Com Israel na posição de "stand by", depois de ter dado os tiros de partida a 28 de Fevereiro, e o primeiro-ministro Benjamin Netanyhau a pedir a Donald Trump para não tirar o dedo do gatilho, em Washington parece estar a impor-se a vontade de Telavive.
Há muito que se sabe que em Washington o lobby israelita tem um poder de largo espectro, e, mesmo com a opinião pública, segundo as sondagens, a afastar-se cada vez mais de Telavive, mais uma vez está a vingar a vontade de Netanyhau.
É que tanto Benjamin Netanyhau como Donald Trump estão com eleições à porta. Em Israel, já em Setembro, as legislativas, nos EUA, são as intercalares de Novembro, que podem ser decisivas para as suas carreiras políticas e também na vida civil.
O problema, como sublinhava ainda este fim-de-semana Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, autor de vários livros sobre o Médio Oriente, é que Netanyhau tem na continuação da guerra com o Irão a via aberta para se manter no poder.
E Trump precisa parar já com o conflito se quiser sobreviver às intercalares de Novembro, onde a oposição Democrata já lhe prometeu avançar com processos de destituição (impeachment) um atrás do outro até o afastar do poder.
O efeito eleições
A explicação é simples e conhecida: Trump, se perder as eleições, tem à sua espera vários processos de destituição, o mais complexo assenta sobre o maior escândalo de pedofilia de sempre, os "Ficheiros Epstein", onde o seu nome é dos mais citados.
E a economia, desde logo a subida vertiginosa do preço dos combustíveis, é o factor que mais contribui para esse previsível desfecho, porque cerca de 75% dos eleitores norte-americanos escolhem como principal exigência eleitoral o regresso do preço da gasolina a valores pré-guerra.
O que só é possível sem guerra no Golfo Pérsico, de onde chega à economia global 20% do petróleo e do gás (LNG) que a motoriza, especialmente a economia norte-americana onde as subidas na "bomba" são severamente punidas nas urnas de voto.
Já em Telavive, Netanyhau, que repete à exaustão ser Trump o melhor amigo de Israel de sempre, garantir que os EUA continuam a atacar o Irão é mais que meio caminho andado para um bom resultado nas legislativas.
E se Donald Trump, sendo, como Benjamin Netanyhau diz e sublinha dia sim, dia sim, o melhor aliado de Israel, fazendo, como tem feito, todas as vontades ao primeiro-ministro israelita, este recomeço dos ataques dos EUA ao Irão surge sem grande surpresa entre os analistas.
O efeito "Dia D"
Alias, Larry Johnon, um antigo analista da CIA, tem vindo, nas últimas semanas, a defender que o anúncio do já famoso "Dia D Económico" (ver links em baixo) contra o Irão, procurando a supressão das capacidades do país através de um conjunto de sanções e do bloqueio naval reforçados, foi apenas mais um ardil para Trump poder reorganizar-se de modo a voltar a atacar.
E assim foi, porque na noite de Domingo para hoje, segunda-feira, 31, os EUA atacaram com especial violência a Ilha de Larak, que se situa precisamente no topo superior da curva da passagem entre o Estreito de Ormuz e o Oceano Índico, fazendo vários mortos entre posições miliares iranianas.
A resposta de Teerão não se fez esperar e dezenas de mísseis balísticos foram disparados contra duas bases dos EUA na Jordânia e, embora subsistam dúvidas, nos Emiratos Árabes Unidos também há relatos nos media de explosões sentidas.
Apesar de nos últimos meses, desde 28 de Fevereiro (ver links em baixo), EUA e Irão, e Israel de forma intermitente, terem alterado períodos de acesos ataques com acalmia estratégica, como aquela que se viveu nas duas semanas que passaram, este regresso ao "gatilho" pode ser diferente e longitudinalmente definitivo...
É que, com o aproximar do calendário eleitoral em Washington e em Telavive, tanto Trump como Netanyhau podem ter deixado de ter espaço de manobra para lidar com a análises preemptivas das possíveis consequências de parar agora ou escalar abruptamente o conflito.
O Efeito "falcões de guerra"
Como alguns dos conselheiros mais próximos de Donald Trump defendem, mesmo que sabendo-se da sua subserviência a Telavive, como a dos generais Keith Kellogg e Jack Keane, a Casa Branca não tem alternativa a meter o pé no acelerador da guerra até desmantelar totalmente o regime iraniano.
