Em Angola, porém, vivemos num eclipse permanente. Não do sol, pois ele ainda teima em brilhar, mesmo no cacimbo. Mas um eclipse da paciência, do poder de compra, dos valores morais. E este não dura minutos. Dura anos. Décadas. Gerações.
Vejamos o eclipse do bolso. As estatísticas oficiais anunciam que a inflação está a desacelerar, que os preços sobem a um ritmo menos acelerado. Mas desacelerar não é parar. E muito menos é descer. O que se passa é simples: a inflação já não corre, mas continua a andar. E os preços, esses, não param de subir. O poder de compra do angolano está a ser corroído lentamente, como o ferro pela ferrugem. O salário que comprava a cesta básica no ano passado hoje compra um cesto mais pequeno. E amanhã? Amanhã compra uma sacola. É um eclipse silencioso, sem anéis de diamante, sem astrónomos a avisar. Apenas a certeza de que o dinheiro vale cada vez menos.
Depois há o eclipse da paciência. Essa moeda rara que se esgota nas filas dos bancos, nos engarrafamentos da Via Expressa (que só é rápida quando o sol se eclipsa), nas repartições públicas onde se espera por um carimbo que nunca chega. A paciência do angolano é posta à prova todos os dias. E todos os dias perde um bocadinho. Como o sol que desaparece atrás da lua, a tolerância vai minguando. Até que um dia, sem aviso, apaga-se. E o que fica é a irritação, o desespero, a sensação de que nada funciona.
Mas o mais grave é o eclipse dos valores morais. Esse é o mais insidioso, porque não se vê. Não tem gráficos de inflação, não tem filas, não tem estatísticas. Mas está lá. A honestidade tornou-se excepção, a ética tornou-se raridade, o respeito pelo próximo parece ter entrado em extinção. Como um eclipse que não se anuncia, fomos perdendo a noção do que é certo e do que é errado. O "desenrasca" passou a ser virtude, a "gasosa" passou a ser esperteza, a mentira passou a ser estratégia.
E o pior é que ninguém parece ver este eclipse. Não há óculos especiais, não há alertas dos astrónomos, não há notícias na televisão. O país escurece por dentro enquanto todos olham para o céu limpo.
A Europa vê o sol desaparecer por minutos. Nós vemos a esperança desaparecer por anos. O eclipse deles é ciência. O nosso é cansaço. A diferença é que o deles acaba hoje. O nosso, esse, ainda não tem data para terminar. Mas vamos ser optimistas e ver se a esperança não se eclipsa.
O nosso eclipse
A Europa viveu momentos de euforia com o recente eclipse solar total. O céu escureceu por breves minutos, quando a Lua passou entre a Terra e o Sol. Óculos especiais foram usados para contemplar o fenómeno. Quem perdeu vai ter de esperar uns largos anos. É uma coreografia cósmica, uma raridade, um evento para contar e recordar.
