Massoud Pezeshkian veio reafirmar a vontade iraniana de apostar na paz negociada advertindo os norte-americanos que tal caminho só pode ser feito com o Irão a garantir a sua dignidade e a sua soberania absoluta lembrando que neste momento Teerão está numa posição de "poder e dignidade" que lhe permite fazer agora esse caminho.
Todavia, esta posição de Pezeshkian, que é uma das vozes menos abrasivas da nomenclatura iraniana, exige que os EUA cedam nas suas posições maximalistas e assumam uma postura negocial que reconheça essa posição de "poder e dignidade" iraniana.
Há muito que se sabe que as sanções económicas dos EUA contra o Irão têm, ao longo de décadas, deixado o regime de Teerão em permanente aflição, com inflação gigante, dificuldades na exportação de crude ou congelamento de verbas no exterior.
E estas já duram desde 1979, ano da revolução islâmica em que foi deposto o então ditador xá Reza Pahlavi, um aliado do ocidente, obrigando o Irão a constante ginástica orçamental, o que leva a que este conflito esteja a ser visto em Teerão como uma oportunidade para acabar com este sufoco.
Desde que a coligação israelo-americana lançou esta guerra ilegal e surpreendente contra o Irão, a 28 de Fevereiro, matando o então Líder Supremo aiatola Ali Khamenei, que os iranianos usam o Estreito de Ormuz como arma económica contra Washington, atacando mesmo alguns deles que tentam atravessá-lo sem dar a conhecer o ensejo a Teerão.
A razão é conhecida e passa por estrangular nesta passagem marítima entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico 20% de crude e gás mundiais, 30% do hélio, fundamental para a indústria 2.0 dos chips, e alumínio ou compostos indispensáveis para fertilizantes... tudo matérias-primas estratégicas a começar a escassear dramaticamente em todo o mundo.
Para tentar reabrir Ormuz, estreito que nunca tinha sido encerrado antes de 28 de Fevereiro, os EUA lançaram uma das mais pesadas operações de bombardeamento aéreo contra um país em décadas, ao longo de seis semanas, sem que o Irão desse sinais de estar a ceder.
Pelo contrário, além de fechar Ormuz, os iranianos contra-atacaram contra as dezenas de bases norte-americanas situadas nos países aliados de Washington na região, com destaque para Kuwait, Arábia Saudita, Bharein, Catar e Emiratos, além da Jordânia...
Com irónica persistência, o Presidente dos EUA, Donald Trump, a sentir dramaticamente os efeitos deste cenário na economia norte-americana, quando está a escassos meses das eleições intercalares de Novembro, e em risco de perder a maioria no Congresso, começou a justificar esta guerra com a urgência de, além de abrir Ormuz, garantir que o Irão não obtém uma arma nuclear.
Curiosamente as duas coisas que já estavam garantidas antes de Trump chegar ao poder, pela primeira vez em 2016, desde logo pelo acordo nuclear assinado entre EUA e Irão pelo ex-Presidente Barack Obama, em 2015, do qual saltou unilateralmente assim que chegou à Casa Branca, e o Estreito de Ormuz nunca tinha estado encerrado antes.
Com o insucesso dos ataques aéreos israelo-americanos, Donald Trump anunciou agora, depois de uma longa "telenovela" de ameaças e recuos, que pode ser revista episódio a episódio nos links em baixo nesta página, o "Dia D Económico" contra o Irão.
Só que aqui troca-se a invasão aliada contra a Alemanha nazi nas praias do norte de França, de 1944, pela invasão do Irão com sanções económicas que o norte-americano garante serem as mais pesadas de sempre aplicadas a um país, desde logo com a "muralha de aço" de navios de guerra a impedir o acesso aos portos iranianos a partir do Oceano Índico, à entrada de Ormuz.
E isso levou a uma nova realidade nesta guerra, porque se o Irão está cada vez mais aflito devido ao estrangulamento da sua economia, mas conta com a China e a Rússia para aliviar a pressão, os EUA sentem igualmente a forte pressão da alta nos preços dos combustíveis, e Trump perde popularidade eleitoral a cada dia que passa.
