Ao dizer, assim que chegou à capital chinesa, que Rússia e China estão num patamar estratosférico nas suas relações bilaterais, mesmo que o tenha dito por outras palavras, preferindo dizer que estão "num nível sem precendentes", Vladimir Putin afirmou a posição global do eixo Pequim-Moscovo claramente em oposição a Washington.
E isso ficou claro quando Xi Jinping, na mesma ocasião, logo nas primeiras horas após a recepção a Putin, marcada por pormenores relevantes em comparação à recepção feita a Donald Trump uma semana antes, aproveitou para sublinhar que China e Rússia não vão mais permitir o "bullyng" unilateral norte-americano no plano das relações globais.
Não ficou claro, nas abordagens feitas pelos jornalistas que acompanham esta visita, se Xi Jinping se referia ao caso mais em evidência actualmente, que é o ataque sem justificação e sem o aval das Nações Unidas dos EUA ao Irão, mas é uma das situações em que se encaixa a concepção de "bullyng unilateral".
O que, a confirmar-se esta perspectiva, partilhada por diversos analistas, foi a forma de o Presidente chinês responder a Donald Trump quando este, naquilo que depois se veio a verificar ser uma interpretação abusiva da conversa que mantiveram em Pequim, disse depois que Xi Jinping lhe tinha garantido estar ao seu lado na exigência de abertura do Estreito de Ormuz e no esforço para impedir o Irão de ter uma bomba nuclear no futuro.
Xi não disse também o contrário, mas o que está em causa é deixar os EUA fazerem o que querem e a seu belo prazer no palco das relações internacionais, sendo esta visita de Putin a Pequim uma forma de os dois países, Rússia e China, vincarem posições naquilo que é a sua "posição" conhecida quanto ao que defendem ser a ordem mundial que se seguirá à ordem mundial baseada nas regras de Washington definidas após a II Guerra Mundial, há mais de 80 anos.
Para Xi e Putin a nova ordem mundial, que os EUA, pela voz do seu anterior Presidente, Joe Biden, já admitiram estar a ser desenhada, deve erguer-se assente em parceria entre iguais que visam o desenvolvimento global á medida das capacidades de cada um dos Estados, mas com o foco na solidariedade, para evitar as discrepâncias actuais, onde o Ocidente Alargado vive na abundância e o Sul Global na penúria visceral.
E este objectivo parece estar bem evidente quando Vladimir Putin e Xi Jinping notam que a parceria entre os dois países, que são apenas o tecnologicamente mais industrializado e populoso do mundo e o maior e mais rico em recursos naturais, especialmente em energia e minerais estratégicos, está assente numa plataforma que "não tem limites para se alargar".
O que os analistas notaram como sendo um sinal de que Pequim e Moscovo podem avançar em breve, nalguns casos é apontado que isso pode estrar já "prescrito" nos diversos acordos assinados esta quarta-feira, 20, para um acordo de natureza militar com semelhanças ao que agrega os países ocidentais da NATO, inclusive com uma disposição que permite a um sair em defesa do outro em caso de ataque externo.
Putin chegou a Pequim na noite de terça-feira, 19, e logo aí se notou a diferença de acolhimento para com Donald Trump, que teve apenas funcionários do Ministérios dos Negócios Estrangeiros da China à sua espera na placa do aeroporto, enquanto Putin foi recebido por Wang Yi, o ministro dos Negócios Estrangeiros e um dos homens mais fortes dentro do círculo de poder mais restrito do Partido Comunista da China.
Além disso, enquanto as escadas do avião que levou Trump para Pequim, o Air Force 1, não estavam cobertas com tapete vermelho, as do aviões de Putin, estavam, e ainda lhes foi aplicada uma cobertura em forma de túnel alongada até ao local da recepção já no solo por Wang Yi.
Esta visita do Presidente russo coincide com o 25º aniversário da assinatura do primeiros tratado de boa vizinhança, amizade e cooperação, entre China e Rússia, que é o alicerce onde assenta a parceria que Wang Yi, baptizou há cerca de seis anos como sendo "sólida como uma rocha" e Putin agora estendeu para a condição de "ilimitada" nos seus objectivos.
E a ideia deste edifício não é difícil de perceber: se a China ganha acesso ilimitado aos recursos ilimitados da energia russa, o crude já chega ao país, oriundo da Sibéria, via oleoduto, e o gás, que acaba de ver assinado um acordo para a construção de um gasoduto com igual origem, na Sibéria.
Além disso, a Rússia é o maior produtor/exportador mundial de trigo e o 3º no âmbito dos cereais, dispõe de abundância de fertilizantes naturais e é um dos maiores stocks em minerais estratégicos, incluindo as terras raras fundamentais para as novas indústrias de tecnologia 2.0 e ainda no sector da tecnologia militar, nuclear e convencional, onde os russos estão, ainda, décadas á frente dos chineses.
Por sua vez, a China proporciona a Moscovo acesso à maior e eficaz capacidade mundial de transformação industrial, permitindo à Rússia desligar-se da dependência importadora do Ocidente, em praticamente todos os sectores, da aviação comercial aos automóveis, do vestuário à maquinaria...
Mais, a China fornece à Rússia garantias de segurança estratégica no Oriente que lhe permite focar-se na sua frente ocidental, deslocando vastos recursos - mas nem todos, porque por ali ainda reina a sabedoria soviética de "confiar mas verificar" - para a Europa, onde não tem apenas a guerra na Ucrânia para lidar, como tem uma permanente ameaça da Europa Ocidental, que já admitiu oficialmente estar a preparar-se para uma guerra com Moscovo até 2028.
Entre os acordos a assinar nesta visita de Putin entre China e Rússia, os media russos destacam a energia, onde sobressaem os novos oleodutos e gasodutos, no comércio, nos minerais estratégicos, segurança, investigação científica e, entre outros, na definição de políticas globais de interesse comum.
Apesar desta frente crescente de interesses comuns entre Moscovo e Pequim, na sua declaração prévia à chegada â capital chinesa, em vídeo, ao invés de uma prosa publicada no jornal oficial, Putin garantia que os dois países estão empenhados em criar condições para consolidar "a paz mundial e a prosperidade universal".
E, para já, a prosperidade sino-russa está a ser desenhada fora das regras da ordem mundial imposta por Washington após a II Guerra Mundial, assente em pilares como o FMI, Banco Mundial ou mesmo a ONU (ver links em baixo), o que foi assinalado por XI Jinping ao notar que os dois países chegaram ao valor de 230 mil milhões em trocas comerciais em 2025, totalmente garantido pelas suas moedas nacionais, afastando destes negócios o dólar norte-americano.
Xi voltou ainda a dizer, num recado evidente para Trump, que se não for priorizada a ideia de desenvolvimento harmonioso global e apostar-se sempre na procura da hegemonia, então o mundo caminhará para "a imposição da lei do mais forte, a lei da selva"
E há um dado que é já adquirido globalmente entre os analistas, que é o facto de os EUA serem ainda a maior economia mundial e a maior potência militar mundial convencional, sendo ultrapassada pela Rússia no nuclear, perante a junção de esforços sino-russos, os norte-americanos ficam muito aquém, tanto economicamente como militarmente.












