Ali, diante do mar distante, degustámos o esplendor da paisagem. O marulhar invisível das ondas chegava mais como ideia do que como som, num ritual diário que não pede plateia. O Observatório do Miradouro da Lua cobra dois mil kwanzas à entrada, um valor aceitável, se pensado como contribuição para a preservação de um património natural de referência.
O problema começa depois do encantamento inicial. Lá dentro, há um pequeno restaurante, de oferta curta e preços que não seduzem nem justificam. Mais grave, porém, é a sensação de abandono subtil: infra-estruturas cansadas, sinais de desgaste precoce, ausência de uma ideia clara de experiência turística integrada.
Recorde-se que o Observatório do Miradouro da Lua está sob tutela do Instituto de Fomento ao Turismo e foi reinaugurado a 29 de Setembro de 2021, pelo então ministro da Cultura, Turismo e Ambiente, Jomo Fortunato. Quatro anos depois, o espaço parece envelhecido antes do tempo. Não por uso intenso, mas por falta de manutenção sistemática e visão estratégica.
Mais grave do que qualquer impressão visual é a ameaça concreta à segurança de quem ali circula. Os limites de segurança que cercam as áreas mais perigosas da montanha são apenas fios e fitas, quando deveriam ser grades consistentes, pensadas para proteger adultos distraídos e, sobretudo, crianças curiosas. É instintivo avançar até ao cume para contemplar as ravinas, mas a queda espreita a cada passo.
Deixámos o Miradouro da Lua com esse misto de gratidão e inquietação. A paisagem fica, mas a pergunta acompanha-nos: como é possível termos tanto e cuidarmos tão pouco? A estrada leva-nos para diante, mas o pensamento demora-se atrás, preso às falésias como quem teme que um passo em falso possa custar mais do que uma fotografia.
Seguimos viagem. Passámos os mangais, atravessámos o Kwanza, esse rio que é coluna vertebral e espelho da história angolana. O caminho da Praia do Bico conduziu-nos à Quiçama, com a expectativa de visitar um dos mais emblemáticos parques naturais do País, símbolo de biodiversidade e património natural.
À entrada, fomos recebidos por um efectivo de segurança que, depois das saudações próprias da quadra, explicou com clareza por que não poderíamos entrar naquele dia. Um grande incêndio consumia parte significativa do Parque Nacional da Quiçama. O acesso estava interdito por razões óbvias de segurança.
Perguntei-lhe como surgiam aqueles fogos. A resposta foi directa, sem rodeios: caçadores furtivos, aproveitando o capim seco, incendeiam a vegetação para forçar o rebrote. A nova vegetação atrai os animais e facilita a caça. O método é antigo, recorrente e conhecido. O problema é que o fogo raramente respeita limites.
Enquanto nos falava, passou um carro de efectivos dos bombeiros, em marcha urgente. O segurança interrompeu a explicação, apontou para o veículo e disse, com a autoridade de quem vê e vive o problema no terreno: "É disso que lhe estou a falar." O testemunho ganhava corpo diante dos nossos olhos.
Segundo dados tornados públicos, na semana seguinte, mais de 500 hectares de vegetação do Parque da Quiçama foram devastados por incêndios, com prejuízos sérios para a flora e a fauna. As autoridades investigam as causas, mas as explicações preliminares coincidem com aquilo que ouvimos à porta: fogo posto, reincidente, criminoso.
O Natal terminou sem visita à Quiçama, mas com uma lição clara. Angola precisa de aprender a cuidar do que tem, antes que reste apenas memória, fotografia e cinza. A paisagem não se regenera com boas intenções. Exige vigilância, investimento, pedagogia e responsabilidade colectiva.
*Mestre em Linguística pela Universidade Agostinho Neto