Os iranianos estão, assim, num jogo de póquer de apostas de alto valor onde os dois lados colocaram sobre a mesa todas as suas fichas a contar que se as cartas não ajudarem, podem ganhar através do bluff, fazendo de conta que têm na mão as cartas vencedoras sem disso ter a certeza...
Até ao momento, o Irão mantém como condição para o trânsito de navios pelo Estreito de Ormuz que estes negoceiem com Teerão a passagem e que não se trate de embarcações com destino a países que ajudaram ou apoiaram Israel e EUA na guerra...
Mas a situação pode mudar de um dia para o outro se os EUA avançarem com novas sanções, não apenas fechando totalmente Ormuz mas garantindo que nenhum crude sai do Golfo Pérsico, incluindo pelos portos fora deste mar interior, como o permite o extenso oleoduto saudita de 1.200 kms até ao Mar Vermelho, do outro lado do país.
Apesar deste abrasivo cenário, iranianos e norte-americanos não deixaram de sublinhar que as suas opções preferidas permanecem as negociações de paz, embora um e outro lado apresentam condições de partida que fazem destas uma miragem, embora Washington e Teerão tenham assinado um Memorando de Entendimento a 15 de Junho com validade de 60 dias que acabou por expirar sem quaisquer resultados.
Quem vai ceder primeiro e mostrar as cartas, é impossível de antecipar, mas a diplomacia não parou, como o demonstra a chegada do general Syed Asim Munir, chefe máximo militar do Paquistão e visto como verdadeiro líder deste país, a Teerão, para nova ronda negocial tripartida.
Todavia, como recorda em artigo publicado esta segunda-feira, 24, no site da Al Jazeera, o correspondente do canal do Catar em Teerão, Tohid Asadi, os dois lados apresentam vários pontos de contenção na perspectiva das conversações serem retomadas em força.
O jornalista da Al Jazeera sedeado na capital iraniana nota que, para já, parece razoável pensar que uma solução existe, até porque os iranianos insistem que uma condição prévia para abrir Ormuz seria os EUA levantarem o bloqueio naval existente no momento.
Além disso, o estrangulamento quanto ao programa nuclear iraniano, Teerão, nota Tohid Asadi, não deixa cair o ponto existente no Memorando de Entendimento quando a uma negociação faseada que nunca foi sequer começada antes de expirarem os 60 dias.
Nem tal sucedeu com outra questão fundamental para Teerão, que era a programada e igualmente faseada devolução dos bens iranianos congelados, a discussão da segurança regional, onde é questionada a presença das bases dos EUA no Golfo Pérsico, ou as relações regionais do Irão com os seus aliados...
O jornalista da Al Jazeera em Teerão admite, face a estes constrangimentos e aparente afunilamento da diplomacia como solução, que "existe uma forte possibilidade de novos confrontos no horizonte".
O que surge em linha com a opinião de analistas como o general Agostinho Costa, que defende que os EUA estão a usar estes episódios que não exigem recurso a bombardeamentos como forma de reabastecer os seus paióis, especialmente nas armas que mais escasseiam como os Patriot, para defender as suas bases, ou os mísseis de ataque Tomahawk e JASSM, cujos stocks foram depauperados para quase zero.
Apesar de em Teerão também se saber que, como sucedeu noutras ocasiões, o mais certo é que a coligação israelo-americana volte a atacar o Irão assim eu tiver os seus paióis reabastecidos, o porta-voz do Ministério dos Negócios estrangeiros, Esmaeil Baghei, veio agora garantir que "os métodos americanos mostram apenas ódio pelo povo iraniano, não garantem qualquer resultado".
O diplomata iraniano, citado pelos media em Teerão, acusa ainda os EUA de estarem a mostrar desespero porque estão agora a lançar-se contra o povo iraniano através de sanções quando já sabem que militarmente foram confrontados com a sua ineficácia.
Esmaeil Baghei acrescenta que os EUA estão a praticar um "terrorismo económico para punir uma Nação que não abdica de defender a sua soberania e a sua independência", dando o exemplo do bloqueio naval, avisando os países da região que "qualquer cooperação ilegal com Washington nesse campo, terá severas consequências".
Recorde-se que ao longo das seis semanas de guerra, Março e Abril, o Irão atacou todas as bases norte-americanas nos países do Golfo Pérsico e dezenas de locais da infra-estrutura energética desses países foram igualmente alvejados.







