Tivemos então durante largos anos e durante o período de partido único o chamado Carnaval da Vitória. Uma manifestação cultural que exaltava a expulsão do exército sul-africano do Apartheid do território angolano.

Nos tempos em que militei na OPA (Organização dos Pioneiros Angolanos), havia o desfile dos pioneiros, éramos mobilizados nas escolas para os ensaios que faziam parte do programa das escolas. Lembro-me que as canções tinham uma forte carga ideológica com condenações ao regime do Apartheid, críticas ao Presidente Ronald Reagan dos EUA (pelo apoio declarado à UNITA de Jonas Savimbi). Na escola Heróis de Cangamba, na Samba, onde fiz a quarta classe, os nossos instrutores eram o professor Lourenço e a professora Luzia, havia uma canção que eles perguntavam aos pioneiros:

- Eu quero saber a verdade, quem abastece a UNITA lá nas matas?

E nós respondíamos: - É Reagan! É Reagan! Reagan tira as mãos de Angola!

O desfile central, na altura, era também preenchido de canções e coreografias com muita carga ideológica. O objectivo era apagar todo e qualquer sinal do Carnaval colonial e exaltar as nossas vitórias sobre o regime do Apartheid, críticas à UNITA. Exaltação da Nação angolana, a Luta de Libertação Nacional e também a ajuda internacionalista cubana. Lembro-me da Nazaré, a delegada da nossa turma e a forma como vivia aquele momento de forma tão efusiva. A disputa entre as escolas era acérrima e todos queriam ficar bem na avaliação final. Eram outros tempos.

Mudaram-se os tempos e mudaram-se as ideologias. Fomos tendo um carnaval mais aberto e mais solto com a chegada do multipartidarismo. Os grupos tradicionais com algumas resistências em inovar e depois foram surgindo os blocos de animação ou de apoio. O Chá de Caxinde começou como apoiante e depois passou a competir. Havia o bloco Azul, o bloco Branco e o bloco Vermelho, trouxeram outra dinâmica e levavam público para o desfile central. Mas estes já não desfilam e ficou apenas a saudade. Mas o que precisamos é de voltar a dançar o carnaval nos bairros, sentir o calor, a força e energia. O Carnaval que foi cantado por Eduardo Paim e também por Waldemar Bastos, duas boas interpretações desta manifestação cultural.

Mas esta semana vamos ter o Carnaval nas ruas e com "novas energias". Yuri Simão e a sua equipa da Nova Energia juntaram-se ao jovem Polly Rocha, o líder do União Recreativo do Kilamba. Juntos vão levar o carnaval aos bairros, vão trazer festa, alegria e harmonia. Tendo dito que Polly Rocha será para o Carnaval de Luanda o que Joãozinho Trinta foi para o Carnaval do Rio de Janeiro com os títulos pela Salgueiro, Beija-Flor, Império da Tijuca e Viradouro. Precisámos destas iniciativas, temos de inovar e levar o nosso carnaval aos bairros. Temos de coloca-lo na agenda cultural e no roteiro turístico. Fazer dele uma forte marca de promoção cultural e do País. De ser uma fonte de rendimento e de atracção turística. Os grupos precisam de ter capacidade de inovar, de deixar de ser dependente do Estado e atrair o empresariado nacional e não só. Todos os anos vivemos os lamentos dos grupos por falta de apoio logístico e financeiro por parte do Estado. Falta algum interesse, alguma visão, organização e estratégia. O NJ traz nesta semana um Especial Informação sobre o nosso carnaval, os seus problemas e dilemas. A pergunta que Agostinho Neto fez há quase 50 anos deve ser novamente feita e dirigida ao Executivo: Querem o Carnaval ou não?