As expectativas eram muitas. Como o Papa se iria anunciar. Que palavras iria tecer. Quais os recados que iria enviar. Qual seria a mensagem de esperança, de paz para Angola e para a humanidade. Uns queriam testemunhar a visita do Papa com benção. Outros com o reforço da esperança de uma vida melhor e muitos esperançados com uma tolerância de ponto. Mais uma.
Uma esperança criada no cultivo de um hábito recente de esconder o povo dos dignatários. De toldar a realidade caótica diária de Luanda com a calmia aparente de quem descansa em casa, estendendo o seu fim-de-semana. Em Angola, a fé pode não mover montanhas, mas a esperança parece ter um efeito mágico, pois quem espera sempre alcança. E nesta semana santa, a ansiedade dos Luandenses não era teológica, era logística. O salário ainda não tinha caído. o mês ainda nem a meio tinha chegado mas a possibilidade de um prolongado transformou muitos cidadãos em católicos apostólicos romanos na busca de um sinal do céu mais concreto do que qualquer homilia.
O Papa fala de tolerância como virtude, aceitar o outro, perdoar, conviver. Por cá, transformámos a tolerância numa postura provincial que nos dispensa de aparecer. É a nossa versão local da indulgência plenária: não trabalhas, não pecaste.
E assim vamos adiando. Adiamos o trabalho, adiamos a responsabilidade, adiamos a Segunda-feira. Acreditamos, com uma fé que faria inveja a qualquer santo, que parar resolve. Que se não formos ao escritório, o problema desaparece. Que se fecharmos as escolas, a crise educativa tira férias. Que se o Papa abençoar o país de passagem, os buracos na estrada tapam-se sozinhos.
Enquanto isso, o Cavaco, em Benguela, fez a sua própria peregrinação, pelas ruas, levando pontes e casas pelo caminho. A natureza não pediu tolerância de ponto. A chuva não adiou o seu trabalho. E nós, parados, esperamos que o milagre venha de cima, sem nunca olharmos para o lado.
