Em simultâneo, os norte-americanos insistem que a dinamarquesa Gronelândia, a maior ilha do mundo, e um dos territórios por explorar mais ricos, com petróleo, gás e terras raras abundantes, vai ser anexado em breve, quer a Dinamarca, queira, quer não.

Os EUA estão neste momento com poderosas manobras diplomáticas em várias frentes com a opção militar pronta a ser usada se a conversa falhar, como foi o caso da Venezuela, na semana passada, e prometem vir a ser a Gronelândia e, segundo The New York Times, o Irão...

O que essas mesmas frentes têm em comum é que da Venezuela ao Irão, passando por Cuba, onde os EUA também estão a mexer com a estrutura do poder em Havana, desde logo cortando o vital fluxo de crude venezuelano, até à Gronelândia, mexem com os interesses vitais da Rússia e da China.

E, se em Pequim, o Governo de Xi Jinping tem criticado as opções dos norte-americanos com relativa intensidade, em Moscovo, Vladimir Putin está remetido ao silêncio há mais de 10 dias e o seu Ministério dos Negócios Estrangeiros tem apenas feito subtis referências à violação da Lei e do Direito internacional, no caso da Venezuela.

Mas é no seio da NATO e da União Europeia que o dedo conquistador de Trump apontado ao mapa da Gronelândia está a produzir mais reacções furiosas, como da primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, que já veio dizer que a tomada da ilha pela força será "o fim da NATO" exigindo ainda uma posição clara de Bruxelas...

Isto, porque os EUA são hoje, como sempre o foram, o esteio da NATO, a organização militar criada por Washington em 1949 para conter o avanço da então URSS sobre a Europa Ocidental, estando hoje o cenário virado de pernas para o ar com os EUA a serem a ameaça territorial sobre o território europeu.

Face a este cenário, algumas vozes, especialmente nos canais das redes sociais próximos das várias linhas de pensamento geoestratégico em Moscovo, começam a alimentar a ideia de que o Kremlin é actualmente palco de lutas internas entre moderados e mais radicais no que que toca a uma resposta mais musculada a Washington.

Todavia, a versão que mais cola à realidade é que o Presidente russo pondera longamente sobre qualquer acção de largo espectro geopolítico porque tem no tabuleiro do seu xadrez de interesses mais próximos questões de grande relevância para a segurança da Federação Russa, como é o caso do conflito na Ucrânia, ou os recentes ataques dos EUA e dos ucranianos à sua vital frota de longo curso (ver links em baixo) no transporte de petróleo.

Parece, contudo, como emerge da leitura dos media internacionais, que o Irão é actualmente o palco para onde estão virados os holofotes da atenção mediática global, considerando as quase duas semanas de protestos populares violentos e ininterruptos contra o aumento gigantesco do curso de vida movido pelas sanções ocidentais.

E que Donald Trump já veio dizer que está "muito desagradado" com as largas dezenas de mortes ocorridas entre os manifestantes nos confrontos com a polícia, em grande medida grados com apoio externo e motorizados a partir do exterior por Reza Pahlavi, de 65 anos, que é o filho mais velho de Maomé Reza Pahlavi, o último Xá do Irão, destronado pela revolução iraniana em 1979.

E é esta figura, herdeiro de um trono que há muito não existe, exilado nos EUA há décadas, que está a ser usado a partir do exterior como líder das manifestações que decorrem há duas semanas no Irão, aproveitando o forte descontentamento popular com a carestia de vida, com uma inflação gigante, desemprego crescente e com sanções pesados sobre o país que impedem qualquer tipo de desenvolvimento...

Apesar das imagens que se repetem em loop nas televisões internacionais com milhares de pessoas nas ruas de Teerão a protestar, carros a arder, confrontos com a polícia, não há evidências claras de adesão sólida e abrangente às mudanças de regime dos aiatolas propostas por Reza Pahlavi e pelos seus aliados nos EUA e na Europa Ocidental.

