Para já, enquanto a partir de Washington, Donald Trump insiste repetidamente que os EUA e o Irão estão a negociar nos bastidores do conflito os termos de um cessar-fogo, em Teerão, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, nega e diz que o Presidente norte-americano anda a negociar com ele próprio.

O que nenhum dos lados nega é que o Paquistão, a Turquia, Omã e o Egipto estão a intermediar um diálogo entre norte-americanos e iranianos que, até ao momento, produziu apenas como resultado conhecido a entrega ao Irão de um plano de 15 pontos desenhado em Washington com condições unanimemente vistas como impossíveis de aceitar em Teerão.

Como em todos os conflitos, o "nevoeiro da guerra" dificulta encontrar a verdade, mas desde que Donald Trump, na segunda-feira, 23, avançou (ver links em baixo) com a existência de "conversações construtivas" com o Irão, tendo, por isso, recuado no ultimato feito a Teerão para abrir o Estreito de Ormuz, sob pena de ver destruída toda a sua indústria do oil & gas, o trânsito de navios do Golfo Pérsico para o Oceano Índico aumentou naquela passagem estratégica para a economia global.

Teerão não perdoa...

Ou seja, embora recuse com veemência a existência de contactos diplomáticos directos com os EUA, o Irão tem vindo a aligeirar as condições para que os navios, especialmente os petroleiros, possam atravessar o Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do crude e do gás diariamente consumido pela economia mundial, sendo que as embarcações com ligações aos EUA, Israel e aliados próximos não podem passar, sob risco de ataque...

Para as restantes embarcações, incluindo mesmo com destino a aliados tradicionais dos EUA na Ásia, como Coreia do Sul e Japão, passar naquele canal estratégico obriga ao pagamento de uma "portagem" em moeda chinesa, Yuans, e de uma negociação prévia com o Irão, cujos contornos são pouco conhecidos, para evitar que um drone, como tem acontecido, expluda no convés dos seus interesses.

Enquanto as "conversações construtivas" Irão/EUA decorrem, seja directamente, como alude Trump, ou via terceiros, como Abbas Araghchi já admitiu, os céus do Médio Oriente continuam a ser atravessados por misseis e drones que, diariamente, hora a hora, tombam sobre centenas de cidades iranianas, israelitas, sauditas, cataris, dos Emiratos, do Bahrein, do Kuwait...

Por entre o "nevoeiro da guerra", outra verdade começa a emergir, mesmo que ainda sob a forma de uma silhueta de contornos indefinidos, que é a resposta iraniana ao plano norte-americano de 15 pontos, com os media oficiais a citarem várias fontes do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do "Conselho de Ministros", onde este é considerado inaplicável e excessivo, entre outros termos de rejeição da proposta de Washington.

A mais recente reacção veio de Elias Hazrati, porta-voz do Governo iraniano, que considerou o plano dos EUA uma afronta e lembrou que esta "guerra ilegal e injustificada" foi lançada pelos americanos e israelitas a 28 de Fevereiro, dia em que o Líder Supremo aiatola Ali Khamenei foi assassinado, junto com 4 dezenas de chefes militares de topo, quando estavam reunidos na sua casa, e quando existiam negociações a decorrer, como já tinha acontecido em Junho de 2025.

Ninguém mexe nos misseis iranianos

Depois deste introito, Elias Hazrati repetiu a reacção oficial de Teerão, que não abdica de manter, as duas condições mais relevantes e mais mediáticas, que é a sua capacidade balística e hipersónica de dissuasão para futuros ataques de EUA e Israel e a capacidade de enriquecer urânio para fins civis do seu programa nuclear, o que Donald Trump quer ver totalmente, ou quase, desmanteladas, e ainda o levantamento das sanções que há décadas esmagam o país.

Outra impossibilidade vista a partir do Irão é o cessar-fogo de um mês proposto por Trump, sendo isso visto como uma forma camuflada de garantir à coligação israelo-americana tempo suficiente para se reorganizar militarmente, reabastecer os seus arsenais regionais, deslocar novas forças navais e de defesa antiaérea para o Golfo Pérsico, visto que (ver links em baixo), inicialmente os estrategas militares tinham em mente um conflito intenso de uma semana para decapitar e mudar o regime iraniano.

Mas o Irão exige ainda manter controlo sobre o Estreito de Ormuz, através do estabelecimento de uma "portagem" como sucede noutras paragens, e ainda ser indemnizado pela destruição que esta guerra provocou nas mais de 200 cidades que foram bombardeadas pela coligação israelo-americana e, fora desta equação negocial, está ainda a ligação aos seus aliados regionais, como o Hezbollah, no Líbano, ou os Houthis, no Iémen, da qual não desistirá.

