, acontece quando na sociedade ucraniana emerge um conjunto de manifestações de desagrado contra o Governo de Zelensky, não apenas devido à destituição de Fedorov, mas também porque o país está à beira do colapso económico e se aproxima o Inverno.
Com a chegada do Inverno o efeito da guerra ganhar maior dimensão devido à falta de energia para aquecer as casas, na linha da frente a moral dos militares baixa, como alguns vídeos o mostram, e também contra o crescente recurso a "raptos" na rua para enviar soldados para a linha da frente...
Ao mesmo tempo, como o agora opositor oficial de Zelensky veio reafirmar no seu vídeo de lançamento da sua candidatura, o regime ucraniano está afogado em corrupção, envolvendo directamente o círculo mais próximo do Presidente da Ucrânia.
