Com isso, a selecção iraniana tem de viajar de avião de Tijuana para Los Angeles ou Seattle, cidades onde disputa as três partidas da fase de grupos e vice-versa, representando um esforço físico e desgaste humano suplementares.
A Administração Trump nem sequer permite que a equipa iraniana viaje para os EUA dois dias antes do jogo. Com essa atitude, Washington interfere abertamente na preparação, bem como nos tempos de adaptação ao local e de descanso dos atletas. Além disso, Trump recusou o visto a 15 elementos da comitiva desportiva iraniana, incluindo um jogador.
Se no futebol, com toda a soberba, Washington consegue criar dificuldades fora do normal e colocar os iranianos em situação de desigualdade perante os seus adversários, em relação às negociações para o fim da agressão ao Irão e, consequentemente, o estabelecimento de bases para a estabilidade no Médio Oriente, Trump não pode fazer o mesmo.
Prova disso está no Memorando de Entendimento entre Washington e Teerão, acordado para acabar com a guerra desencadeada pelos EUA. Pelas medidas que defende, incluindo o respeito pela soberania do Irão, o documento representa uma vitória estratégica dos iranianos.
O Memorando de 14 pontos, "um dos documentos diplomáticos mais extraordinários alguma vez criados", na opinião de Lim Tean, advogado e político de Singapura, simboliza a rendição (tardia) de Washington e transforma em bluff as tão propaladas hegemonia e invencibilidade estadunidense.
Ver Trump, rodeado de fanáticos seguidores, a anunciar a assinatura do memorando em Paris, no Palácio de Versalhes, o mesmo local onde foi rubricado o tratado para o fim da I Guerra Mundial e consequente rendição da Alemanha, assemelha-se a assistir a um filme sobre a decadência do império. E mostra o fracasso da chamada "operação" conjunta Washington-Telavive, baptizada com o pomposo nome "Epic Fury" (Fúria Épica). Sem conseguir alcançar nenhum dos objectivos enunciados, nomeadamente, derrubar o regime, destruir permanentemente o programa nuclear iraniano, acabar com a indústria de mísseis balísticos e travar o apoio do Irão a organizações de resistência no Médio Oriente, a "operação" tornou-se num verdadeiro fiasco.
O documento vem confirmar que os EUA, para responderem aos caprichos sionistas do parceiro genocida de Telavive, desencadearam de forma irresponsável uma guerra, sem qualquer plano alternativo e sem a adequada avaliação das capacidades militares e de resistência política, militar, estratégica e diplomática do Irão.
Agressão que se torna ainda mais injustificável, porque iniciada num momento em que estavam em curso e em processo muito avançado as negociações com o Irão sobre o enriquecimento do urânio e a estabilidade regional, segundo diversas fontes internacionais, incluindo a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).
Habituado a lançar uns "bitaites" e a fazer negociações na praça pública, através das redes sociais, humilhando tudo e todos, incluindo parceiros ocidentais transformados em mera "fauna acompanhante" (expressão moçambicana), Trump foi surpreendido por um regime disposto a resistir de cabeça erguida e sem se render para salvar uma civilização milenar.
Ao definir um cessar-fogo "imediato e permanente entre os EUA, o Irão e os seus aliados em todas as frentes, incluindo no Líbano, com ambas as partes a renunciarem a futuras acções militares e a garantirem a soberania do Líbano", o Memorando acaba por aceitar o linkage estabelecido pelas autoridades de Teerão entre o fim da guerra em território iraniano e das hostilidades israelitas no Líbano como parte do acordo. E, desta forma, os EUA ficam obrigados a travar os ímpetos belicistas do seu parceiro de guerra, Israel.
Defende também o "respeito mútuo pela soberania e integridade territorial, sem interferência nos assuntos internos de cada um, o levantamento do bloqueio naval de imediato e na totalidade no prazo de 30 dias".
Por outro lado, ao Irão cabe restaurar gradualmente a navegação no estreito de Ormuz, garantir a navegação comercial livre e segura entre o Golfo Pérsico e o mar de Omã durante 60 dias, com o tráfego totalmente restabelecido no prazo de 30 dias após a desminagem e remoção de obstáculos, enquanto os EUA devem retirar as forças instaladas próximas do Irão no prazo de 30 dias após o acordo.
De forma lapidar, o documento reconhece a soberania do Irão (e de Omã) sobre o estreito de Ormuz, ao entregarem aos dois países a responsabilidade de discutirem "a futura governação e os acordos marítimos do estreito de Ormuz, em consulta com os Estados regionais e ao abrigo do direito internacional"
Sem truques nem eufemismos, Washington acaba por perceber o provérbio segundo o qual "quem estraga velho, paga novo", ou seja, é obrigado a assumir reparações pela monumental destruição do Irão.
Os EUA e os seus aliados regionais com bases militares usadas na agressão ao Irão ficam encarregues de "estabelecer um plano de desenvolvimento económico para o Irão no valor superior a 300 mil milhões de dólares", a ser acordado com Teerão.
A esse propósito, Lim Tean lembra que em toda a história das guerras, só os derrotados pagam reparações, como aconteceu nas guerras napoleónicas. A Alemanha pagou reparações após as duas guerras mundiais. O Japão pagou após 1945 e o Iraque também após o Kuwait.
Para a concretização da reconstrução do Irão, o Memorando faz do alívio das sanções um tema prioritário, advogando que "todas as sanções sobre o Irão serão levantadas de acordo com um calendário acordado, incluindo as sanções da ONU, da AIEA, e estadunidenses primárias e secundárias".
A contrapartida desse levantamento das sanções é a reafirmação do que Teerão vem dizendo há anos: que não desenvolverá armas nucleares. As reservas de urânio iraniano enriquecido serão tratadas por meio de um mecanismo mutuamente acordado, envolvendo, no mínimo, a diluição no local sob supervisão da AIEA. As futuras necessidades de enriquecimento e nucleares serão definidas no acordo final.
O Memorando, que deverá se transformar em acordo final aprovado por uma resolução vinculativa do Conselho de Segurança da ONU, defende o levantamento imediato das sanções ao petróleo, produtos petrolíferos, derivados e financeiros (no valor de 24 mil milhões de dólares em activos iranianos) de seguros, de transporte e comerciais conexos.
Ou seja, para o Irão congelar o seu actual desenvolvimento nuclear (já congelado, segundo Teerão), os EUA têm de abandonar a imposição de velhas ou novas sanções e deixar de estacionar forças adicionais na região.
Trump assina o Memorando de rendição num momento em que a sua popularidade está em níveis mais baixos de sempre, após uma crise petrolífera provocada pela guerra e o consequente desaceleramento da economia mundial.
Com uma taxa de rejeição interna muito alta e com eleições de meio mandato a menos de cinco meses, Trump precisa de um "trunfo" para atenuar o desgaste provocado pela política errante e desastrosa dos EUA.
Por isso, o homem que tem sido hostil à ONU acabou por aceitar um mecanismo conjunto de implementação e monitorização internacional ao abrigo das Nações Unidas para supervisionar o cumprimento do Memorando e de qualquer futuro acordo final.
Após quatro meses de guerra, inúmeros ataques americanos que mataram pelo menos dois mil iranianos, prrovocaram mais de 3,5 milhões de deslocados e um nível muito alto de destruição de infra-estruturas, pode-se confiar em Trump que normaliza a mentira política e violação do direito internacional?
