Por ser uma ferramenta preciosa, o Jiu-Jitsu é capaz de nos devolver valores perdidos ou pouco valorizados, influenciando a nossa vida nos mais variados domínios. O mundo precisa de pessoas com empatia, que cooperem umas com as outras impedindo a victória dos egos. Do respeito pelo outro nascem sociedades mais amistosas, mais integras. A autoestima é vital para podermos ser o que de melhor um ser humano deve ser, incapaz de prejudicar o outro ou de virar a cara fingindo que não vê uma situação desumana. O espírito de liderança assente nestes valores impedirá que o mundo político deixe de ser um sítio mal frequentado e que cumpra com honra os deveres que jurou defender.
A importância do Jiu-Jitsu numa sociedade como a nossa, que perdeu os limites, que deixou de acreditar nos valores e nos pilares da honra humana, deixou de ter exemplos institucionais que nos devolvam para um patamar de grandeza e confiança, assenta na capacidade de "moldar não apenas o físico, mas fundamentalmente a mente e o espírito de família, através de um desenvolvimento individual que está para além da filosofia da competitividade de perder ou ganhar" como nos ensina, todos os dias, o Mestre Carlos Gracie Jr. no legado que nos deixou.
Comecei a fazer Jiu-Jitsu em 2023 movida pela curiosidade da oferta de uma aula grátis de defesa pessoal na Gracie Barra do Braço de Barro, em Lisboa. A primeira experiência converteu-me. Naquele dia comprei um Kimono e decidi pela primeira abraçar uma modalidade desportiva, pois apenas fazia Ioga. O timing foi importante pois estava a fazer um mestrado e precisava de concentração e foco. Mas foi o ambiente, a reverência, o cuidado com o outro, o profundo respeito pelo outro, pelos princípios e pela reverência trazida do Japão, que me fizeram sentir integrada de imediato. As "broncas" do Professor Pedro, sempre a puxar os nossos limites, fizeram com que o Jiu-Jitsu tivesse chegado para ficar para sempre, como um sentimento de pertença.
Desde final de 2025 que frequento a Gracie-Barra da Rua João de Barros em Luanda e optei pela aula das 6.30H. Quem me conhece sabe que nunca gostei de acordar cedo. Mas hoje levanto-me às 5 da manhã e saio de casa cheia de sorrisos sabendo que no fim do treino tenho o cabelo no ar, uma unha partida e 4 ou 6 nódoas negras, mas com o coração cheio de gratidão por estar no meio de grandes professores liderados por Hélio Pereira e sua equipa, excelentes parceiros sem vaidade nem arrogância, que me ensinam a evoluir todos os dias na técnica e sobretudo na atitude.
A defesa pessoal feminina é uma competência do Jiu-Jitsu que não posso deixar de salvaguardar. Todos os dias, neste mundo enfurecido, centenas de mulheres são violadas, agredidas, vítimas de violência doméstica e muitas perdem a vida porque nunca aprenderam a defender-se de forma a nunca mais serem o saco onde qualquer um pode depositar a sua frustração ou a sua psicopatia. Neste espaço estão a ser dadas aulas de defesa pessoal para mulheres de todos os tamanhos, idades, vaidades e manias e tem sido muito eficaz perceber que podemos decidir entre a vida e a morte desde que estejamos empoderadas. Quantas mulheres sobreviventes da violência doméstica, apesar de estarem vivas, perderam a sua autoestima, o seu amo próprio e a coragem para se reconstruirem? Quantas mulheres cheias de valor hoje são uma sombra do que eram fruto de anos de abuso físico e psicológico (este último que não deixa nódoas negras) mas rebenta com a sua saúde mental? Nenhuma mulher merece ser desvalorizada, maltratada, agredida e muito menos perder a vida. Empoderada ela será o que ela quiser, como e quando quiser.
Às crianças estão a ser dadas aulas Anti-Bullying, para que de forma competente não percam a sua autoestima e fortaleçam a sua confiança, sempre assente nos mesmos valores onde a honra e a ética e o respeito pelo próximo não são negociáveis. O bullying mata ou danifica milhares de crianças em todo o mundo. Uma prática deplorável e condenável, que muitas vezes não é identificada pelos pais da vítima, nem pelos pais do agressor e pode comprometer a saúde mental, o desempenho escolar e a segurança dos nossos filhos e filhas. Para as crianças com déficit de atenção, autismo e dislexia, o Jiu-Jitsu mostra resultados animadores ao nível do comportamento dos meninos e meninas que treinam. O ensino do Jiu-Jitsu é assente em valores, como a irmandade, integridade e desenvolvimento através do incentivo à cooperação constante, respeito, disciplina, autoestima e liderança. Esta prática ajuda a promover o desenvolvimento de habilidades motoras, cognitivas, sociais e sobretudo emocionais especialmente necessárias para estas crianças (1). A prática do Jiu-Jitsu traz benefícios no domínio do aumento da força, melhora a flexibilidade física, aumenta o autocontrole, o foco que são importantes em todas as áreas da nossa vida (2). Por ser uma arte de defesa pessoal, a abordagem holística tem nos valores éticos o seu principal pilar. Não é uma arte agressiva. Não é uma arte de confronto gratuito. É antes de mais uma arte que nos ensina sobre valores culturais e sociais assentes numa mestria que desafia a nossa habilidade em vez da força física. Os praticantes aprendem a utilizar alavancas e imobilizações para controlar e finalizar o oponente.
Grata pelo legado do Mestre Carlos Gracie quando disse "com o jiu-jitsu aprendi sobretudo, a grande lição, que foi a de me conhecer profundamente". Esta lição é o farol, que até hoje, continua a orientar milhões de praticantes em todo o mundo e que sem dúvida são hoje a sua melhor versão, contribuindo todos os dias, para não deixar morrer a esperança de que a atitude correcta é o caminho para a paz no mundo e para o fortalecimento da empatia entre os cidadãos, as famílias e as nações.n
(1) Leitão, L.M; S. Silva; T.S. Andrade; M.S. Triani, F.S.A. Prática pedagógica do Jiu-Jitsu para crianças com autismo: uma perspectiva de ensino baseada em valores. MOSAICO - Revista Multidisciplinar de Humanidades, Vassouras, V.15, n.3, p.170-179, set/dez. 2024
(2) Andrade et al., O Jiu-Jitsu como tema da produção científica nos periódicos científicos da educação física brasileira. Cadernos do Aplicação, Porto Alegre, v. 35, n.1, p1.11, 2023

