Há, porém, o que pode ser considerado como a pornografia dos maus-tratos em que o perpetrador de abuso físico filma o acto para seu prazer. Vi clipes deste género vindos das Lundas e, ultimamente, de Cabinda.

Nas Lundas trata-se de espancamentos de cidadãos suspeitos de garimpo por guardas ou entidades empregadas por certas empresas que exploram os diamantes. Este tipo de violência tem muito a ver com o poder: homens que se encontram perante alguém que podem humilhar com impunidade.

Nas Lundas, as vítimas são amarradas e as solas dos seus pés são espancadas. A planta do pé atrai sempre o torturador porque não deixa marcas muito óbvias. Há, também, o espectáculo que acompanha tal acto; este género de espancamento acontece em locais isolados onde só há homens. A vítima vai gritando com dor - homens crescidos a chorarem como crianças; naquele instante, quem bate passa a ter muito poder. Quem se identifica com ele passa, também, a gozar.

No Sul dos Estados Unidos, nos tempos mais horríveis da escravidão, havia rituais em que grupos de homens brancos assaltavam sexualmente homens e mulheres negras como forma de solidificar o companheirismo entre eles próprios.

Quando são dados aos homens meios de coerção sem que tenham princípios sólidos, o resultado são as orgias de violência que temos visto nestes clipes.

No clipe de Cabinda, uma senhora vinda do Congo - que mal domina a língua portuguesa - é apanhada num local onde, segundo os guardas da fronteira, não deveria estar. A senhora é amarrada e a planta dos seus pés é espancada severamente. A senhora grita e vai pedindo que os guardas a tratem com compaixão. Nada disso. Este clipe está a circular em várias comunidades africanas (em que é dito o pior sobre os Angolanos) por várias razões.

Primeiro, estamos a falar de uma senhora linda e altamente atraente; não temos aqui uma tia magra, cheia de suor que passa o dia a tentar vender frutas. Não. Temos aqui uma senhora que diz ser cabeleireira, de blusa branca e jeans que acentuam a sua beleza. Em situações normais, é difícil imaginar aquela senhora a meter-se com um guarda da fronteira.

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