Quem são os Buraka Som Sistema? E como começaram?
Começámos como um sistema de som, por isso é que é Buraka Som Sistema. O Blanko e o Riot eram djs e pensaram criar algo forte com aquilo que é o kuduro e uma força que poderia adaptar-se e ser apresentada no mercado europeu. Já tínhamos contactos com a cultura forte existente em África e nos elementos do grupo há uma misceginação que nos permitiu sempre estar em contacto com vários estilos. Então pegámos nessa "arma", juntámo- -la ao kuduro e começámos a tocar nas noites de Lisboa. Na altura eram dois djs a tocar, a Pety e o Kalaf eram os Mcs. A procura foi muito grande e a partir daí fizemos o primeiro tema intitulado "Yah".
De onde surgiu o nome da banda?
Não somos oriundos da freguesia da Buraca, escolhemos o nome dessa zona de Lisboa porque queríamos que fossemos identificados com a cidade onde vivemos - Lisboa, lugar que sentimos ser único e constante fonte de inspiração para criarmos a música que fazemos.
Por que intitularam o primeiro EP "From Buraka to the World"?
Ultrapassar barreiras para nós é fundamental e nunca pensámos em fazer só um tipo de música ou apresentarmos- nos só a um tipo de público. Introduzimos o inglês, porque é uma língua que muita gente percebe e queríamos que o máximo de pessoas conhecessem o conceito do que estávamos a apresentar. Houve uma grande repercussão e procura muito grande por parte do mercado internacional.
O mesmo EP "From Buraka to the world" abriu muitas portas para a banda?
Como começa a vossa digressão pela Europa? Estivemos no Sonar Music Festival, em Barcelona e apresentámos os nossos temas ao Diplo, um grande produtor europeu. Ele encaminhou- -nos por via de alguns contactos e pôs-nos a "mexer". Recebemos o telefonema de um dos maiores clubes de música electrónica que existe em Londres e foi assim a nossa segunda actuação fora de Lisboa. Estávamos num sítio de verdade - no Fabric.
Não dependeram muito das vendas para expandir as vossas músicas. A internet foi o ponto de partida?
Na era da internet, "vendas" tornou-se um conceito muito abstracto. Mais importante que tudo é a receptividade. Ver até que ponto a nossa música consegue ser recebida em mercados como os que não nos passam pela cabeça. Em 2008 fomos tocar ao Japão onde nem se fala muito bem ingles nem português. O importante foi apresentar algo válido para os que estão tanto perto como longe do nosso mundo. Internacionalizámos- nos por termos uma presença muito sólida na internet e por sermos facilmente procurados e encontrados. Recebemos telefonemas de artistas e produtores que queriam trabalhar com o movimento que estávamos a criar. Isso para nós é muito mais estimulante que as vendas, até porque na Europa não existe o conceito de "dia de venda", os downloads e as vendas online existem, então não se tem um número exacto de vendas. A música vai muito longe. Não medimos o sucesso pelas as vendas.
Qual a música que marcou a vida da banda?
O nosso primeiro single, "Yah!, feat. Petty". Este tema nasceu na altura em que tínhamos uma residência no Clube Mercado em Lisboa. O culto em volta do projecto iniciou-se ali, naquela pequena cave com uma lotação de 150 pessoas, que todas as semanas sobrelotavam o clube para ouvir aquela nova sonoridade que misturava kuduro com outras sonoridade oriundas de outras periferias como Rio de Janeiro, Joanesburgo, Londres e etc… Este tema até certa medida reflecte aquelas noites, onde de forma espontânea e caótica tínhamos mcs, dançarinos a invadirem o espaço e a celebrarem connosco o nascimento de um movimento. Este tema respira por todos os poros aquele momento.
Se pudessem resumir os Buracas em um só momento, qual seria?
O momento em que decidimos criar o EP "From Buraka to the World". Olhamos para o passado, mas estamos mais preocupados com o agora. O que está acontecendo neste momento é o que é mais estimulante, vamos ver como é que isso se traduz para o amanhã.