Apesar desta resposta abrasiva de Teerão, que, recorde-se, é agora liderado pelo aiatola Mojtaba Khamenei, filho do assassinado Ali Khamenei, em Washington Donald Trump insiste que "eles querem muito fazer um acordo" porque "sabem que se não houver um acordo, verão cair sobre o seu país um poder como nunca foi visto".

O que está a ser visto por alguns analistas, como Douglas MacGreagor, antigo conselheiro do Departamento de Estado no primeiro mandato de Donald Trump, e antigo coronel com múltiplas missões no Médio Oriente durante as guerras do Iraque e do Afeganistão, como o uso da ameaça de uso da força como pressão "diplomática".

O que é mostrado de forma clara quando Pete Hegseth, o secretário da Defesa (Guerra), vem dizer, já esta semana, que esta Administração Trump "não teme fazer diplomacia através de bombardeamentos, à bomba".

Este cenário, marcado claramente pelo "nevoeiro da guerra", gera ainda dúvidas entre diversos analistas, porque não é a primeira vez que Trump autoriza ataques ao Irão no decurso de negociações, aconteceu nesta guerra e na de Junho do ano passado, e agora também tal se começa a perspectivar.

E quando a 82ª Divisão chega...

Isto, porque os EUA estão há semanas a deslocar dezenas de milhares de soldados para a região, com destaque para algumas unidades de forças especiais com pergaminhos nas invasões do Iraque e do Afeganistão, como a 82ª Divisão de Paraquedistas, ou as duas divisões do Corpo Expedicionário dos Marines (Fuzileiros) que estão a chegar à região oriundas do Índo-Pacífico.

"Para que querem os EUA tantos soldados na região se não for para uma invasão terrestre do Irão?", questiona Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, e autor de diversos livros sobre conflitos no Médio Oriente, embora sublinhe como "muito improvável" que se trate de uma invasão de larga escala, admitindo como quase certo que se trate de uma ocupação de pontos estratégicos, como o Estreito de Ormuz ou a Ilha de Kharg, ponto focal da exportação der crude iraniano no Golfo Pérsico.

O que permite colocar como possibilidade que Donald Trump e os estrategas militares do Pentagono estejam, mais uma vez, a usar falsas negociações como "nevoeiro" para esconder os preparativos de uma nova etapa deste conflito, que seria uma incursão terrestre no Irão, na qual deverão, a suceder, participar forças israelitas, depois de se ter ficado a saber que Telavive mandou chamar 400 mil reservistas para os quartéis num contexto de conflito quase generalizado a todo o Médio Oriente, como o demonstra a frente aberta por Israel no sul do Líbano.

Além disso, alguns analistas, como Trita Parsi, autor iraniano-sueco, com obras marcantes sobre relações internacionais, começam a admitir que uma invasão terrestre do Irão está mesmo a ser preparada, embora isso não seja ainda uma certeza, apontando que além de israel, também os Emiratos Árabes Unidos, ou mesmo o Kuwait, poderão juntar forças com os norte-americanos nessa ofensiva, como os seus líderes tém deixado perceber...

O receio de novo "teatro negocial" para encobrir as intenções de escalar esta guerra para a invasão terrestre, está perfeitamente visível nas palavras do chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, que já esta quinta-feira, 26, reafirmou que "não há nenhum tipo de negociações directas com os EUA a decorrer" que "não deveria haver quaisquer dúvidas" sobre a posição do Irão.

Os mercados não se enganam...

Uma forma de encontrar resquícios da verdade nesta pesada neblina de guerra é olhar para os mercados petrolíferos, e esses, depois de um evidente optimismo quando, no início da semana, Donald Trump adiou o ultimato ao Irão de "ataque devastador" se não fosse aberto o Estreito de Ormuz, com uma descida abrupta do preço do crude, agora o barril voltou à navegação de cabotagem, sem perder de vista a realidade.

E é assim que nesta quinta-feira, 26, o barril de Brent, voltou a dar sinais de dúvidas sobre uma eventual paragem no conflito, porque voltou a passar largamente em alta os 100 USD, estando a valer, perto das 10:00, hora de Luanda, 106,2 USD, uma subida de quase 4%.

Como em todos os palcos fundamentais para a economia planetária, também os mercados energéticos e bolsistas estão a aguardar com evidente ansiedade o fim do prazo do ultimato dado por Trump ao Irão para abrir, de forma incondicional, o Estreito de Ormuz a toda a navegação.

O prazo termina ao final do dia de amanhã, sexta-feira, 27.