Nos primeiros dias deste mês de Agosto, numa só semana, pelo menos 63 pessoas, maioritariamente crianças e mulheres, morreram de desnutrição na sitiada cidade de Al-Fashir, capital do Darfur Norte, oeste do Sudão, de acordo com fontes do Ministério da Saúde local.
Nas mesmas semana e região, mais de 40 pessoas morreram de cólera, vítimas de um surto provocado pelo agravamento das condições sanitárias e de saúde e que desde 2024 atingiu mais de 100 mil sudaneses.
Cerca de 40% das crianças com menos de cinco (5) anos em Al-Fashir, a única capital regional do Darfur ainda controlada pelo exército, sofrem de subnutrição aguda, 11% delas de forma severa, de acordo com o Programa Alimentar Mundial (PAM).
No seu terceiro ano, a guerra no Sudão opõe paramilitares das Forças de Apoio Rápido (RSF, sigla em inglês) contra o exército regular do País, forças em discordância sobre a partilha do poder conquistado com o golpe de Estado militar de 2021.
Nesse golpe de Estado, em que os dois grupos agora inimigos colaboraram, os militares destituíram o Conselho de Supervisão e Transição e o Governo de Transição encarregues de preparar as condições para uma "democracia efectiva" no País. Duas instituições saídas do anterior golpe de Estado militar que destituiu o Presidente Omar al-Bashir, em 2019.
Rico em petróleo, gás natural, ouro e outros minérios preciosos, para além de imenso potencial agrícola com destaque para a produção de cana de açúcar e controlando o acesso ao Mar Vermelho (rota essencial para o comércio global), desde a sua Independência, em 1956, o Sudão tem vivido em instabilidade por motivos políticos, religiosos ou étnicos, com envolvimento externo.
Tal como noutras regiões africanas em conflito, como Moçambique ou RD Congo, as imensas riquezas do Sudão aguçam apetites estrangeiros, que instigam e patrocinam guerras, causando milhões de mortes, destruição do tecido económico-social, bem como criando novas e agravando divisões já existentes.
Neste país de instabilidade, o conflito de Darfur de 2003 a 2020 resultou, segundo diversas fontes, em pelo menos 400 mil mortes e milhões de refugiados. Guerra desencadeada na sequência de desentendimentos entre árabes e não-árabes da região.
Esse conflito entre milícias árabes, apoiadas pelo governo e conhecidas como Janjaweed e a população não árabe teve origem na tentativa das autoridades oficiais sudanesas adoptarem a Sharia, contestada sobretudo no Sul do País.
A guerra só terminou com a assinatura do chamado Acordo de Paz Amplificado e a consequente realização de um referendo no Sul do País que, depois de uma votação esmagadora a favor da Independência, culminou na divisão do País e o nascimento do novo Estado, o Sudão Sul.
Depois da divisão do grande Sudão, até então o maior Estado do continente africano, o País, com a actual guerra e a subsequente crise humanitária, corre risco de enfrentar uma nova divisão de consequências ainda imprevisíveis para o Continente.
Isso perante uma África que se mostra impotente, incapaz, indiferente ou pouco preocupada com o arrastar do conflito numa das suas regiões estratégicas.
Uma das referências da cultura, do conhecimento e da solidariedade panafricanista, o Sudão, desde a independência, tem-se destacado na formação de quadros universitários africanos de vários países do Continente, nomeadamente de Angola.
A centenária Universidade de Khartoum e a Universidade Internacional de África, um projecto panafricanista, criado em 1966, e outros centros do saber no País, recebem anualmente milhares de estudantes bolseiros da Nigéria, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e outros.
Nessa senda de solidariedade panafricanista, o Sudão destacou-se também no apoio militar, político e diplomático às lutas contra o colonialismo português, como do MPLA, incluindo formando oficiais das então Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA).
Solidariedade reconhecida e sublinhada por Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, em 1978, em Khartoum, durante a Cimeira da Organização de Unidade Africana (OUA), ao agradecer ao povo e autoridades sudaneses pelo apoio à luta de libertação dos angolanos.