O que vos inspira? É o recurso ao calão?
Tudo serve como fonte de inspiração Há uma grande comunidade de angolanos vivendo em Portugal, então, não tem como cantar kuduro sem introduzir o calão. Acrescentamos um pouquinho de pimenta na coisa. Cada um fazendo o que de melhor sabe fazer e acaba por ser uma coisa fixe. As músicas são os integrantes que compõem. É todo um trabalho em grupo.
Na verdade, que estilos fazem?
Nós crescemos com Hip Hop, Grime, Dubstep, Rock, Semba, Salsa, Marrabenta, Souk, Fela Kuti, Kuasa kuasa, kizomba, só para citar alguns. Não podemos esquecer que o grupo surge na era da internet, numa altura em que o Youtube é uma grande biblioteca sonora e é ali que basicamente nos inspiramos, pesquisando novos estilos que vão surgindo.
Já há percurso suficiente e em razão disso, o documentário?
O documentário vem no intuíto de eliminar qualquer dúvida sobre quem são os Buraka, como criamos música. Decidimos fazer um documentário, não é um filme biográfico. Decidimos simplesmente, durante dois anos, levar uma câmara e construir este percurso. Mostrar como nos inspiramos, em que sítio nos inspiramos, quais os géneros musicais que nos alimentam, a nossa forma de trabalhar. Mostrar quem é cada um e qual o papel que tem dentro da dinâmica da banda.
Onde foi apresentado?
Estávamos a fazer uma tounée. O filme estreou no London Film Festival em Outubro de 2013. A seguir fomos para Amsterdão, Berlim, Paris, Copenhaga, Dinamarca e agora estamos em Luanda.
Os prémios, que significado tiveram para vocês?
Para nós, os prémios não significam muito. O prémio em que houve maior disputa foi o da MTV que recebemos em 2009 e que no final acabou por ser só mais um prémio. O que conta é o caminho todo que percorremos e que continuamos a percorrer agora.
O estilo dançante?
Dançar e fazer dançar é muito importante. Ter reacções imediatas dos temas. Fizemos música que emocionam as pessoas.
Com que músicos angolanos gostariam de trabalhar?
Com todos. Não temos uma lista de músicos com quem gostaríamos de trabalhar. Se estivermos por exemplo numa noite com o C4 Pedro e houver uma empatia, então pode surgir daí uma ideia. Trabalhamos com artistas com quem sentimos que há uma boa ligação e pessoas amigos. Já tivemos a participação da Sara Tavares. Não precisa ser alguém que faça o mesmo género musical que nós. O desafio é trazer estilos diferentes e de fora. Não trabalhamos só com músicos por serem de renome.
O que significa a Petty para os Buraca?
Uma amiga. Nós somos um grupo de produtores e para certas canções, certas vozes são as melhores. Houve um período em que estávamos a trabalhar muito próximos da Petty, as coisas evoluíram e ela como artista também evoluiu. Começou connosco, pegou aquilo que aprendeu e deu continuidade. Nós gostamos e estamos abertos.
Porque só uma mulher actualmente na banda?
Antigamente não havia nenhuma. A Blaya trabalha connosco há seis anos e desde sempre mostrou muita vontade de aprender. É uma bailarina fixe e faz todo o sentido trabalharmos com ela.
O que foi mais difícil, que tiveram que enfrentar com a banda?
Já passamos por várias situações complicadas, desde ficarmos doentes na estrada, perder voos, não ter vistos de entrada para determinado país ou palcos onde o público se apresentava mais frio que a Sibéria. É complicado identificar o mais difícil porque todas as situações se transformam em memórias engraçadas para partilharmos entre nós, como a vez em que tocámos em Moscovo para uma plateia vazia e onde tal era o cansaço que o Dj Riot adormeceu literalmente na bateria em pleno concerto.
Quantos shows fazem por ano?
Fazemos uma média de 65 concertos por ano.
Quais os equipamentos básicos usados pelos integrantes da banda?
Computadores portáteis equipados com programas de edição de áudio como o Cubase, Logic e Ableton Live e etc...
