Depois de reconhecer a Somalilândia como Estado soberano, a 26 de Dezembro, Telavive libertou um tsunami de indignação em quase todo o continente, mas a razão ficou de imediato clara: este território somali tem uma localização geográfica estratégica ímpar.
Situada no Golfo de Aden, mesmo na entrada do Mar Vermelho (ver mapa), acesso privilegiado ao canal do Suez, a Somalilândia é há décadas alvo da cobiça global mas o seu reconhecimento internacional nunca encontrou caminho.
Excepto agora, com Israel a arriscar um reconhecimento que se sabia altamente polémico, não apenas pelo potencial de instabilidade local, mas essencialmente porque pode levar a movimentações perigosas em outras regiões onde o separatismo tem raízes históricas, de cujo mapa dificilmente a angolana Cabinda poderá ser destacada.
Entre a condenação generalizada do reconhecimento de Israel, Angola, num discurso proferido na 1324ª Reunião do Conselho de Paz e Segurança da União Africana sobre a Preservação da Soberania, Integridade Territorial, Unidade e Estabilidade da República Federal da Somália, avisou que "qualquer tentativa de reconhecimento unilateral deve ser rejeitada com o maior rigor".
A secretária de Estado para as Relações Exteriores, Esmeralda Mendonça, em nome do ministro Teté António, recordou que a Somalilândia, de acordo com uma nota do MIREX, "continua a ser reconhecida pela comunidade internacional como parte integrante do território somali e por isso, qualquer tentativa de reconhecimento unilateral deve ser rejeitada com a maior rigor".
Ainda segundo as mesma nota, Esmeralda Mendonça esclareceu também que "o respeito pela soberania, integridade territorial e a unidade nacional da Somália não é apenas conforme a Constituição do país, mas também alinhado com os princípios fundadores da União Africana e da Carta das Nações Unidas".
E avisou: "Qualquer violação destes princípios representa uma ameaça directa à estabilidade regional, com repercussões potenciais no Corno de África e no Mar Vermelho, zonas estratégicas para o comércio internacional e para a segurança geopolítica".
A Secretária de Estado do MIREX lembrou, na mesma ocasião, que a Somália assumiu a presidência rotativa do Conselho de Segurança das Nações Unidas desde 1 de Janeiro de 2026 e enfatizou o comprometimento de Angola com a paz, a segurança e a estabilidade em África, congratulando-se com este importante passo que consolida a inserção deste país na comunidade internacional como "uma Nação una e indivisível".
O recado não podia ser mais claro para Israel que enviou, no que foi visto localmente como uma provocação, o seu ministro dos Negócios estrangeiros, Gideon Saar, à capital regional da Somalilândia, Hargeisa, com o intuito de reforçar a opção estratégica de Telavive.
Esta questão pode ainda ter um potencial maior de desconforto continental porquanto vários analistas já avançaram que Israel está a apalpar o terreno em nome dos Estados Unidos, que tem naquela região interesses geoestratégicos evidentes.
Isto, quando se sabe que a China tem a única base militar fora da Ásia ali ao lado, no Djibuti, enquanto a Rússia está a instalar uma base importante na costa sudanesa, em Porto Sudão, um pouco mais a norte, igualmente no Mar Vermelho.
Esta deslocação anunciada como oficial por Israel foi encarada pela Somália, de acordo com o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Abdisalam Abdi Ali, como uma "séria violação da soberania territorial somali" e uma "inaceitável interferência nos assuntos internos de um país membro das Nações Unidas", especialmente depois de Saar ter reunido com o auto-proclamado Presidente da Somalilândia, Abdirahman Mohamed Abdullahi, com quem deu uma conferência de imprensa a seguir.
Nessa conferência de imprensa, Gideon Saar anunciou mesmo que Israel vai abrir "muito em breve" uma embaixada no "país" depois de ter sido o primeiro país a reconhecer este novo Estado no Corno de África que a União Africana considera inexistente e o rejeita inapelavelmente.






