Em Windhoek, voltei a dar com vários angolanos, sobretudo crianças, mal-amanhadas, a pedir esmolas nas ruas da capital namibiana. Na sua maioria, eram provenientes da província angolana da Huíla, uma das regiões do Sul do país fustigada há anos pela dureza da estiagem e a fome.
Apesar do repatriamento forçado de crianças e adultos angolanos feitas pelas autoridades namibianas, isso não tem sido suficiente para desencorajar a imigração ilegal, visto que os pedintes de Angola continuam de mão estendida nas ruas, à porta dos estabelecimentos comerciais ou de plantão junto aos semáforos da capital namibiana.
Um dos propósitos da minha viagem por terra era para desvendar o "mistério" de como os pedintes angolanos chega(va)m a Windhoek, tendo em conta a longa distância entre a capital namibiana e o Cunene, que são aproximadamente 800 quilómetros.
Muitos angolanos e namibianos já se questionaram, certamente, como foi possível as crianças, adolescentes e mulheres terem percorrido centenas de quilómetros, sem que tivessem sido travadas ou, minimamente, perturbados pelas autoridades namibianas.
Pelo número de controlos policiais existentes ao longo da via que liga Oshikango a Windhoek era praticamente impossível elas terem chegado ao destino por carro. Além disso, os migrantes clandestinos estão desprovidos de meios financeiros para aliciar os automobilistas.
Pela dimensão e pelo impacto que o fenómeno migratório clandestino atingiu, tendo criado inclusive um "irritante" nas relações entre os dois países, poucos automobilistas arriscariam transportá-las sorrateiramente, sob pena de incorrerem em crimes de incentivo à imigração ilegal.
Uma das respostas que encontrei em Windhoek, sobretudo em sectores ligados ao MPLA, foi de que os pedintes angolanos estariam a beneficiar da ajuda da Oposição namibiana, com um suposto apoio da UNITA para, segundo as minhas fontes, desestabilizar ou embaraçar a governação naquele país. Não engoli o argumento, por falta de elementos probatórios que sustentassem tal teoria.
A versão que mais se aproxima à realidade obtive-a já no meu regresso ao país, em Ondjiva, a capital do Cunene, onde fui informado de que as centenas de angolanos que chegavam a Windhoek faziam o trajecto a pé, passando por caminhos fiotes e percorriam centenas de quilómetros até chegarem ao destino final, uma espécie de El dourado.
Se aos olhos das autoridades namibianas, a circulação de pessoas e bens fora dos "check points" legais pode configurar crimes de imigração ilegal, para os nossos compatriotas, o conceito de fronteira, para eles parece não existir.
Na realidade, o fenómeno migratório não é novo entre os povos fronteiriços que pertencem aos mesmos grupos étnico-linguísticos, uma vez que existem ovambos e hereros nos dois lados da fronteira unidos por laços de consanguinidade, língua e outras afinidades. A separação de uns e outros obedeceu aos interesses das potências coloniais europeias, que não respeitaram a identidade desses povos.
Consta que no passado da colonização portuguesa em Angola, alemã e sul-africana, na Namíbia, os pastores nómadas dos respectivos países já transpunham a fronteira comum para apascentarem os seus bovinos, percorrendo vários quilómetros em busca de água e pasto.
Em Ondjiva, é notória a corrida aos combustíveis por parte dos vizinhos namibianos, que fizeram adaptações nos depósitos dos seus veículos, com o objectivo de amealharem a maior quantidade possível de gasolina e gasóleo para os seus negócios, aproveitando-se dos baixos preços praticados em Angola.
Há períodos em que os combustíveis "voam" dos postos de abastecimento num ápice, como se volatilizassem, comenta um habitante local, com alguma ironia à mistura.
Os namibianos, não só tiram proveito dos baixos preços do combustível em Angola, como também cruzam a fronteira comum para comprar os alimentos no nosso país devido ao "peso" da sua moeda. Para eles, fica mais em conta e barato trocar os dólares namibianos por Kwanzas angolanos e fazer as compras neste lado da fronteira do que adquiri-los no seu país de origem.
No domínio da saúde, não deixa de ser paradoxal o facto de muitos angolanos continuarem a viajar para o país vizinho em busca de assistência médica, não obstante os investimentos feitos no nosso país.
Apesar do novo e moderno hospital "Simione Mucune" estar em funcionamento, há pacientes angolanos que continuam a buscar o tratamento médico no outro lado da fronteira, sobretudo em Oshakati, que dista a pouco mais de uma centena de quilómetros da capital do Cunene.

Há também relatos de cidadãos do país vizinho que têm procurado o " Simione Mucune" para fazer análises clínicas, já que do lado angolano esses serviços são gratuitos.