"Estando aqui, no Sudão", disse Agostinho Neto "não posso deixar de mencionar quanto o Povo Angolano, o MPLA-Partido do Trabalho, e eu próprio, estamos gratos ao povo sudanês e ao seu Governo, pela grande ajuda dada durante a luta de libertação nacional".
E acrescentou, especificando, "armas, alimentação, animais de transporte, facilidades de trânsito, apoio político e diplomático, Angola encontrou sempre no Sudão".
Agostinho Neto revelou ainda que no Sudão "foram formados na última etapa da luta, alguns dos oficiais angolanos que hoje pertencem ao Estado-Maior-Geral das nossas Forças Armadas".
Nessa Cimeira de 1978, sob proposta do Sudão, dirigido pelo então Presidente Gaafar Nimeiry, a OUA aprovou uma resolução advogando a assistência económica e militar aos países da Linha da Frente que enfrentavam agressões do regime racista do Apartheid na África do Sul.
Com uma cultura milenar, um País multi-étnico e pluri-linguístico, o Sudão tem ainda como referência cultural a cidade histórica de Meroé com mais de 200 pirâmides, construídas em 800 a.C.
Num momento em que vários políticos africanos oferecem os recursos naturais dos seus países à Administração Trump em troca de acordos de pacificação, mesmo que temporária, a atitude insuficientemente activa do Continente na busca da Paz para o Sudão é reveladora da falta de compromisso panafricanista da maioria dos dirigentes africanos.
Os referidos acordos de pacificação, sem qualquer base sólida para sua transformação em documentos duradoiros que resistam a mudanças na liderança dos países, representam, acima de tudo, a sobrevivência política dos protagonistas, os subscritores.
O exemplo disso é acordo entre RDC e Rwanda para pôr fim ao conflito na região Leste do Congo, benéfico principalmente para Washington que ficará com o direito de explorar, como se fosse proprietário, as riquezas do Congo nomeadamente os minerais raros tão indispensáveis à indústria tecnológica dos EUA.
Se Felix Tshisekedi vai doar os minerais raros do Congo, Paul Kagame vai receber dinheiro em troca da recepção no Rwanda de imigrantes descartados pelos americanos. Com isso, ambos garantem mais um tempo de tranquilidade protegidos por Washington.
Rwanda, Sudão do Sul, Uganda e o minúsculo Eswatini, contrariamente à Nigéria que se recusa a entrar nesse movo trafico de escravos, estão entre os primeiros países que aderiram de imediato ao novo tráfico de seres humanos que certamente arrastará outros estados e vítimas africanos.
Nessa "nova parceria" da administração americana com Africa, como lhe chama o Presidente do Senegal, Bassirou Faye, o preço são seres humanos que, sem direito à escolha, serão atirados para países cujos líderes não se importam em comprar e vender outros africanos.
Políticos centrados em alimentar o ego de Donald Trump, como fez Faye ao garantir na Sala Oval, em Washington, ao Presidente americano que "o mundo inteiro é-lhe grato por isso".
Com isso começou a nova corrida para oferta das riquezas africanas aos americanos, um processo a que o Presidente gabonês, ex-golpista, agora "democrata" Brice Nguema também aderiu sem pestanejar
Em Washington o gabonês cantou desta forma música aos ouvidos do negociante Trump: "também temos matérias-primas, minerais, terras raras. Não somos países pobres. Somos países ricos em matérias-primas. Mas precisamos de parceiros que nos apoiem e nos ajudem a desenvolver esses recursos com parcerias vantajosas para todos".
Depois das recentes divisões de alguns países africanos, nomeadamente do Sudão e da Etiópia fruto, em parte, dos conflitos resultantes das arbitrárias fronteiras estabelecidas pelos europeus na famigerada Conferência de Berlim, surge esta nova forma de divisão de África baseada nos recursos e nas matérias-primas indispensáveis à sustentação da economia capitalista.
Esses líderes africanos sem preocupação com um projecto panafricanista que entregam de bandeja as riquezas dos seus países aos americanos, terão alguma vez preocupação em encontrar uma solução justa e duradoira para o irmão Sudão?