Um coração apaixonado é um coração rebelde e indomável como um tsunami. O sangue da paixão flui num turbilhão, avesso às regras que tentam impedir a sua livre e plena expressão. O soldado preferiu pôr termo à vida do que suportar o calvário da inevitável separação, quando informam que chegara a hora do regresso ao seu país. Sandra tinha-se tornado simplesmente a sua razão de viver. Sem a presença daquele sorriso cristalino, nada mais faria sentido. Nem mesmo a esperança de um dia retornar à Angola, que a namorada o esperaria. Isso prometeu a própria mãe de Sandra, ao vê-lo desesperado quando foi dar a conhecer que recebera ordem para arrumar a mochila. Estamos em 1985, em plena guerra. Ele praticamente já tinha cumprido a sua parte e escapara da morte umas poucas vezes. Agora, fazia planos de casar com Sandra e ficar com ela ou levá-la para Cuba. Mas existe um obstáculo incontornável pela frente. As regras no exército revolucionário do seu país são claras: não é permitido qualquer tipo de relação afectiva entre os militares cubanos e mulheres angolanas durante o cumprimento da missão internacionalista.
De acordo com dados oficiais, mais de dois mil soldados perderam a vida durante os 15 anos que durou a participação cubana na guerra de Angola. A propósito, Raul Castro declarou: "Aos angolanos, dissemos-lhe que daqui só levaremos os restos dos nossos mortos e as suas armas e todos juntos os trouxemos para serem sepultados nos municípios do país, ou seja, nos seus lares de origem. " A única excepção foi o comandante Raul Dias Arguelles, tombado em combate na localidade do Ebo, no dia 11 de Dezembro de 1975.
No total, cumpriram missão em Angola 300 mil militares. O contingente internacionalista permanente oscilou sempre entre 35 mil e 55 mil homens nas fases mais críticas e todos foram voluntários, segundo as autoridades de Havana. O desdobramento internacionalista cubano conheceu diferentes fases de implementação, variando com a evolução e a correlação das forças no terreno. A chegada do primeiro grupo de instrutores militares para treinarem os guerrilheiros do MPLA verificou-se em 1962, trazidos pelo lendário comandante Che Guevara. O envolvimento iria conhecer depois um notável incremento, no período que correspondeu ao fim da dominação colonial portuguesa e a proclamação da Independência Nacional, em Novembro de 1975. Sob pressão de invasões pelo Norte, com a entrada no cenário do exército zairense e pelo Sul, com a realização da "Operação Savannah", desencadeada pelas forças de Defesa da África do SUL (SADF).
Consumada a proclamação da independência pelo Presidente Agostinho Neto, é obtido o reconhecimento internacional do novo Estado pela comunidade internacional. A presença cubana no País está essencialmente virada para a defesa da sua soberania, face à continuidade das agressões do exército sul-africano, já que os zairenses tinham sido desarticulados.
As forças da SADF penetraram em Angola durante a "Operação Savannah", entre Agosto/Setembro de 1975. As forças dos Agrupamentos "Zulu" e "Alpha", comandadas pelos coronéis Jan Breytenbach e Ben de Wet Ros, progrediram três mil quilómetros em 33 dias, com o fito de chegarem à cidade de Luanda controlada pelo MPLA e impedirem a proclamação da Independência. A progressão dessas unidades foi travada nas margens do rio Keve, Kwanza-Sul, por forças cubanas e angolanas.
No dia 4 de Novembro de 1975, inicia-se a contra-ofensiva angolano-cubana, baptizada "Operação Carlotta", em homenagem a uma escrava negra de um engenho de açúcar, em Matanzas, Cuba. Nesse dia, em 1843, ela liderou uma revolta de escravos, de acordo com o escritor colombiano Gabriel García Márquez, num artigo publicado na "Revista Inter-Continental", em 1977.
Assim, na primeira semana de Novembro de 1975, começaram a desembarcar em Luanda unidades de elite das FAR (Fuerzas Armadas Revolucionarias) e das Forças Especiais do MININT (Ministerio del Interior). Com os seus tanques e canhões, os cubanos seguem directamente para as frentes de combate, em apoio aos contingentes das FAPLA, culminando com a expulsão dos invasores racistas do solo angolano, em Março de 1976.
Entretanto, a ameaça sul-africana continuaria com o lançamento de invasões regulares ao território angolano, tendo inclusivamente sido criada uma zona tampão em território do Sul de Angola, na província do Cunene. Em 1981, os sul-africanos iniciam a chamada "Operação Protea" e conseguem penetrar numa profundidade de 200 quilómetros, apesar da tenaz resistência das FAPLA.
