Sem surpresa e acreditando que vai mesmo a jogo, esteve pessoalmente no acto de formalização da candidatura. É o primeiro membro do MPLA a fazê-lo sem usar comissários intermediários. Fez História.
Deu o peito às balas. Sem colete à prova de bala. Ainda. Acto de campanha ou respeito pelos militantes. E pelos angolanos em geral. Porque sabe que a vida dos angolanos continua dependente do que faz ou não faz ou deixa fazer o seu omnipresente partido.
Por isso, não se escondeu por trás do mandatário. Disse o que pretende. Em contraste com o candidato incumbente, o Presidente João, como diz o malanjinho Valdir Cónego, militante do maioritário com ideias próprias.
Do "candidato natural" nunca se ouviram de viva voz as razões ou motivos por que não quer "largar o osso", ficando essa missão sob a responsabilidade de um mandatário cheio de máculas, de reputação moral abaixo de zero, o que já se sabia antes de se tornar pública.
Mandatário envolvido em escândalos sexuais que transformam a sede do tal partido em bordel, fazendo lembrar o Bataclã, luxuoso e movimentado cabaré da Maria Machadão da telenovela Gabriela, baseada no romance Gabriela, Cravo e Canela, do brasileiro Jorge Amado.
Higino Carneiro deu uma conferência de imprensa. Concorrida. Viram-se jovens jornalistas de pequenos portais a disputarem espaço com profissionais consagrados. De media estrangeiros e nacionais. Na hora de divulgar a matéria, os de fora, como a RTP ou a DW, deram mais "tempo de antena" que os míseros 12 segundos da capturada TV Zimbo.
Só seres grandes fazem por ficar em imagens históricas. Job Capapinha, líder inamovível desse cancro chamado lambebotismo e também coordenador da subcomissão de candidaturas do Congresso, ficou do lado de fora desse momento. Ua lenge. Fugiu de si próprio para o seu lugar cativo. A bajulação.
Em imagens históricas não há lugar para a pequenez. De bajuladores ou de traidores hereditários. Para os que desde tenra idade aprenderam a ignorar o colectivo. Priorizando a ambição egolátrica. Não há espaço para Capapinhas.
E assim fica confirmado que para o partido que governa Angola, o mais importante deixou de ser resolver os problemas do povo e passou a ser atender à ganância pessoal.
O candidato mostrou organização e recursos. Incluindo financeiros. Mas, sobretudo, coragem. Para apresentar uma candidatura contra o chefão absolutista que, apesar de detestado interna e externamente, controla tudo e todos. E, rancorosamente, não se coíbe de usar a justiça por si manietada para pôr todos e tudo na (sua) linha.
Chefão que ignora o ensinamento mbundu que recomenda a quem vai bater num gato dentro de um compartimento fechado, a deixar uma janela aberta/saída se tiver a porta fechada, para que o animal possa fugir quando já não suportar mais agressão. Caso contrário, o felino revoltado ataca, arranha e pode cegar ou matar o agressor.
O Presidente João não percebeu que o gato (os angolanos, incluindo os do MPLA) atingiu o limite da sua capacidade de suportar mais sofrimento. Com isso, revoltou-se vulgarizando o agressor. Nas redes sociais, na zunga, nas ruas, nas escolas, nas festas, nos óbitos e em todos os locais.
Desinteligentemente, o chefão ignora que miséria misturada com opressão e repressão é uma receita politicamente intragável. Mostra que está a caminhar a passos largos para o "suicídio de classe" (MPLA e sua elite). Diferente do que Amílcar Cabral dizia, esse suicídio está longe da ideia de abandono dos privilégios de classe para se comprometer com as aspirações do povo. É mesmo a morte provocada do partido histórico.
À volta de HC está gente politicamente pouco mediática, mas com coragem e disposta a manifestar a sua oposição. As ausências de barões e baronesas dizem muito da natureza de um partido de cínicos e cobardes.
