Até que se ficou a saber que as multinacionais norte-americanas, como a Exxon e a Chevron, não estão muito interessadas em investir os 100 mil milhões USD na deteriorada e envelhecida, pelas sanções, infra-estrutura petrolífera venezuelana.

E isso levou os mercados a repensar a questão, porque, afinal, o abundante mas por extrair crude das gigantescas reservas da Venezuela, mais de 300 mil milhões de barris, não vai inundar os mercados como Donald Trump prometia.

Uma das razões é a especiosidade do crude venezuelano, extremamente pesado e de difícil extracção, que, como os especialistas referem, citados pelos media do sector, não é bombeado para a superficie, é literalmente escavado a partir de grandes profundidades e exige tecnologia diferenciada e extremamente dispendiosa.

Isto, quando, ainda está por clarificar o real poder de Washington sobre Caracas, porque o sequestro de Nicolas Maduro a 03 de Janeiro não levou a uma mudança de regime, embora Trump fale como se fosse ele o líder da Venezuela.

Embora a nova Presidente, Delcy Rodriguez, já tenha admitido estar disponível para negociar o crude do país com os EUA, sublinhando, porém, que numa base justa e equitativa, precisamente o mesmo que Maduro prometia antes do ataque norte-americano.

Recorde-se que Nicolas Maduro e a sua mulher foram levados para Nova Iorque, onde já começaram a ser julgadso por narcotráfico, entre outros crimes por provar, estando a segunda sessão do julgamento agendada apenas para meados de Março próximo.

Mas eis que os protestos de rua no Irão, que, apesar das sanções norte-americanas, tal como acontece com a Venezuela, diminuir grandemente a sua capacidade plena, ainda é um produtor relevante no Golfo Pérsico, mais de 2 mbpd, voltaram a ameaçar reduzir a oferta global.

Com já 12 dias de manifestações consecutivas em Teerão, seja contra o regime dos aiatolas, seja em defesa do aiatola Ali Khamenei, embora nos media ocidentais sobressaiam as imagens de destruição, os mercados voltaram a empurrar o sector para ganhos, colocando o barril de Brent acima dos 63 USD na última sexta-feira.

E para piorar o cenário, ou melhorar, conforme se trate de um país exportador ou de meros compradores de crude, Trump está agora a ameaçar intervir militarmente no Irão para ajudar os manifestantes a libertarem o país do jgo dos aiatolas que já dura desde 1979, aquando da revolução iraniana que destronou o Xá Reza Pahlavi.

Mas já esta segunda-feira, 12, o cenário avermelhou com a possibilidade de Caracas o Presidente Trump, que precisa com urgência de baixar o valor do barril para resolver a severa crise de inflação que enfrenta no país, "oferecer" 50 milhões de barris aos EUA.

Foi Trump que o disse, que a Presidente Delcy Rodriguez lhe ofereceu 50 milhões de barris como gesto de boa-vontade, que ele promete injectar rapidamente nos mercados, o que baixou a flutuabilidade da medida valorizando a matéria-prima.

Falta, agora, ver como a Casa Branca vai dissolver o amargo de boca criado pelas multinacionais do crude norte-americanas que, para já, não mostram vontade de investir na decrépita infra-estrutura extractiva venezuelana, embora tal possa ser resolvido se lhes for prometida segurança estatal para os investimentos.

E é neste contexto de incerteza global e expectativa sobre o que fará Donald Trump a seguir, que o barril de Brent, que serve de referência maior às ramas exportadas por Angola, chegou esta manhã de segunda-feira, 12, perto das 12:15, hora de Luanda, aos 63.07 USD, -0.43% que no fecho da última sessão.

Um valor que serve relativamente os interesses nacionais, considerando que o Governo angolano desenhou o seu OGE 2026 usando como valor de referencia médio para o ano corrente os 61 USD.

Todavia, ainda com uma dependência tão vincada das exportações de crude, mesmo que a diminuir ano após ano, em Angola, como, de resto, noutras dezenas de países com as mesmas características em todo o mundo, este momento...

... é mais uma razão para não se perder os mercados de vista

O actual cenário internacional tende a manter os preços muito próximo do valor estimado para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, valor conservador mas aconselhável, atendendo aos altos e baixos e ás incertezas globais...

Ainda assim, Angola é um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.