Desde logo, isso resulta da política impulsionada pelos EUA após a eleição de Donald Trump em colocar em causa a globalização, priorizando o retorno ao reforço soberano dos países.
Nesta perspectiva, Trump é, na prática, contrário à existência de uma EU forte, privilegiando as relações dos EUA com Estados europeus individualmente considerados, cavando divisões para melhor poder reinar.
Esta postura ressalta de forma clara, se dúvidas ainda houvesse no documento de estratégia que há escassa semanas apresentou e divulgou ao mundo.
Quer isto dizer que o "velho continente" tem de saber construir e construir de facto no que respeita à EU uma política que reforce a coesão numa lógica tendencialmente federalista que lhe permita tanto quanto possível falar a uma só voz, ainda que isso envolva profundas alterações na orgânica institucional.
Este objectivo não será nada fácil de alcançar tendo por um lado presente a crescente importância dos partidos de extrema-direita e, por outro, a divisão sobre a política externa a adoptar, como se verificou na recente cimeira sobre o apoio financeiro a conceder à Ucrânia.
Pese embora a EU não poder continuar a prescindir de dar esse apoio, não é nada clara a posição dos EUA sobre os termos e condições de pôr termo ao conflito.
No mais, Trump, no documento apresentado, deixou claro que no quadro dos países da América Latina a prioridade será o combate ao narcotráfico e o que isso pode vir a significar desde logo para a Venezuela, mas não só.
Tendo Trump deixado ainda claro que em circunstância alguma deixará de apoiar Taiwan e assumindo que a China é a potência concorrente a nível do comércio mundial, muita água vai correr debaixo das pontes no novo ano que agora se inicia, com a digitalização a impor-se de forma crescente e com ela a inteligência artificial a envolver novos desafios.
Neste domínio, a situação do Indo Pacífico e neste a importância da Índia com um crescimento nada negligenciável terá uma palavra importante em 2026 como a Federação Russa e o Brasil, parceiros fundadores dos BRiC'S.
Resulta de tudo isto que os conflitos na Ucrânia ou os que persistem no Médio Oriente p0derão não ver ainda em 2026 o silenciar da metralha.
No que a África respeita e nela a União Africana será da maior utilidade, como tenho defendido que se proceda a uma profunda revisão dos Estatutos desta Organização que ganhe em coerência, eficácia e intervenções atempadas maior credibilidade como interlocutor importante e por esta via se assuma como uma voz consequente no referido quadro mundial.
Estão em causa em África conflitos dos mais desumanos que a humanidade conheceu como na Somália, ingerências e dependências externas inaceitáveis, e na maior parte dos países que integram o continente crescimentos económicos muito baixos, para não falar nas tensões entre religiões que são causa também de conflitos de grandes proporções e mesmo intervenções externas como sucedeu recentemente na Nigéria.
Por estranho que possa parecer, África tem, porém, potencialidades a todos os níveis capazes de consertar esforços para dar a volta, porque a questão é eminentemente política e depende de boas governações com estratégias de futuro e com futuro.
No que a Angola diz respeito, o País em 2026 vai naturalmente mobilizar os motores dos partidos políticos para as eleições de 2027.
Será útil e proveitoso que os partidos políticos tenham a consciência que nenhum deles individualmente considerados representa a totalidade da nação e que há domínios decorrentes de funções soberanas do Estado que impõem por natureza esforços de consensualização como a Política externa, a justiça, a Defesa e a Segurança, a Saúde e a Educação, de par com a adopção de soluções democráticas de legitimação dos poderes dos municípios.
A questão da dívida externa e o valor que atingiu é outro quebra abeças como reconheceu há dias o Secretário-Geral da ONU, António Guterres.
O facto de ser previsível que Angola continue a crescer demograficamente mais do que cresce o PIB, sendo o ano de 2025 uma excepção que não se repetirá nos próximos anos represente outro grande desafio ao País.
A diversificação da economia assente na autossustentabilidade é um imperativo que tem de ser cuidado sob pena de se agravar a pobreza com consequências sociais ainda mais sérias.
Não obstante, estou esperançoso sobre o futuro de Angola por ter sabido manter equidistância nas relações com os países mais hegemónicos à escala global e isso é um bem que pode ser muito importante para o investimento, se for conciliado com estabilidade política e diálogo interpartidário como espero.

O desejo de um mundo melhor para Angola e para os angolanos face ao actual quadro multipolar existente pode ser uma realidade, se os angolanos souberem preparar em 2026 o futuro neste novo mundo que nada tem a ver com o passado recente, enfrentando os novos desafios com coragem e novas respostas.