A reivindicação em que Jamestown se apoiava nasceu de um "incidente" ocorrido em 1619, no golfo do México. Com efeito, o navio negreiro português, San Juan Bautista, que seguia de Luanda para Vera Cruz, no México, foi atacado por dois navios piratas ingleses. Uma parte dos escravos e da carga, foi transferida para o navio Treasurer, e a outra, para o White Lion. Os dois navios seguiram em direção à costa da Virginia, tendo o White Lion chegado a Point Confort, em finais de Agosto de 1619. Treasurer chegaria a Jamestown alguns dias depois. Essa diferença de alguns dias, importante para a História, faz de Point Confort, e não de Jamestown, a localidade onde realmente chegaram os primeiros africanos.
À época mais pujante que Point Confort, em parte por causa de um colonato ali erguido, Jamestown atraiu atenção, que se por um lado lhe fazia justiça- já lá chegarei - por outro, lhe ajudou a elevar a sua posição na História. Registos da época actualmente em exposição no museu de Hampton, cidade da qual faz parte a urbanização de Fort Monroe, dão conta da presença entre os ocupantes do White Lion, de trinta "negroes" ( lê-se "nígrôs") - expressão usada por colonos brancos quando se referiam aos homens e mulheres oriundos de África. Desse grupo faziam parte Anthony e Isabella, que juntamente com os todos os outros, foram de pronto vendidos a um comerciante de nome, William Tucker, de quem herdariam o sobrenome. Anthony e Isabella são nomes que se presume, que lhes tenham sido dados à chegada a Point Confort. A 3 de Janeiro de 1624, Anthony e Isabella registaram um bebe de sexo masculino, ao qual deram o nome de William Tucker. Não há até hoje conhecimento de registo mais antigo de uma criança gerada por escravizados.
Descendente directo de escravizados oriundos do que hoje é o território de Angola, o bebé William Tucker viria a ser o progenitor de uma familia que vai na vigésima geração.
No sábado, 29, centenas de pessoas juntaram-se em Fort Monroe, que fica a 291 kilómetros da capital americana, para assisistir a inauguração de um monumento em honra de Anthony, Isabella e de William Tucker. Esculpido por Brian Owens, o monumento consiste numa estatua de Anthony, e noutra de Isabella com um bebe nos braços. Este evento foi o culminar de esforços da familia Tucker, que nunca se conformou com o que Jamestown reclamava. Unida à volta da William Tucker 1624 Society, uma organização sem fins lucrativos, a família Tucker mobilizou apoios do estado de Virginia, do governo federal dos EUA, de patrocinadores e também do governo de Angola, o qual se fez representar pelo ministro da Cultura, Felipe Nzau, e pelo embaixador de Angola nos EUA, Agostinho Vandunem. Em Agosto de 2018, o governo do estado da Virginia atribuiu ao antigo "cemitério velho dos negros", onde repousam restos mortais de membros da familia Tucker, o título de espaço perpétuo . Conhecido hoje como cemitério da Família Tucker, este espaço tem uma extensão de dois hectares nos quais estão enterrados mais de duzentos descendentes da familia Tucker. Neste sabado, 5 de setembro será colocado um arco à volta das estatuas.
O memorial em honra de Anthony, Isabella e William compreende também um imóvel que deverá estar concluído no próximo ano.
Apesar de ter perdido o lugar que reclamava, Jamestown continua a ser uma referência na história americana. Além de ter sido sede de um conhecido colonato, é lá que repousam os restos mortais de Ângela, um dos escravos capturados pelos piratas que assaltaram o navio San Juan Baptista. Capturada durante o assalto, Angela foi transferida para o Treasurer, levada para Jamestown e vendida ao comerciante William Pierce. A exposição organizada pelo museu de Hampton inclui uma estátua em sua honra.
Jamestown perpetuou o seu lugar na História, construindo um museu que compreende uma área coberta de 2 milhões de metros quadrados, e um espaço aberto de meia milha. Tem uma ala dedicada exclusivamente à rainha Njinga Mbande, soberana do ndongo de Matamba, descrição que segundo o antropólogo angolano, Virgilio Coelho cobre a saga da rainha e a edificação do seu reino. Essa ala do museu incluiu por um quadro interactivo que suportado por uma narração aproximada ao kimbundu de Malanje.
*Monroe, Virginia
