Os mercados petrolíferos reagiram à colocação da China no mapa das sanções anunciadas pelo Presidente Donald Trump e depois exponenciadas pelo seu secretário do Tesouro, Scott Bessent, que veio alertar Pequim para os riscos de apoiar Teerão.

Na antecâmara de uma nova guerra comercial com a China, os mercados petrolíferos resvalaram para o vermelho, perdendo nas últimas 72 horas mais de 5%, passando de 94 USD, no caso do barril de Brent, para os 89 USD desta terça-feira, 25.

No início de 2025, Donald Trump declarou guerra económica a Pequim, aumentando mais de 100% as tarifas aplicadas aos bens importados da China, e os mercados petrolíferos leram essa decisão como o começo de uma quebra no comércio global e uma descida na procura de energia fóssil.

Agora, com Scott Bessent a avisar a China que será novamente castigada com "o poder global dos EUA" caso não apoie Washington na sua guerra económica com o Irão, os mercados petrolíferos antecipam uma quebra na economia global e na procura de crude.

Este cenário ficou ainda mais abrasivo depois de Pequim ter vindo, logo após as ameaças do secretário do Tesouro norte-americano, garantir que as relações comerciais de Pequim com Teerão seguem as normas da lei internacional e não alinham com as sanções unilaterais norte-americanas.

Para aumentar este drama que se desenrola à frente de todo o mundo, devido à sua influência na economia global, considerando que se trata das duas maiores potências económicas planetárias, o Irão reagiu às ameaças dos EUA afirmando que se são "apenas ruído inconsequente".

Todavia, as sanções que foram anunciadas e que tecnicamente já estão em vigor, as quais Donald Trump comparou ao "Dia D" da histórica invasão aliada nas praias da Normandia para combater a Alemanha nazi, em 1944, são "apenas" mais um capitulo de uma telenovela que já dura há quase 50 anos.

Sem muito por onde esticar este "castigo" ao Irão, país que já sofre este tipo de perseguição de Washington desde 1979, ano da revolução que levou à queda do regime do xá Reza Pahlavi, um aliado canino do ocidente, os EUA alargam agora o seu poder de supressão económica aos países que se atreverem a ajudar Teerão.

Scott Bessent avisou a China, o grande parceiro comercial do Irão, mas também os outros países que não respeitarem as ordens dos EUA, que Washington vai usar "o sistema global assente no dólar norte-americano para punir os infractores", a exactanente um mês da visita do Presidente Xi Jinping a Washington, marcada para 24 de Setembro, na qual se esperava que os dois países resolvessem uma boa parte dos seus diferendos comerciais.

Estão na lista dos alvos norte-americanos sancionados mais de 60 entidades, incluindo empresas, países, indivíduos... que de alguma forma ajudam o Irão a comercializar o seu crude, vendam tecnologia de potencial uso militar ou nuclear, com mais de duas dezenas serem chinesas.

No mapa das potenciais sanções secundárias, de acordo com a explicação de Bessent, está o resto do mundo, porque para ser alvejado pelos norte-americanos neste contexto do "Dia D" de Trump, basta uma empresa, país ou indivíduo ajudar o Irão em áreas como o transporte marítimo, compra e venda de minerais, peças de aviões, ou bens digitais, naquilo que o próprio denominou de "chacina económica contra Teerão".

A dimensão desta ameaça é de tal modo que o Irão tem, actualmente, comércio estabelecido com mais de 140 países, segundo o Banco Mundial, e, segundo os média norte-americanos, para vergar dois terços do mundo à vontade dos EUA, Donald Trump passou os últimos dias a falar ao telefone com os principais líderes mundiais.

Recorde-se que Washington virou-se para as trincheiras da economia global após quase dois meses de intensos bombardeamentos sobre o Irão sem conseguir nenhum dos resultados anunciados como objectivos, enquanto o Irão ripostava sobre as bases norte-americanas na região.~

Os EUA e Israel pretendiam com esta guerra, no fim da linha, derrubar o regime iraniano, desmantelar o seu sistema de mísseis balísticos, extinguir o seu programa nuclear e acabar com as relações de Teerão com o "Eixo da Resistência" na região, que são os seus aliados no Líbano, Hezbollah, no Iémen, os Houthis, e as gigantescas milícias xiitas no Iraque, entre os principais.

Nenhum desses objectivos foi conseguido e o Irão destruiu total ou parcialmente as dezenas de bases militares dos EUA no Golfo Pérsico e na Jordânia, provocou uma crise global com o fecho do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do crude e gás globais, além de outras matérias-primas estratégicas, como alumínio, fertilizantes ou hélio...