Os tais makota. Os mais velhos que são a história e a continuidade da história do Partido. Assistem calados ao desmoronar do edifício. Estão em silêncio como meros espectadores vendo o lawfare que cozinha HC em lume brando. E o ressurgimento de machados nunca enterrados. Do racismo e da divisão étnico-socio-cultural.
Para proteger privilégios pessoais e com medo de serem também alvos de processos judiciais sobre corrupção, enriquecimentos e afins. Esquecendo-se de que, se o leopardo quando morre deixa a sua valiosa pele, os seres humanos deixam a reputação.
Mesmo assim, Higino Carneiro acredita que a sua candidatura chegará à votação pelos congressistas. Gente que sairá das assembleias e conferências de militantes, organizadas ao abrigo dos regulamentos e da Comissão Nacional Preparatória do Congresso, presidida pelo candidato-Presidente João.
O mesmo que vai presidir aos trabalhos do Congresso e que, como presidente da Comissão Nacional preparatória do Congresso, tem também sob a sua alçada as subcomissões de candidaturas e eleitoral. Aqui está o jogador, dono da bola, do campo e árbitro.
HC crê, por fé, ingenuidade ou porque tem algum trunfo na manga, que os processos judiciais cirúrgica e oportunamente levantados para o retirar da corrida cairão por terra. E admite ainda que consegue mudar/reformar o sistema de que faz parte sem o implodir completamente e refundar Angola.
Confia que fará história no kibuka que há muito se parece com um antro de gente sem escrúpulos, centrada apenas no poder como meio de enriquecimento e obtenção de benesses sociais, políticas, materiais e financeiras, protectora de assediadores sexuais e morais.
Pensa vencer um chefão que se apresenta como divindade. Aquele que distribui "bênçãos" com critérios que os comuns dos mortais não entendem. Mesmo que por caminhos ínvios. E com o singular poder supremo de "escrever direito por linhas tortas".
Ancorado nas suas mais de 19 mil subscrições conseguidas, acredita que, mesmo sem regras iguais para as diferentes candidaturas, depois de ver dificultada a recolha de assinaturas por jikilesa, caciques do chefão, vai conseguir ir a jogo.
Num partido regulado pelo medo, cobardia, oportunismo e cinismo, com ADN de falta de ética e de ideologia, 20 mil assinaturas de uma candidatura opositora ao "petit dieu" devem significar que os descontentes silenciosos são milhares de milhares ou milhões. Como os 77% de angolanos de diferentes grupos sociais que "consideram que o país está na direcção errada", de acordo com uma pesquisa recente do Ovilongwa.
Por isso, as 20 mil assinaturas de militantes, quatro vezes mais que o mínimo exigido, cerca de 80% a mais que as 11 mil apressadamente apresentadas pela equipa do chefão, expressam uma mensagem política. Mostram que o bilo pode ser entre quem está com as bases e quem controla a elite da ganância.
Prova também que o candidato conhece os meandros da batota instituída pelo seu partido e quis deixar o menor espaço possível para manobras nesta matéria. E parte do princípio de que quanto maior for o número de assinaturas, menor será a probabilidade de ver a sua candidatura inviabilizada por insuficiência ou irregularidades das subscrições.
E o "petit dieu", que mandou recolher as assinaturas num fim de semana (Sábado e Domingo) para ser o primeiro a alimentar a comissão Capapinha, averba a sua primeira (pequena) derrota e teve de se lembrar que "o apressado come cru", um dos seus slogans preferidos.
Sem nunca dizer de viva voz que se candidata, menosprezando tudo e todos, sem se preocupar com questões morais e deixando o seu nome associado ao mais grave escândalo sexual da sede do MPLA, o chefão que também se esquece que conforme o provérbio "quem não ouve conselho não chega a velho", continua a pensar que é eterno e imortal.

A desinteligência política, o desespero, o descontrole e descrença do Presidente João e a sua entourage fazem de Higino Carneiro, o Messias, o Dom Sebastião, o general sem medo. Herói que enfrenta o opressor. E cresce a popularidade de HC, dentro e fora do seu partido. Por demérito do chefão.