Para Angola, o desafio não é apenas meteorológico. É, acima de tudo, uma questão de consciência colectiva.
O El Niño é um fenómeno climático natural que altera os padrões de precipitação e temperatura em várias partes do mundo. Na África Austral, os seus efeitos costumam traduzir-se em cheias, inundações, secas prolongadas, escassez de água, perda de colheitas, redução de pastagens e aumento da insegurança alimentar. Quando ocorre uma versão particularmente intensa, muitas vezes designada por Super El Niño, os impactos podem ser devastadores.
Mas a história mostra que os desastres raramente resultam apenas dos fenómenos naturais. Eles tornam-se tragédias porque as pessoas não estão preparadas. O risco existe, mas não é compreendido. Os sinais aparecem, mas são ignorados ou mal interpretados.
É precisamente aqui que entra o conceito de consciência do risco.
Imagine um agricultor que semeia como se a próxima estação fosse normal, ignorando os avisos sobre condições climáticas extremas. Imagine uma comunidade que continua a depender exclusivamente de uma única fonte de água durante uma seca iminente. Imagine uma instituição pública que só começa a responder quando os primeiros casos de fome já são visíveis. Em todos estes casos, o problema não é apenas o fenómeno climático. É a incapacidade de agir antecipadamente.
Custa dizer-se que conhecer os riscos e identificá-los a tempo salva-vidas, neste caso, conhecer os riscos significa compreender o que poderá acontecer. Em Angola, isso pode significar menor produção agrícola, aumento dos preços dos alimentos, deslocação de famílias em busca de água e pastagens, maior incidência de conflitos locais pelos recursos naturais e agravamento da pobreza.
Quem conhece estes riscos pode começar desde já a preparar-se, isso significa prestar atenção aos sinais de alerta, estar atento a alteração do comportamento das chuvas, a seca dos rios, a deterioração das pastagens ou a subida contínua dos preços nos mercados.
Tudo isto não são acontecimentos isolados. São indicadores de que algo mais profundo está em curso.
A preparação deve começar muito antes da emergência. As famílias podem diversificar as suas fontes de rendimento e reforçar as reservas alimentares. Os agricultores podem adaptar calendários agrícolas e adoptar técnicas mais resistentes à seca. As autoridades podem fortalecer sistemas de monitoria climática e criar planos de contingência. As organizações da sociedade civil podem sensibilizar as comunidades e apoiar estratégias locais de resiliência.
Nenhuma destas acções elimina o risco. Mas todas reduzem a vulnerabilidade.
Um aspecto particularmente importante é evitar a falsa sensação de segurança. Muitas comunidades já enfrentaram secas no passado e sobreviveram. No entanto, a experiência anterior não garante que a próxima crise tenha a mesma intensidade. A complacência é, muitas vezes, um dos maiores inimigos da preparação.
Tal como um profissional de segurança aprende a observar o ambiente à sua volta, também a sociedade deve aprender a observar o ambiente climático. A pergunta não deve ser apenas "O que está a acontecer hoje?", mas também "O que poderá acontecer amanhã se não actuarmos agora?".
A verdadeira resiliência começa quando transformamos informação em acção. Relatórios climáticos, previsões meteorológicas e alertas técnicos têm pouco valor se não influenciarem decisões concretas de governos, empresas, organizações e cidadãos.
O eventual impacto de um Super El Niño em Angola não dependerá apenas da intensidade do fenómeno. Dependerá também do nosso grau de preparação. A diferença entre uma crise gerível e uma catástrofe humanitária pode estar na capacidade de conhecer os riscos e de os reconhecer a tempo.
Porque, no fim, as maiores perdas não acontecem apenas quando o perigo chega. Acontecem quando o perigo chega e ninguém estava atento.

E, perante a ameaça de um Super El Niño, a pergunta que cada um de nós deve fazer é simples: estamos verdadeiramente conscientes do risco? Ou só vamos agir quando a crise já estiver à nossa porta?

*Coordenador OPSA