Além disso, uma boa parte, até 40%, segundo algumas fontes, da infra-estrutura petrolífera e do gás (LNG) dos países árabes do Golfo está destruída ou danificada com gravidade... além de o Estreito de Bab al.Mandab, de acesso ao Canal do Suez, estar parcialmente fechado pelos Houthis do Iémen.

Esta realidade está a atingir severamente a economia norte-americana, a ponto de uma sondagem recente ter mostrado que 70% dos eleitores que se preparam para votar nas eleições intercalares de Novembro, consideram como primeira prioridade baixar o preço dos combustíveis.

Nessas eleições, onde os Republicanos de Trump deverão perder a maioria no Congresso, nas duas câmaras, Senado e Representantes, se este cenário se mantiver, a oposição Democrata joga o futuro político do Presidente, com a ameaça de lhe abrir vários processos de destituição por razões de abrangem temas como pedofilia dos Ficheiros Epstein ou diversas inconstitucionalidades no contexto das guerras em curso no mundo.

O que levou o presidente do Parlamento iraniano e chefe da equipa negocial iraniana, Mohammad Bagher Ghalibaf, a escrever no X que "já ninguém acredita neste bluff dos americanos", porque "não estão numa posição económica para oprimir as relações comerciais do Irão com o resto do mundo".

Quando a generalidade dos analistas, incluindo os mais pró-ocidentais, começam a admitir que é difícil antecipar quem, entre Teerão e Washington, tem mais tempo para aguentar este jogo de quem pisca primeiro os olhos, o factor eleitoral nos EUA começa a ganhar peso e transformar este desafio como insustentável pela Administração Trump.

Além disso, o chefe do Conselho de Segurança Nacional do Irão, Mohsen Rezaei, um general da velha guarda cuja carreira começou na guerra Irão Iraque da década de 1980, a entidade que é actualmente responsável pelos destinos do país, veio avisar que se os EUA se atreverem a obrigar os países do Golfo Pérsico a alinharem nas suas sanções, "nem uma gota de petróleo voltará a sair por Ormuz nos tempos vindouros".

"Se os EUA querem mesmo ir por este caminho, nós vamos responder de uma forma sísmica, mexendo com todas as placas tectónicas da sua presença no Golfo Pérsico", avisou Mohsen Rezaei, que é actualmente a cara do poder no Irão e só responde acima de si ao próprio Lìder Supremo, aiatola Mojtaba Khamenei, filho do anterior líder, aiatola Ali Khamenei, morto pela coligação israelo-americana a 28 de Fevereiro.

Como contexto verificável neste momento, o Irão não dá mostras de ceder à pressão dos EUA, a China mostra estar disponível para servir de rede a Teerão neste embate com Washington e na Casa Branca começa a perceber-se algumas dúvidas nesta estratégia, porque já nesta terça-feira, 25, voltou a ameaça de novos bombardeamentos.

Peter Hegseth, o secretário da Defesa, em declarações aos jornalistas, veio agora admitir que se as sanções económicas ficarem aquém dos objectivos, "o Presidente Donald Trump não exclui voltar a atacar cineticamente o Irão".

Também entre os mediadores regionais que têm tentado conduzir este conflito para a mesa das negociações, como o Paquistão, cresce a ideia de que este momento pode ser aproveitado para aproximar as partes de uma solução negociada.

É assim de tal modo que o ministro do Interior do Paquistão, Mohsin Naqvi, no rescaldo da visita do marechal de campo Assim Munir, o comandante militar paquistanês, e visto como o homem forte do país, a Teerão, veio agora alertar para a importância de não correr riscos desnecessários porque "há desenvolvimentos muito importantes" para reatar asd conversações entre as partes.

O governante paquistanês sublinhou mesmo, citado pela Al Jazeera, que existe agora uma forte possibilidade de recuperar parte relevante do Memorando de Entendimento que o Irão e os EUA assinaram em Junho e chegou ao fim sem resultados palpáveis já este mês, ao fim de 60 dias.

Entre o agravar das dificuldades económicas no Irão, onde a inflação e o desemprego ameaçam a estabilidade social e podem perigar o vigor do regime, e o afeito devastador desta guerra na economia "eleitoral" dos EUA, com a inflação a poder vir a determinar o resultado das eleições intercalares de Novembro, a mesa das negociações pode voltar a ser o melhor "campo de batalha" para ambos os lados.