Nenhuma geração de campeões surge por acaso. Antes dos títulos existe sempre uma filosofia, um modelo de formação, uma cultura organizacional e uma visão estratégica capaz de orientar milhares de pequenas decisões tomadas ao longo dos anos.

O exemplo da Espanha que venceu no último domingo o campeonato do mundo de futebol é paradigmático.

Durante décadas, o futebol espanhol foi reconhecido sobretudo pela virilidade dos seus jogadores. "La fúria" era o cognome da equipa, justamente a propósito da forma como ela jogava.

Foi o treinador Luís Aragonés quem compreendeu que o problema que provocava múltiplos insucessos na equipa nacional espanhola não estava na qualidade dos jogadores, mas na ausência de uma ideia comum que lhes levasse aos desejados triunfos.

A sua maior conquista não foi apenas vencer o Campeonato da Europa de 2008. Foi convencer um país inteiro de que o futebol espanhol deveria ter uma identidade própria diferente.

A posse de bola deixou de ser apenas uma estatística para se transformar numa filosofia. O passe curto passou a ser um instrumento de controlo emocional do jogo. A inteligência táctica começou a prevalecer sobre a força física. A equipa passou a jogar como um corpo único, onde cada movimento fazia sentido em função do colectivo.

Quando Pep Guardiola aperfeiçoou muitos desses princípios no Barcelona e Vicente del Bosque lhes deu continuidade na selecção nacional, o caminho já estava traçado. Os títulos que se seguiram foram, acima de tudo, consequência de uma visão iniciada anos antes.

Esta realidade transporta uma importante reflexão para o desporto angolano.

Continuamos demasiado dependentes do aparecimento de gerações excepcionais. Quando surgem atletas de enorme qualidade, alcançamos resultados relevantes. Quando essas gerações terminam, inicia-se um novo ciclo de reconstrução, quase sempre baseado na improvisação e na esperança de que novos talentos apareçam espontaneamente.

Mas os campeões não podem depender da sorte.

Devem ser o resultado natural de um sistema de formação consistente.

No basquetebol, uma das modalidades que mais prestígio internacional proporcionou a Angola, talvez tenha chegado o momento de deslocarmos o centro da discussão. Em vez de perguntarmos quem será o próximo grande Jean Jaques, Olímpio Cipriano ou Carlos Morais , deveríamos questionar que modelo de formação estamos a construir para que os grandes jogadores continuem a surgir nas próximas décadas.

Não basta organizar campeonatos nacionais, formar equipas e descobrir talentos.

É indispensável, em minha opinião , construir uma verdadeira filosofia nacional de desenvolvimento desportivo.

Essa filosofia deve começar no minibásquete, integrar a escola, a família, os clubes, as associações provinciais, a Federação, as universidades e o sector privado.

Deve estabelecer princípios técnicos, pedagógicos e éticos comuns, permitindo que todas as etapas da formação conduzam à mesma visão de futuro.

Os países que dominam o desporto mundial não trabalham para ganhar o próximo campeonato. Trabalham para que a vitória seja uma consequência permanente da qualidade do seu sistema, do modelo escolhido.

É essa, para mim, a principal lição deixada por Luis Aragonés.

O seu maior legado não foi o tiki-taka. Foi a capacidade de construir uma cultura vencedora porque os sistemas produzem atletas e culturas produzem gerações e são estas , por sua vez que escrevem a história.

Talvez tenha chegado o momento de Angola compreender que o maior investimento no desporto não é aquele que fazemos na procura do próximo campeão, mas sim aquele que fazemos na construção das ideias que permitirão formar todos os campeões que ainda estão por nascer.

*Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga