"Se não há outra maneira [de travar as acções armadas da Renamo]. Se a Renamo deixasse de disparar contra a população, não haveria necessidade de se proteger a população, porque não haveria fogo", considerou Chissano, em entrevista divulgada na edição de hoje do semanário Savana de Maputo.

O antigo Chefe de Estado moçambicano, que governou o país durante 18 anos, lembrou que o Executivo que liderou negociou o Acordo Geral de Paz de 1992, enquanto o país estava em guerra.

"O diálogo de 1990-1992 fez-se no meio do fogo. Não parou a luta, porque o Governo estava consciente de que tinha o dever de defender a população e não podia recuar de qualquer maneira. Fizemos o que nós podíamos e salvámos até onde pudemos", frisou Joaquim Chissano.

Sobre o facto de a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) condicionar o reatamento das negociações com o Governo, para o fim da crise político-militar, Chissano entende que a aparente relutância do Executivo em aceitar essa exigência pode estar relacionada com a circunstância de o principal partido de oposição passar a novas exigências logo que as anteriores são satisfeitas.

"É preciso ter-se uma perspectiva. Será que aceitando isto, a Renamo não vai exigir outra coisa? Porque já vimos exigências disto e mais aquilo. Então é preciso saber-se profundamente como agir em torno das propostas que estiverem na mesa, depois de tomar uma decisão", declarou o antigo Presidente da República.

Joaquim Chissano referiu-se em concreto à exigência da Renamo de que um eventual processo negocial deve envolver a União Europeia (UE), assinalando que esta organização congrega vários Estados.

"Por exemplo, a UE não é um Estado, são vários Estados. (...) eu não sei o que iria fazer a UE, quem é a UE? Não sei se a Renamo quer transformar este diálogo entre dois num assunto internacional", enfatizou Chissano.

Realçando que um dia a estabilidade política voltará ao país, o antigo Presidente da República apelou à persistência do povo na exigência pela paz, assinalando que os moçambicanos exigem a estabilidade com cada vez maior vigor.

Ainda na entrevista ao Savana, Joaquim Chissano admitiu ter tido uma ligação com o KGB, antigos serviços secretos da extinta URSS, no âmbito da ajuda prestada por este país à Frelimo, partido no poder em Moçambique, mas negou ter sido espião.

"Sim, existiu uma ligação e essa ligação foi que eu tive treino militar na União Soviética, e um dos assuntos em que eu fui treinado foi precisamente na inteligência para penetrarmos na zona inimiga. Falo dos portugueses", declarou Chissano.