Ora vejamos.

Há poucos consensos tão amplamente aceites em Angola como a ideia de que a banca não financia a economia. O curioso é que raramente se pergunta porquê.

Imaginemos a economia nacional como um vasto deserto económico. Um espaço marcado pela dependência do petróleo, pela escassez estrutural de divisas, pela reduzida diversificação produtiva, pela elevada informalidade e desemprego jovem, e pela fragilidade de uma parte significativa do tecido empresarial. Neste ambiente seria razoável esperar que a aridez do terreno contaminasse todos os seus habitantes. Afinal, segundo uma certa tradição do debate económico nacional, quando a economia enfrenta dificuldades, presume-se que todos os sectores devam partilhar o mesmo destino. No entanto, no meio desse deserto ergue-se um verdadeiro oásis: a Banca.

Em Angola, os bancos apresentam níveis elevados de rentabilidade, solvabilidade e liquidez. Tal como os oásis desafiam a lógica do deserto que os rodeia, a banca parece prosperar num ambiente económico que continua a impor enormes constrangimentos à actividade produtiva. Os resultados divulgados no relatório Banca em Análise 2026 mostram um sector sólido, rentável e financeiramente robusto. Em 2025, o produto bancário cresceu cerca de 20,8%, impulsionado pela expansão da margem financeira e pelo crescimento de 29,4% dos resultados cambiais. Simultaneamente, o rácio cost-to-income melhorou cerca de três pontos percentuais, enquanto o rácio de fundos próprios regulamentares permaneceu acima dos 23%, quase três vezes superior ao mínimo prudencial exigido pelo regulador. A qualidade dos activos registou igualmente melhorias, com o crédito malparado a reduzir-se de 19,2% para 15,8%.

À primeira vista, estes números descrevem uma banca saudável, lucrativa e plenamente capaz de apoiar a transformação económica do país. Ou, pelo menos, seria essa a conclusão inevitável para quem tivesse a ousadia de parar a análise na primeira página do relatório. Todavia, existe um aparente paradoxo: o crédito à economia continua a representar apenas 7,4% do PIB. Na Nigéria esse indicador situa-se acima dos 15%. Em Portugal, ronda os 90% e na África do Sul ultrapassa os 65%. Em Angola, esse indicador é suficientemente modesto para que alguns optimistas o confundam com uma margem de progressão. E, de facto, é. O problema é que continua também a ser um sintoma.

Os bancos apresentam níveis confortáveis de solvabilidade, liquidez e rentabilidade, mas o seu core business tradicional - mobilizar poupança para financiar investimento produtivo - continua a desempenhar um papel relativamente escasso na geração dos seus resultados. Ou seja, em Angola, a prosperidade da banca não depende daquilo que, em teoria, deveria justificar a sua existência: o financiamento da actividade produtiva.

Esta realidade resulta dos incentivos existentes. As comissões bancárias assumem um peso crescente porque a actividade transacional permanece uma fonte relativamente estável de receitas. Os resultados cambiais continuam relevantes porque Angola enfrenta uma escassez estrutural de divisas e os títulos da dívida pública mantêm-se extremamente atractivos porque oferecem uma combinação rara de rentabilidade elevada, alta liquidez e risco reduzido. Curiosamente, ou talvez não, o activo mais atractivo para a banca não é uma exploração agrícola ou uma unidade industrial. É o próprio Estado.

Não deixa de ser uma ironia económica que, numa estratégia nacional centrada na diversificação produtiva, uma parte substancial da rentabilidade bancária continue a depender precisamente da actividade menos produtiva da economia: o financiamento do défice. A dificuldade no acesso às divisas resulta da combinação de uma economia ainda fortemente dependente das importações com uma base exportadora excessivamente concentrada no petróleo. Ao mesmo tempo, o Estado enfrenta um problema estrutural que raramente recebe a atenção merecida. Apesar das receitas petrolíferas, Angola continua a registar um elevado e crónico défice primário não-petrolífero. Outrossim, as receitas arrecadadas em kwanzas pela economia doméstica são insuficientes para financiar as despesas públicas em moeda nacional. A diferença tem sido compensada pelas receitas do petróleo e pelo recurso ao endividamento. É neste contexto que a dívida pública assume um papel central.

Ora, para um banco, a decisão económica é relativamente simples. De um lado encontra uma empresa agrícola ou industrial. Do outro lado encontra títulos do tesouro com remuneração atractiva, liquidez elevada e risco claramente inferior. A teoria económica designa este fenómeno por crowding-out. Quando o Estado absorve uma parte substancial da poupança disponível para financiar os seus défices, reduz a disponibilidade de recursos para o sector privado. Não se trata de uma decisão moral dos bancos. Os bancos não frequentam seminários de filosofia moral antes de decidir a composição dos seus activos. Trata-se simplesmente de uma consequência previsível dos incentivos existentes. Pasme-se!

