Segundo Mykhailo Fedorov (na foto), existem actualmente, quando a invasão russa cumpre dentro de pouco mais de mês e meio quatro anos de duração, mais de 2 milhões de homens que fugiram do serviço militar, seja para o estrangeiro, seja porque se escondem nas suas vilas e aldeias ou cidades.

Além deste número gigantesco de indivíduos que se recusam a combater pelo seu país, o ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, que tomou posse apenas esta semana, vei ainda referir, confirmando o que há muito se fala nos canais e blogues militares ucranianos nas redes socias, que mais de 200 mil soldados desertaram para não continuarem a combater.

E, como se fosse pouco, Mykhailo Fedorov admite também que a actual défice orçamental no seu Ministério, incluindo salários militares, seja os salários dos que estão em serviço, seja entre os que tombaram, relativamente às compensações que devem ser pagas aos seus familiares, mais de 300 mil milhões de Hryvnia (moeda ucraniana), o que equivale a cerca de 6,5 mil milhões USD.

Perante este cenário de extrema complexidade para manter viável o esforço de guerra ucraniano, quando é conhecido que os EUA estão a reduzir substancialmente o seu apoio financeiro e militar a Kiev, e os seus aliados europeus não possuem músculo que permita compensar essa redução, vários analistas admitem que Kiev pode estar à beira de soçobrar.

Uma dessas vozes é de John Mearsheimer, um dos mais prestigiados analistas em geopolítica e geoestratégia norte-americano, professor da Universidade de Chicago, com dezenas de livros publicados, que entende que "perante este cenário a Ucrânia não tem como sair por cima" no conflito com os russos.

O analista, que, apesar do prestígio e das provas dadas de racionalidade nas suas análises, é acusado por Kiev de ter uma tendência de favorecer o lado russo nas suas abordagens, entende ainda que se já era conhecida a dificuldade de Kiev aguentar o esforço de guerra, com estas declarações de Mykhailo Fedorov, tudo se torna mais claro e, ao mesmo tempo, mais difícil, porque os combatentes na linha da frente também ouvem as notícias.

O problema é de tal monta que estas declarações do ministro da Defesa ucraniano estão a ser replicadas na generalidade dos media ocidentais, quase todos com posturas editoriais pró-Kiev, como sendo um marco relevante no xadrez do conflito ucraniano, com destaque para The Guardian, o campeão na defesa da defesa dos interesses ucranianos.

Este jornal britânico nota mesmo que as forças militares ucranianas estão sob pressão há anos no esforço para resistir aos russos, "um inimigo muito maior e mais poderoso", com "as condições na linha da frente em crescente brutalidade e dificuldade" com cada vez mais situações de clara inferioridade em número de soldados face aos avanços russos".

"E os rumores de baixa moral e elevada deserção estão a crescer perigosamente nas trincheiras há muito, sendo que as declarações de Fedorov são a primeira vez que esse cenário é admitido oficialmente com notas precisas da escala do problema", avança The Guardian.

Trump culpa Zelensky pelo falhanço das negociações de paz

Apesar de as palavras de Donald Trump serem há muito vistas como meros apontamentos circunstanciais sem revelarem uma posição coerente por parte dos EUA, a verdade é que não é a primeira vez que o Presidente norte-americano acusa Volodymyr Zelensky de ser o responsável pela ausência de resultados nas negociações de paz.

Numa entrevista com a Reuters, na Casa Branca, com o simbolismo da Sala Oval, Donald Trump apontou o Presidente ucraniano como "o maior obstáculo" a um acordo de paz com os russos que permita acabar o conflito.

Questionado sobre quem é que está a contribuir mais para que o processo negocial não tenha desenvolvimentos positivos, Donald Trump foi peremptório: "Zelensky", acrescentando que é seu entendimento que o ucraniano está a ter "um mau momento" e "muitas dificuldades para chegar onde quer".

E foi ainda mais longe: "Acho que Vladimir Putin (Presidente russo)n esta mais perto e disponível para assinar um acordo. Entendo que os ucranianos estão menos receptivos a dar esse passo".

E isso parece estar a ser confirmado por Moscovo onde o ministro dos Negócios Estrangeiros veio repetir que a Rússia mantém intacta a disponibilidade de falar com os EUA, seja com o Presidente Trump ou com os seus enviados especiais, sobre como resolver o conflito na Ucrânia.

Entretanto, numa declaração que ainda carece que interpretação, mas que pode mostrar que os russos estão cientes das dificuldades ucranianas no terreno, o CEMGFA russo, general Velery Gerasimov, veio lamentar, citado pela RT, que as tropas ucranianas estejam a ser "sacrificadas em ofensivas sem justificação e votadas ao falhanço".

Gerasimov insistiu que a Rússia está a avançar de acordo com os seus planos de combate e que as ofensivas ucranianas pontuais não são vistas como um entrave a esse cumprimento dos planos, pelo contrário, o chefe militar russo nota que Kiev está a sacrificar inutilmente tropas.

"A chefia das formas militares ucranianas está a usar todos os meios e sem olhar a perdas para tentar, sem qualquer sucesso ou eficácia, os avanços russos no terreno", garantiu Valery Gerasimov.

Que afirmou ainda que as forças ucranianas denotam um interesse inexplicável por mandar unidades para zonas de morte apenas para deixar uma bandeira em algumas localidades que depois são limpas de imediato e servem apenas para a fotografia mas sem qualquer propósito estratégico, apenas para fins de propaganda.