Pois bem, como não há nada mais democrático do que a crítica, e aqui fica uma proposta de receita para um discurso perfeito ou, melhor dizendo, para o discurso que não se deve fazer.
Primeiro ingrediente: a duração. Um discurso deve durar o tempo de um bom jantar. Se durar mais, o público começa a pensar no que vai comer a seguir. Se durar menos, não dá tempo para os jornalistas fazerem a sua síntese. O segredo está no equilíbrio: nem tanto que o ministro adormeça ao lado do Chefe de Estado, nem tanto que a oposição não tenha material para o comentário da noite.
Segundo ingrediente: os números. Um discurso sem números não é um discurso, é uma conversa de café. Mas atenção: os números devem ser redondos, sonantes e, de preferência, nunca acompanhados de fontes. Milhares de milhões é sempre um bom número. Centenas de milhares também. O importante é que ninguém consiga fazer as contas no momento e que, no dia seguinte, nenhum jornal consiga confirmar os valores.
Terceiro ingrediente: as promessas. Todas as promessas devem ser feitas com a convicção de quem vai cumpri-las e a sabedoria de quem sabe que não vai. "Vamos construir", "vamos criar", "vamos resolver". O verbo no futuro é o mais seguro. O presente do indicativo compromete; o passado do indicativo acusa; o futuro é uma terra de ninguém, onde tudo é possível e nada é verificável.
Quarto ingrediente: o povo. O povo deve ser invocado pelo menos uma dúzia de vezes. O povo angolano, os nossos compatriotas. O povo é o convidado de honra de todos os discursos e o ausente de todas as decisões. Quanto mais se fala do povo, menos se fala com ele.
Quinto ingrediente: a metáfora. Um discurso sem metáfora é como um rio sem água. Mas cuidado com as metáforas: devem ser simples, reconhecíveis e, idealmente, já usadas por outros oradores. Angola tem potencial, os angolanos são um povo resiliente e a crise é uma oportunidade. O importante não é a originalidade, é a sonoridade.
Sexto ingrediente: o final. O final deve ser apoteótico. Um apelo à união, uma referência ao patriotismo, um viva a Angola. Se possível, os três em simultâneo. E, de preferência, uma frase que possa ser citada nas redes sociais quanto mais curta, melhor. Pode ser indicando o que é mais importante ou ainda o que deve ser corrigido.
Modo de preparação: Misture tudo, leve ao lume brando e sirva com pompa. O discurso deve ser lido em voz alta, pausado nos momentos certos, com um ou outro gesto de mão para dar emoção. Não se esqueça de olhar para a câmara, sobretudo quando fizer a pausa dramática.
Esta receita não garante resultados. Garante apenas que, quando o discurso terminar, ninguém se lembrará do que foi dito, mas todos se lembrarão de que foi longo. E, no fundo, é isso que importa: a forma sobrevive ao conteúdo, sobretudo quando o conteúdo é escasso.