O Governo angolano solicita uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU. Todavia, como sempre acontece quando o assunto em discussão é Angola, as resoluções do Conselho de Segurança são de imediato vetadas pelos E.U.A. no uso da prerrogativa de membro permanente.
A estratégia sul-africana pretende a completa desestabilização política e económica de Angola. Após uma visita de Jonas Savimbi a Washington, durante o mandato do Presidente Ronald Reagan, os americanos passam a conceder um apoio militar massivo às forças da UNITA, incluindo os mísseis antiaéreos "Stinger". O seu bastião era a localidade da Jamba, no Sudeste da província do Kuando-Kubango. Era a partir da Jamba que operava a infiltração da guerrilha, na expansão para o Norte, em direcção aos Caminhos-de-Ferro de Benguela e, a partir dali, para as Lundas e Malanje, procurando asfixiar a capital do País.
Em Julho de 1987, as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola ( FAPLA) iniciam uma ofensiva a partir de Menongue e do Cuito Cuanavale contra os principais redutos da UNITA, nomeadamente em Mavinga e na própria Jamba. Estão envolvidas quatro brigadas equipadas com artilharia pesada, veículos de combate, aviação com os Mig-21 e 23 e helicópteros de ataque ao solo Mi 24 e Mi 25.
A ofensiva conta com assessoria de oficiais soviéticos e avança, inicialmente, com relativo êxito. Todavia, a África do Sul responde com um movimento militar de grande envergadura em auxílio da UNITA, a partir das suas bases no Rundu e em Ondangwa, Norte da Namíbia. O objectivo é neutralizar o avanço das FAPLA. Sucede uma verdadeira escalada que vem alterar perigosamente a correlação de forças no terreno. Os combates são encarniçados, nunca vistos em África, após a II Guerra Mundial. Estão em curso inúmeras batalhas no território que conforma o chamado "Triângulo do Tumpo", quando Angola solicita nova ajuda militar, prontamente concedida pelo comandante Fidel Castro.
Inicia-se mais uma gigantesca operação logística a partir de Cuba para Angola. São 11 mil quilómetros de distância em direcção a Menongue e Namibe. Num espaço relativamente curto, chegam ao terreno pelo menos 50 mil combatentes prontos a lutar nas frentes de combate munidos de um aparato bélico impressionante.
Em 5 de Dezembro, um contingente cubano de três mil e 100 soldados chega ao Cuito Cuanavale e junta-se aos efectivos entrincheirados na defesa da pequena vila. Ao mesmo tempo, num contragolpe em movimento de pinça, um considerável efectivo cubano avança em tempo recorde para a província do Cunene, ameaçando progredir para a fronteira da Namíbia e penetrar no território, então ocupado pela África do Sul.
Os Mig-23, tripulados por pilotos cubanos e angolanos, obtém supremacia aérea no Sul e obtém resultados vitoriosos em "raides" contra o Ruacaná. A África do Sul é obrigada a desengajar os seus efectivos que operam no Kuando Kubango, a fim de virem defender a fronteira com o Cunene.
No dia 23 de Março de 1988, no Kuito-Kuanavale, trava-se uma batalha decisiva com a duração de oito horas. A África do Sul é obrigada a retirar os seus homens com elevadas perdas. Os combates tinham começado em 15 de Novembro de 1987.
O conflito termina na mesa de negociações tripartidas em Nova Iorque. Um acordo é assinado, contemplando um pacote envolvendo a retirada cubana de Angola, a Independência da Namíbia e o desmantelamento do sistema segregacionista da África do Sul. Por seu lado, o Governo angolano aceita negociar o Acordo de Paz de Bicesse com a UNITA. São marcadas eleições gerais para Angola em 1992, com a constituição de um exército nacional único, as FAA (Forças Armadas Angolanas). Mandela é libertado e, em 1994, torna-se o primeiro Presidente negro na antiga pátria do "apartheid".
Cuba: Nada mais que cadáveres e armas na saída de Angola
Os que ouviram o tiro não imaginaram a tragédia. Foi um único estampido de fuzil, seco e enigmático, saído do interior do edifício. Um valente soldado cubano estava tombado no chão, vítima de um combate perdido contra um arrebatador e juvenil amor por Sandra, obra-prima de superior beleza, dona de um sorriso radioso como o sol. Em dois meses de vizinhança, a mulata angolana tinha cativado o coração alado e sonhador do soldado caribenho. Por ela tinha nascido um amor tão puro e intenso, maior do que outro que alguma vez tivesse existido, nos seus curtos vinte e dois anos de vida.
