Segundo o órgão governamental, nos últimos dez anos, a população residente em Angola aumentou de 25 milhões, 789 mil e 024 habitantes (Censo 2014) para 36 milhões, 604 mil e 681 de habitantes (Censo 2024), o que corresponde a uma taxa de crescimento de 3,5%, neste período intercensitário.
No entanto, estes números poderão estar longe de não corresponder a realidade, já que algumas previsões apontavam para um incremento na ordem dos 39 milhões de habitantes nesse espaço de tempo.
A discrepância de números pode ter resultado de o facto de muitos agregados familiares terem sido preteridos, ou seja, não foram vistos ou achados pelas equipas censitárias. O próprio relatório do INE admite falhas em 28,3 por cento dos que não foram recenseados.
A imprensa publica, a única de cobertura nacional, não levantou questionamentos sobre a fiabilidade dos resultados, as inúmeras falhas registadas ao longo do processo, assim como o incumprimento dos prazos que, uma vez mais, macularam o nome de Angola junto de instituições mundiais como as Nações Unidas e o Banco Mundial (BM).
Dito de outro modo, dez anos depois de ter realizado o primeiro Censo da População e Habitação, com sucesso, Angola voltou em 2024 a realizar o mesmo processo, mas desta vez revelou se um fracasso ou quase sem nenhuma credibilidade, conforme descreveu o conceituado jornalista e economista Carlos Rosado de Carvalho a rádio MFM.
Ao contrário do Censo de 2014, que foi feito de forma manual, o de 2024-5 reuniu melhores condições, pelo menos do ponto de vista tecnológico, para ser melhor sucedido, já que houve garantias de que o mesmo seria totalmente digital.
Segundo o INE, os dados foram recolhidos por aplicativos modernos, tanto para actualização da malha cartográfica, quanto para a recolha dos dados junto dos agregados familiares.
O instituto revelou que os recenseadores utilizaram questionários electrónicos instalados em tablets, o que, na optica desse organismo, permitiu maior celeridade no processamento e maior precisão na captura dos dados.
Do ponto de vista financeiro, neste último Censo foram destinados 300 milhões de USD contra os 200 milhões que tinham sido alocados em 2014.
Um dos primeiros sinais de que o censo poderia não ser bem-sucedido ficou marcado pelo adiamento do processo, que inicialmente estava agendado para ter início no mês de julho de 2024, mas que só viria arrancar em setembro, ou seja, dois meses depois.
As razoes para o adiamento não foram devidamente esclarecidas pelo INE nem pelo coordenador geral da Comissão Multissectorial de Apoio à Realização do Censo 2024, o ministro de Estado para a Casa Militar do Presidente da República, general Francisco Furtado. Presume se que motivos de ordem financeira e logística poderão ter estado na origem do adiamento.
Seja quais foram os motivos que ditaram o adiamento, o que estava em causa era a data para o início das operações, visto que o mês de setembro coincidia com o período das chuvas, o que naturalmente afectaria a mobilidade das equipas recenseadoras no terreno.
Além das condições meteorológicas adversas a mobilidade das equipas, houve também outros factores, nomeadamente os de logística, impreparação dos agentes censitários no manuseamento dos equipamentos electronicos, falta de segurança aos recenseadores, assim como a ausência ou deficiente mobilização dos alvos a recensear.
Embora a coordenação do Censo tenha procurado minimizar o assunto, foram recorrentes as queixas da falta subsídios de alimentação que não chegavam as equipas censitárias.
Por outro lado, o Censo deixou cair por terra a ruidosa propaganda governamental que tem sido propalada, mormente pelo titular do Ministério da Comunicação Social sobre a cobertura de internet nos locais mais recônditos do País. A falta de rede para a transmissão de dados em tempos real na chamada Angola profunda foi denunciada durante o processo de recolha de dados.
Durante a divulgação dos resultados foi notório o reaparecimento da figura do coordenador do RGPH, o general Francisco Furtado, que antes havia deixado de dar o rosto, sobretudo quando o processo esteve no período de ocaso, ou seja, na sua fase mais crítica.
Daí que cabia a Francisco Furtado, na sua qualidade de coordenador geral do Censo, assumir, em jeito de balanço, os activos e passivos de todo este processo.
Competia a ele explicar por que Angola não realizou o Censo dentro dos prazos estabelecidos pelas Nações Unidas, ou seja, no espaço de um mês, como ele próprio havia prometido quando da abertura da campanha.
Cabia ao responsável máximo pelo processo dizer por que razão uma elevada percentagem de angolanos não foi recenseada, o que coloca em causa a fiabilidade e seriedade do Censo, já que a margem de erro foi bastante pronunciada.
Na realidade, o Censo 2024 esteve longe de cumprir com os objetivos estratégicos do Sistema Estatístico Nacional (SEN), que consistia na disponibilização de estatísticas oficiais que iriam permitir melhorar e aprofundar o conhecimento sobre a realidade do País, através da caracterização da sua população e o respectivo parque habitacional.
Apresentado aos olhos da opinião pública com um processo exitoso e de grande alcance político e social, os resultados do censo fracassado, que mobilizou quase 80 mil pessoas, não só consumiram elevados recursos financeiros do tesouro nacional, como também do Banco Mundial, poderão comprometer futuramente as políticas públicas.
Aos observadores mais atentos não passou despercebido o facto de o processo ter sido objeto de vários adiamentos, sofrido deslizes, ao ponto de o INE ter admitido a repescagem dos agregados familiares que haviam ficado de fora nas primeiras fases da recolha de dados.
Noutras latitudes, onde a responsabilização política e ética dos governantes e responsáveis políticos tem sido uma pratica constante e não um mero exercício de retorica, a cabeça do general Francisco Furtado já teria rolado.
Infelizmente, o que assistimos nesse processo foram os sucessivos incumprimeentos e o afastamento do antigo diretor do INE, Francisco Calengi, como se esse tivesse sido o único responsável pela ma condução do processo e pelo seu descalabro.
Da boca do chefe da Casa Militar do Presidente da República não houve um pedido de desculpas pelos erros cometidos, não colocou o lugar o cargo a disposição e nem sequer foi publicamente admoestado pelo TPE.