Mas o cenário é diferente no exterior, onde os manifestantes iranianos exilados, de Nova Iorque a Londres, de Paris a Roma... se mostram empunhando bandeiras iranianas da monarquia Paklavi, com o Leão e o sol nascente ao invés do símbolo islâmico, e israelitas, cujas imagens estão a ser usadas pela generalidade dos media internacionais ocidentais...

Face a estes desenvolvimentos, com escassa informação oriunda de Teerão, porque o regime dos aiatolas mandou cortar a internet e os jornalistas estrangeiros estão com movimentos controlados ou deixaram o país, o Presidente Masoud Pezeshkian, um modcerado, e o seu Executivo - o Supremo Líder é, porém, o aiatola Ali Khamenei - já vieram exigir que os manifestantes sejam ouvidos e que a polícia se exima de disparar letalmente.

E o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, sugeriu mesmo que a screscente violência nos protestso de rua em Teerão servem o propósito de permitir aos Estados Unidos justifcar uma ingervenção militar, num complexo e ardiloso contexto em que os israelitas têm um papel preponderante nas movimentações nas ruas iranianas por estes dias de intensos protestos, dos maiores e mais violentos em duas décadas, pelo menos.

Mas, ao mesmo tempo, a Guarda Revolucionária, que é o corpo das forças armadas mais relevante no Irão, que concentra a capacidade de ataques para o exterior e responde directamente ao aiatila Ali Khamenei, já veio garantir que vai retaliar de forma célere e pesada em caso de ataque norte-americano, como Donald Trump admite, dos EUA.

Também do lado político-parlamentar veio o aviso de apoio inequívoco a um ataque aos interesses norte-americanos na região, que são maioritariamente dezenas de bases militares no Médio Oriente e Ásia Central, navios e infra-estruturas petrolíferas e, o maior dos interesses de Washington na região, Israel.

O Presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, advertiu para a possibilidade de um "ataque preemptivo", em antecipação, contra Israel e os interesses dos EUA se for detectada evidência de um iminente ataque ao Irão por israelitas e norte-americanos.

Este aviso coloca de novo o Irão e o Golfo Pérsico, onde é produzido mais de 35% do petróleo consumido em todo o mundo, a beira de uma guerra regional semelhante, ou ainda mais agreste, que a de 12 dias que teve lugar em Junho de 2025, que terminou com um ataque de grande envergadura dos EUA à infra-estrutura nuclear iraniana a 22 de Junho (ver links em baixo).

E foi feito depois de Donald Trump estar, de acordo com The New York Times, a analisar cinco possibilidades de intervenção no Irão que lhe foram apresentadas pelos seus estrategas militares, e que, recorde-se, emergem de um contexto pós-ataque à Venezuela que teve lugar horas depois do Presidente dos EUA ter recebido longamente o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyhau, que vê no Irão o inimigo mortal de Telavive (e vice-versa), na sua casa de férias, na Florida, a 28 de Dezembro.

Em pano de fundo a esta que parece ser uma planeada vaga alargada de ofensivas múltiplas dos EUA em várias partes do mundo onde sobressaem interesses russos e chineses está a demorada resposta de Pequim e Moscovo.

O que está claramente a dar azo a rumores de que os EUA estão finalmente a impor o seu poderio sobre Moscovo e Pequim, por um lado, sendo que, por outro, emerge a ideia de que a China e a Federação Russa optaram estrategicamente por não tomar posição ao verificarem que Washington está a esticar as suas capacidades para além do seu limite, esperando apenas pelo refluxo desses mesmos excessos.

Cai, todavia, por terra, a tese de que Trump, Putin e Jinping fizeram um acordo de divisão do mundo por esferas de influência, visto que o Irão está longe do Hemisfério Ocidental, que seria a esfera de controlo dos EUA.

Pelo contrário, o Irão integra uma geografia cara a chineses e russos, até porque é um dos países que integra os BRICS e aparece em destaque, por exemplo, nas novas rotas de comércio e infra-estruturas de transporte tanto de Moscovo como da Nova Rota da Seda de Pequim.