E a guerra acabou, e todos acreditamos que, naquela altura, teríamos um País. Mas, a reconstrução mal-amanhada endividou-nos sem que fosse capaz de ser assertiva, honesta e, sobretudo, visionária. A primitiva acumulação de riqueza, que acarinhou militantes mal-agradecidos, que nem uma lágrima verteram pelo seu Emérito, sem o qual estariam no Mercado do 30, produziu ricos sem capacidade para multiplicarem riqueza. Uma burguesia decrépita, egoísta e incapaz de alavancar a economia na proporcionalidade da generosidade com que foi, economicamente, agraciada.


Na angústia da incerteza que oprime todos aqueles a quem ainda resta a sensibilidade e o amor pelo próximo, que tenham de conviver com a tortura da insensibilidade política, alheia aos afectos e à felicidade colectiva, olhamos para o estado do nosso Estado doente e definhado pela pobreza das suas aplicações práticas que nunca foram capazes de resolver nenhum problema de forma definitiva e temos a certeza de que, 48 anos depois, não basta ter multidões num comício para se ser um bom gestor capaz de perspectivar um caminho de prosperidade para que a Nação cresça e se desenvolva.

A fraqueza e o egoísmo humanos que se engrandecem em grupos de dominação longeva, aliados à vaidade dos que acreditam apenas nos elogios dos seus subordinados, permitiram que a sucessão contrariasse o processo democrático. E de mão em mão escondidos debaixo da saia remendada do partido, depois daquela rasteira constitucional que misturou legislativas e presidências no caldeirão do despropósito, percebemos que o medo de dar a cara sozinho atormenta a liderança desde 1992.
As autárquicas que permitiriam a descentralização e o fortalecimento da democracia também são vítimas do medo. Não restam muitos militantes das estruturas de topo capazes de serem amados pelo povo. A forma hostil com que, durante anos, muitos representantes do MPLA trataram os povos das suas províncias fez nascer uma aversão racional. A tirania pode manter a ordem. Mas nunca pode esperar ser respeitada por essa via.

Com uma população cheia de vida, própria do sangue jovem, a cobrar os seus Direitos elementares, acreditar que o futuro pode ser um espelho do passado não é infantilidade, é demência de quem não lê os sinais de que a vida da esmagadora maioria dos angolanos é um inferno que dispensa a presença de satanás. O marégrafo governamental está, definitivamente, avariado. Por isso, não conseguem medir a altura das marés e o seu perigo. A desigualdade, a pobreza extrema, a fome, o desemprego, a morte dos filhos, a falta de acesso à saúde, à água potável e a negação da escola para todos criam tsunamis cujo impacto é sempre imprevisível.

O inferno agravou-se desde 2018 com a falta de prioridades da despesa e trouxe consigo a morte da esperança. Somos um País adiado e sem soluções. Assente num sistema antropofágico que se perdeu dentro de si. Um sistema incapaz de produzir acções coerentes, mas implacável quando é confrontado com isso. Que persegue quem tem outra opinião sobre a qualidade da governação e protege quem produziu o erro, desafiando a física porque, na pior das hipóteses, os causadores da desgraça caem para cima ou para o lado.

Um Cérberus nunca poderá criar um sítio de paz, de concórdia, de dignidade e de amor, qualidades que definem o paraíso. O inferno terrestre é produzido pela mágoa, ódio, desejo de vingança, ganância, bem como a vitimização e a outorga da culpa sempre para os outros. Os criadores do inferno na Terra não têm luz interior, não constroem pontes, nem magnanimidade. São o avesso da bondade.

Líder é aquele que usa o amor, o perdão e a compaixão para fazer nascer o bem-estar colectivo. LÍDER é quem se preocupa com o futuro das próximas gerações e não com as próximas eleições. Foi esta atitude que tornou Mandela num LÍDER e num EXEMPLO universal, porque foi capaz de se libertar do seu injusto inferno interior. A falência das políticas públicas reside na falta de qualidade dos afectos, na ausência de empatia dos seus progenitores e nas acções que privilegiam o lucro pessoal. E aqui reside a diferença entre nações prósperas e sustentáveis e nações incapazes de tomar conta dos seus povos, garantindo a sua dignidade. Na vida e na governação, cada um dá apenas o que tem dentro de si.