Criticar os bancos por comprarem títulos do tesouro nestas circunstâncias é semelhante a criticar um agricultor por procurar água no único poço existente durante uma seca. O problema não está no agricultor. O problema está na escassez de água. Da mesma forma, o problema não está fundamentalmente nos bancos. O problema reside na estrutura económica que torna mais atractivo financiar o Estado do que financiar a produção, adquirir títulos do tesouro do que financiar fábricas, e obter rendimentos cambiais do que assumir os riscos inerentes ao investimento produtivo. Por essa razão, meus Camaradas, as soluções devem começar pela condução da política económica e não pela banca.

Infelizmente, é precisamente aqui que o debate nacional tende a errar o alvo. Os especialistas em sintomas que raramente estudam as causas criticam os bancos por responderem aos incentivos existentes, mas raramente se questiona quem criou esses incentivos. Após quase nove anos de governação, a política económica conduzida pelo Presidente João Lourenço continua a produzir uma economia onde é frequentemente mais rentável financiar o défice público do que a produção nacional, mais seguro comprar dívida pública do que apoiar uma empresa nacional e mais lucrativo explorar a escassez de divisas do que contribuir para a sua redução. A ironia é que se exige à banca que financie a diversificação económica, enquanto a própria arquitectura macroeconómica continua a recompensar exactamente o comportamento contrário.

Não é a banca que está a falhar a estratégia de diversificação. É a estratégia de diversificação que ainda não conseguiu alterar os incentivos que moldam o comportamento da banca. Enquanto isso não acontecer, os bancos continuarão a fazer aquilo que sempre fizeram e que qualquer manual de economia prevê que façam: seguir os incentivos criados pelo quadro macroeconómico. No longo prazo, apenas a diversificação da produção nacional, das exportações, da receita tributária e das fontes de financiamento à balança de pagamentos poderá alterar de forma estrutural os incentivos actualmente existentes.

No curto prazo, contudo, existem medidas capazes de produzir melhorias relevantes. A primeira consiste na domiciliação das receitas petrolíferas no sistema bancário nacional. O aumento da disponibilidade de divisas reduziria um dos principais constrangimentos que condicionam o desempenho do sector produtivo e reduziria simultaneamente o incentivo económico associado às operações cambiais. A segunda passa pela redução das necessidades de financiamento interno do Estado. Tal objectivo exige uma trajectória credível de consolidação fiscal, que dificilmente será alcançada sem uma reestruturação do perfil do serviço da dívida e sem a remoção gradual dos subsídios aos combustíveis, que continuam a absorver recursos significativos do orçamento.

Em última análise, a questão central não é saber porque os bancos preferem operações cambiais ou títulos do tesouro, mas compreender porque a economia continua a tornar essa escolha racional. Os bancos seguem incentivos. Nunca seguiram discursos. E a história económica sugere que dificilmente começarão agora. Enquanto a economia permanecer organizada em torno da escassez de divisas, da dependência do petróleo e do financiamento recorrente do Estado, a rentabilidade continuará a concentrar-se onde o risco é menor e a liquidez é maior. Nenhum banco inventou a escassez de divisas, o défice não petrolífero ou a dependência da dívida. Limitou-se a aprender a prosperar com eles.

O problema, portanto, nunca esteve no oásis, mas no deserto que o rodeia. E o deserto é uma construção da política económica. Como observou Douglass North, um dos maiores economistas institucionais do século XX, "os incentivos importam." Cabe à equipa económica do Presidente João Lourenço criar um quadro macroeconómico que torne mais atractivo financiar fábricas do que financiar défices, produzir riqueza do que intermediar escassez e investir na economia real do que permanecer confortavelmente instalado no oásis. Enquanto isso não acontecer, continuará a ser mais fácil encontrar rentabilidade no oásis do que água no resto da paisagem económica.n

*Professor Auxiliar e Investigador

ISG Business and Economic School

Bibliografia

• Deloitte (2026); A Banca e o seu papel no desenvolvimento de Angola - Banca em Análise 2026.

• Hirschman, A. O. (1958); The Strategy of Economic Development. New Haven: Yale University Press.

• North, D. C. (1990); Institutions, Institutional Change and Economic Performance. Cambridge: Cambridge University Press.

• Toynbee, A. J. (1934); A Study of History. Oxford: Oxford University Press.