Acreditámos na utopia dos modernos, para quem o progresso era incontornável, e durante décadas parecia que eles tinham razão. Depois de devastadoras guerras mundiais, e do fracasso da Sociedade das Nações, uma nova arquitectura de governação mundial, a ONU-Organização das Nações Unidas, oferecia sinais que permitiam alimentar certo grau de optimismo no futuro, em que o respeito entre todos, consagrado numa legislação supranacional, era a pedra-chave para garantir a estabilidade do edifício; consagrava-se a justiça social como grande objectivo da humanidade, o que deu origem aos movimentos de independência dos povos colonizados e a sistemas que prometiam políticas que garantissem as condições mínimas para todos os cidadãos do planeta, e promoviam-se mecanismos de solidariedade; uma maior consciência ambiental, que clamava por uma maior atenção ao respeito pela natureza, traduzia-se no surgimento de fortes movimentos ecológicos com ampla participação, particularmente da juventude. Pareciam pilares de um mundo que se poderia legar aos vindouros em melhores condições que as herdadas pela nossa geração.

Os últimos anos vêm destruindo essa ilusão.

Retiradas as máscaras, tem ficado claro que a luta pelo poder continua a ser o único objectivo, quer nacional, quer internacionalmente, dos actores políticos. O desrespeito pelo outro tornou-se a prática corrente, ao ponto de quase já não ser notícia. O uso indiscriminado da força, que substituiu de uma forma sistemática o diálogo, passou a ser o modus operandi habitual. Os acordos entre forças políticas e sociais, e mesmo entre países, passaram a ter o mesmo valor daqueles que os colonizadores assinavam com os povos que queriam colonizar (e, na maioria das vezes - quando não se podiam aproveitar da sua força de trabalho - exterminar): meros instrumentos tácticos que servem apenas para ganhar tempo e criar condições para o próximo acto bélico que permita a submissão do que parece mais fraco.

A nível nacional, os recentes acontecimentos ocorridos no Uíge devem fazer cada angolano reflectir, pois as eleições se aproximam, e é indispensável que outro clima se estabeleça entre nós. Parece estar difícil fazer coincidir o discurso - e o que está plasmado na Constituição e na legislação existente - com a prática: os direitos nela consagrados devem ser respeitados, nomeadamente o da manifestação, nas condições legalmente previstas. O uso excessivo da força é inaceitável contra cidadãos desarmados. As autoridades devem evitar a todo o custo situações que levem à confrontação, desburocratizando processos e promovendo o diálogo, para facilitar a aplicação do que está regulamentado. Na sociedade que queremos promover, o outro não pode ser "o inimigo", mas simplesmente um parceiro com ideias diferentes!

A nível internacional, sem ONU, para além das negras nuvens que se acumulam no horizonte comprometendo a soberania das nações, é difícil ter uma situação mais dramática que a actual, onde só a força impera, perante a passividade de (quase) todos.
Um mundo difícil, este, em que vivemos!