É o Bairro Operário de ontem, hoje e sempre, mas as novas gerações não conhecem o valor desta «instituição». O desabafo saiu da boca de um morador do vizinho São Paulo que falava, assim, de um espaço que, segundo alguns, foi convertido num bairro, um viveiro de figuras que viram Luanda a crescer. A visita começou cedo.
Para os que conhecem bem aquela zona, quase tudo está mudado, mas nada tem sido feito para melhorar. O que antes parecia ser muito largo é hoje muito pequeno. A grande escola de outros tempos, conhecida como Escola do Funge, oficialmente a nº 172, rivalizava com a grande Anangola, situada na divisão entre a Cônego Manuel das Neves e o bairro do Cruzeiro, perto do cemitério do Alto das Cruzes.
O lugar começou a ser povoado nos anos 30 e com a particularidade de ser um musseque situado no coração de Luanda, com características não muito próprias do musseque que hoje se conhece. Foi o primeiro bairro urbanizado de Luanda, construído pela Câmara Municipal.
Segundo o sociólogo Artur Pestana, em entrevista concedida ao Jornal de Angola, não havia asfalto, água canalizada, luz eléctrica e construções de carácter definitivo ou qualquer tipo de saneamento básico. À medida que o tempo passou, o bairro foi mudando em muitos aspectos, mas mantém a sua estrutura e os arruamentos que o distinguem. No seu livro ABC do Bê Ô, o escritor Jacques dos Santos considera o bairro uma instituição. De uma forma ou de outra, a história que arrasta confere-lhe esse estatuto.
Na sua trajectória entram respeitáveis famílias, intelectuais, comerciantes, músicos, farristas, boémios, lutadores, prostitutas, figuras bizarras e até notáveis doentes mentais (…).
A curiosidade de conhecer o Bairro Operário era plantada na cabeça das pessoas pelo negócio do corpo que lá se praticava. Um lado negativo que Jacques apontou no seu livro de «Vidas do Munhungu». A prostituição teve como pioneiras portuguesas brancas que, em janelinhas, faziam convites a homens interessados em desfrutar dos seus corpos a troco de dinheiro. Um ofício que estendeu-se a todas as raças e cores, dando má fama ao bairro.
Mas… voltando ao nosso bairro de hoje, onde a rua do centro Cultural Agostinho Neto rasga todas as restantes artérias pelo meio, sendo esta a mais longa e com maior movimento, denúncia o estado de degradação em que se encontram as outras vias daquele emblemático ponto da capital angolana.
O cenário que apresenta é desolador. Ruas enlameadas, águas paradas fétidas, fossas rebentadas e estradas de terra batida esburacadas. O desalento dos mais antigos moradores é reflectido na maneira como falam do bairro e que, com alguma nostalgia, lembram os bons tempos, em várias ocasiões, narrados por Amadeu Amorim e Dionisio Rocha, figuras que conhecem os cantos desta casa.
Os praticantes do futebol tinham a recreação garantida no campo Deolinda, perto do restaurante Roviana, outro ponto de encontro da elite dos anos 80 que vivia naquele bairro. Hoje, esse espaço de recreação está quase transformado em estaleiro de uma desconhecida empresa que leva os moradores a pensar se estes são os ventos da prometida requalificação.
Os edifícios já passaram por momentos piores, com a tubagem para o escoamento das águas residuais entupida e que contaminava o ambiente daqueles prédios com um cheiro nauseabundo. Incapazes de fazer alguma coisa que pudessem inverter a realidade definitivamente, os moradores, desprovidos de meios, recorriam às saudosas campanhas de limpeza para aliviar alguma coisa mas que, segundo eles, não era suficiente.
Prédios sobrelotados e requalificação
Edificados para um determinado número de famílias, os prédios do BO encontram-se hoje lotados. Os elevadores deixaram de funcionar há mais de 20 anos, alguns resistiram até meados dos anos 80, mas hoje a grande maioria foi transformada em depósito de lixo despejado pelos próprios moradores. Alguns dos edifícios, sem o varão de apoio nas escadas e terraços, que em tempos serviram para a realização de actividades culturais, hoje servem para abrigar reservatórios de água dos apartamentos já que, segundo informou um morador, a EPAL deixou de abastecer a zona há anos.
Carneiro & Irmão, o supermercado que até à década de 80 abasteceu a maioria dos moradores, é hoje um espaço que tudo pode fazer, menos a actividade para a qual foi criado originalmente. Ainda em meados de 90, tinha sido recuperado, mas a intenção não foi bem- -sucedida e daquele lugar só resta o nome, uma referência para os antigos moradores.

