Se três visitas de trabalho em três semanas é reflexo de intensa discussão em torno da escaldante questão da instabilidade no leste do Congo, duas passagens por Luanda em cerca de 72 horas é um sinal evidente de que se deve esperar algo de importante no contexto do processo de estabilização da região dos Grandes Lagos.

E foi isso que, precisamente, aconteceu, com a presença de Félix Tshisekedi na Cidade Alta na segunda-feira, 05, e de novo nesta quinta-feira, 08, sendo, no que é o registo histórico conhecido, a primeira vez que tal sucede, com a provável retoma do Processo de Luanda, ou uma nova plataforma de diálogo em cima da mesa, de acordo com a agenda oficial, porque raramente são divulgados pormenores destes encontros

Em cima da mesa está, no encontro de hoje, como o fora na segunda-feira, como ponto único, embora a RDC e Angola, países vizinhos com uma extensa fronteira de 2.500 kms, tenham muitos temas para discutir, o acordo mediado pelos EUA entre Kagame e Tshisekedi.

Por exemplo, sabe-se que as questões fronteiriças entre a RDC e Angola é um assunto que de tempos em tempo regressa à agenda de trabalho dos dois governos, com a questão da exploração petrolífera angolana no mar de Cabinda sobre a qual Kinshasa mantém históricas pretensões e existem mesmo tratados entre os dois vizinhos sobre esse assunto.

É que na memória, distante, mas ainda presente, está a severa crise que afectou as relações bilaterais em 2009, quando, devido a diferendos sobre a questão petrolífera, inicialmente, o Parlamento congolês em Kinshasa ordenou a expulsão de dezenas de milhares de angolanos.

No entanto, desta feita, pelo menos oficialmente, João Lourenço e o seu homólogo congolês, Félix Tshisekedi, têm apenas em cima da mesa a questão da paz no leste da RDC e a retoma do Processo de Luanda, interrompido no ano passado de forma abrupta por Angola.

É que João Lourenço não gostou de ver que Tshisekedi e o ruandês Paul Kagame se encontraram nas suas costas em Doha, no Catar, em Março de 2025, para dar inicio a uma nova frente negocial mediada pelo Emir do país, o Xeque Tamim Al-Thani, e pelo norte-americano Donald Trump.

Esse encontro levou a um acordo, que viria a ser assinado em Junho, em Washington, no que seria uma das mais citadas das "oito guerras" que o Presidente dos EUA se gaba de ter extinguido mas que, agora, se percebe que está totalmente morto, devido ao regresso ás conquistas territoriais do M23, os guerrilheiros apoiados por Kigali.

Tal acordo deixou de ter pés para andar e está hoje sob um campo "minado" pelos guerrilheiros do M23, apoiados por Kigali, que não apenas voltaram a pegar em armas, mas nunca as chegaram a depor.

E isso viu-se com as forças lideradas por Corneille Nangaa a avançar no terreno, especialmente no Kivu Sul, com tomadas de posições sucessivas em áreas de interesse mineiro estratégico, a ponto de chegarem mesmo a ameaçar avançar para o Katanga.

Na altura do acordo de Washington João Lourenço abandonou a liderança do Processo de Luanda, dando sinais de grande desconforto, até porque detinha a liderança da União Africana, esperando para ver como fluía o acordo mediado por Donald Trump.

Correu mal. Como se vê. E, agora, para atalhar caminho, ao que tudo indica, porque nem os congoleses nem a parte angolana avançam detalhes do conteúdo destas conversas, Félix Tshisekedi deixou de vez Paul Kagame a falar sozinho e voltou a ter João Lourenço como conselheiro e visa o seu regresso á condição de mediador...

Até porque, como avança a Radio Okapi, uma das mais relevantes na RDC, foi a instabilidade regressada ao leste do Congo que está em foco nestas visitas a Luanda do Presidente Tshisekedi, que afiançou ao angolano que a região "vive uma guerra imposta".

Numa referência ao Ruanda como sendo o país que está a levar a conflitualidade militar ao leste da RDC de novo através do seu instrumento armado que são os guerrilheiros do M23, que furaram por completo a fina película que envolvia o acordo de Washington (ver links em baixo).

O que o congolês pretende, com alguma, ao que tudo indica, resistência de Lourenço, até porque é difícil antecipar como Donald Trump poderá reagir, é reactivar o Processo de Luanda, como avança a Okapi, citando várias "fontes concordantes".

Entretanto, em Luanda, Tshisekedi, citado pelos media estatais, disse, à saída do encontro com João Lourenço na segunda-feira, que este foi proveitoso no sentido em que ocorreram avanços no esforço de estabilização da situação no leste da RDC.

E nessas declarações emergem alguns sinais de que o Presidente angolano estará novamente disponível para dar um contributo, embora ainda sem que esteja totalmente claro em que condição.

"O Presidente João Lourenço, como homem de iniciativas, apresentou-me algumas propostas que considero muito interessantes e que espero que nos permitam avançar no plano da paz República Democrática do Congo", enfatizou o Presidente congolês.

E acrescentou que o que o Presidente angolano pensa "não se afasta dos processos já existentes, nomeadamente os acordos de Washington e de Doha, mas visam antes reforçar e complementar os caminhos já abertos para a paz".

Recorde-se que (ver links em baixo) a RDC acusa o M23 de ser uma ferramenta ao serviço do Ruanda, que o financia e arma, para explorar, com a cobertura da instabilidade, os imensos recursos naturais do leste congolês, com destaque para o coltão, o cobalto e terras raras.

E o mesmo M23 está actualmente a avançar para sul, com alguma e perigosa solidez, na perspectiva angolana, visto que se chegar ao Katanga, antiga região próxima de Angola hoje dividida em duas províncias distintas, pode começar a desestabilizar também esta geografia na fronteira com a Lunda Norte, região igualmente rica em recursos naturais...