Sendo a Cultura um processo de evolução da consciencialização e o homem parte integrante da realidade, ele é, simultaneamente, sujeito e objecto desse processo, sendo essencial no desbravar dos caminhos da ignorância e no fazer surgir a luz no escuro em que, um pouco por todo o mundo, vamos começando a viver.

O ser humano será tanto mais culto quanto maior for a sua capacidade de entender e apreender o conjunto de relações que o prendem à realidade que o cerca e os limites das suas possibilidades reais e do alcance do seu pensamento e da sua acção. Tal desnorte, que acompanha grande parte da realidade do mundo de hoje, ajuda, com muita facilidade e bastante inconsciência, a que, perdidos, a tactear realidades que muitas das vezes não pensámos nunca viver, nos seguremos às diferentes tábuas de salvação que nos oferecem, escolhendo-as não de forma madura e adulta, mas tratando-as como afogados, que, estando prestes a perder as forças, nos seguremos a elas e delas façamos - porque pressupomos que nos salvam a vida - o esteio do nosso equilíbrio, do nosso quotidiano e de seguida das nossas convicções.

Resulta tudo isto num quadro que, com facilidade, nos pode empurrar para radicalismos imprudentes, decisões impensadas e fanatismos idênticos aos que criticamos permanentemente e que vemos nascerem um pouco por todo o lado. O exercício de direitos cívicos que permitem aos cidadãos usufruírem da sua liberdade (religiosa, política, ideológica, cultural) implica também, como condição essencial para viver em comunidade, o cumprimento de deveres. Que passam, acima de tudo, pelo respeito, tolerância e compreensão do pensamento do outro, que não tem de ser necessariamente igual ao nosso.

Um exemplo interessante: Recordamo-nos, há pouco mais de duas décadas, de ver as igrejas católicas em Luanda vazias, mas abertas, com missas que às vezes eram presenciadas por dois fiéis. Mente quem, tentando revirar a história, diz que não havia liberdade religiosa. Nada mais falso. As pessoas - por oportunismo, por moda, por convicção momentânea - andavam em correrias para integrar as células do então partido único. Com a mesma ligeireza, a mesma falta de seriedade e a mesma ausência de sinceridade com que hoje abarrotam igrejas, sejam elas as que fazem parte do nosso percurso histórico e cultural, sejam as seitas que se estenderam livremente por todo o país, e que ajudam ainda mais ao afunilamento das perspectivas de cada um. Há que saber separar, obviamente, as igrejas das seitas, e ter a noção de quem se preocupa com os verdadeiros problemas da comunidade e os que utilizam a comunidade para, tirando proveito das suas fraquezas, da sua ignorância, da escuridão cultural em que vivem, darem largas à sua condição de máquinas de fazer dinheiro e de enriquecer pseudo-pastores e quejandos.

Dessa condição de letárgicos e inconscientes até à defesa cega, desconexa e sem argumentos da subcomunidade em que se integram, vai apenas um passo. O que é dado quando, explorados e utilizados, passam a defender, com a mesma violência e agressividade, o que lhes é encomendado e pulverizado nas suas mentes.

Cada vez dificultamos mais as coisas sempre que alguém, fruto da sua própria ignorância, talha o caminho do radicalismo, qualquer que ele seja, ficando cego, surdo e mudo a quem não repita o mesmo discurso, uma espécie de doutrina que o impede de ver para além das palas que aceitou que lhe pusessem nas vistas. Se o radicalismo político deu muitas vezes mau resultado, e temos exemplos disso no nosso percurso, o fanatismo religioso é tanto pior quanto mais se cultivar a iliteracia e nos recusarmos a abrir o caminho que conduz à assumpção da educação, da cultura e da educação cívica para todos.

E a história também nos ensina a que conduzem todo e qualquer tipo de radicalismos e fanatismos, sejam religiosos sejam de qualquer outra vertente.