Depois de os EUA terem atacado a Venezuela e sequestrado o Presidente Nicolas Maduro, surgiu uma estranha fibrilhação nos mercados mas que rapidamente retomou os batimentos regulares.
Isso aconteceu ao se perceber que Donald Trump iria manter, e até, aumentar, o fluxo de crude de Caracas para o mundo, diluindo os receios de menos oferta, mesmo sendo a Venezuela um gigante do sector com pés de barro.
Grandes reservas, mais de 300 mil milhões de barris, as maiores do mundo, mas baixa produção, menos de 1 mbpd, em média nos últimos anos, fazem da Venezuela um actor secundário no sector energético...
E o medo de uma crise severa, em pouco tempo, apos o raide norte-americano em Caracas, reduzida a mero receio, passou a expectativa de que mais, muito mais petróleo possa chegar aos mercados se se cumprirem as "profecias" de Donald Trump.
O Presidente norte-americano avisou que é ele que agora manda na Venezuela e que vai colocar as reservas gigantescas de crude deste país á disposição das multinacionais dos EUAe dos aliados mais chegados.
E isso aveludou o risco de quebras, o que, tudo junto, levou ao equilíbrio dos mercados, com o barril, tanto o Brent como o WTI a manterem-se numa fasquia estreita de subidas e descidas, em torno dos 60 USD, no caso da referência europeia.
Valor esse que está ligeiramente abaixo do valor médio de referência usado pelo Governo angolano para elaborar o OGE 2026, os 61 USD, o que, olhando para as crises, não apenas o ataque em Caracas, mas também o assalto ao petroleiro russo, é bastante razoável.protecç
O anúncio de Trump de que a Venezuela vai transferir entre 30 e 50 milhões de barris para os EUA serviu de almofada e protecção contra a especulação, consolidando a ideia de que, apesar dos riscos, a normalidade acabará por se impor...
O que, para Angola, que precisa da renda do sector petrolífero como de pão para a boca, embora o cenário pudesse ser pior, o barril não abandonar a fasquia dos 60 USD é uma boa notícia... Boa, mas não extraordinária.
Assim, o barril de Brent, perto das 11:10, hora de Luanda, desta quinta-feira, 08, estava a valer 60.47 USD, +0.85% que no fecho da sessão de quarta-feira, 07, com tendência para uma ligeira quebra se se confirmar o crescimento das reservas nos EUA com a chegada do crude venezuelano "oferecido" pelo novo Governo em Caracas.
Com uma dependência tão vincada das exportações de crude, em Angola, como, de resto, noutras dezenas de países em todo o mundo, este momento...
... é mais uma razão para não se perder os mercados de vista
O actual cenário internacional tende a manter os preços abaixo do valor estimado para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 de 2025, valor conservador mas aconselhável, atendendo aos altos e baixos globais...
Ainda assim, Angola é um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.