Uma postura extremamente agressiva, que era igualmente defendida por Lindsey Graham, o senador republicano que morreu há semanas, ou Ted Cruz, outros dos falcões assumidamente "israelitas" no Senado norte-americano.
Porém, os militares mais experientes e menos ligados ao lobby israelita consideram um erro crasso por ser inviável uma vitória definitiva sobre o Irão, mesmo podendo Washington provocar avultados danos no país.
O general Dan Caine, o CEMGFA norte-americano, foi um dos que se destacaram na defesa de uma posição menos militar porque os EUA estão longe de possuir as capacidades na região que permitam repetir as vitórias rápidas e definitivas como sucedeu no Iraque em 1991 e 2003.
O efeito ameaça da escalada
Mas pode ser precisamente isso que Trump e a sua equipa mais próxima decidiram tentar, como nota Sina Azode, director do Departamento de Estudos do Médio Oriente da Universidade George Washington, que à Al Jazeera disse que "compete neste momento aos EUA decidir se o conflito escala ou não".
É que este analista, profundo conhecedor da região e dos EUA, entende que se Trump optar por escalar, como a já evidente nova subida drástica do preço do barril de petróleo nos mercados parece antecipar, voltando a passar em alta os 90 USD no caso do Brent, estará a comprimir entre incertezas o seu futuro político e a deixar o Irão sem alternativas ao avanço para uma "confrontação militar total".
Este contexto emerge de um período em que a Casa Branca insiste que o Estreito de Ormuz está aberto, que o trânsito dos petroleiros voltou ao normal, graças à gestão militar da Marinha norte-americana, e o Irão não apenas desmente mas tem vindo a atacar com drones e mísseis os navios que "acreditam" em Trump e tentam furar a ameaça iraniana.
Alguns analistas, como Trita Parsi, do Quincy Institute, um think tank norte-americano vocacionado para o Médio Oriente, entendem que esta opção por voltar aos ataques militares no meio de uma operação de carácter eminentemente económica, reflete a queda de Trump na sua própria armadilha com a qual procurou manipular os mercados.
É que não é possível manter os mercados infinitamente a agir como se o Estreito de Ormuz estivesse mesmo aberto sem que o crude que por ali deveria estar a passar, se assim fosse, esteja a chegar onde é mais preciso, que é à economia global...
O efeito Putin/Xi
Curiosamente Donald Trump lançou este ataque na véspera de os Presidente da China, Xi Jinping, e da Rússia, Vladimir Putin, bem como o primeiro-ministro indiano, Narndra Modi, tenham já encontros marcados na agenda paralela à Cimeira da Organização para a Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês), que decorrer em Bishkek, no Quirguistão.
Nestes encontros, seguramente o conflito no Golfo Pérsico será tema de topo de agenda, e o Presidente do Irão, Massoud Pezeshkian, que também irá participa, vai estar a sós com Modi, Putin e Jinping, como já foi confirmado pelas respectivas diplomacias, sendo que se trata de quatro dos mais importantes países dos BRICS.
E em pano de fundo a estes encontros, para os quais Donald Trump resolveu escolher ele próprio o "soundtrack" do filme a decorrer no Quirguistão, que tem como guião o apoio total de Moscovo ao Irão, que em Pequim é menos evidente mas provavelmente mais eficaz, e em Nova Deli surge envolto em dúvidas.
Alguns analistas entendem que se Xi Jinping e Vladimir Putin renovarem os votos de apoio claro a Teerão, e se Narendra Modi finalmente sair da sua redoma de dúvidas e inconstância para não hostilizar, pelo menos, Teerão, então o conflito no Golfo Pérsico poderá ter os dias contados, porque Washington não possui músculo para um conflito longo, desgastante e há muito detestado pela maioria dos americanos que o podem demonstrar com vigor já nas eleições de Novembro.
E dificilmente o Irão, como já foi dito pelo líder do Conselho de Segurança Nacional, órgão que rege as opções militares do país, o general Mohsen Rezaee, uma das figuras mais proeminentes do regime iraniano, deixará passar esta oportunidade para obrigar Donald Trump a mostrar ao que anda, porque os efeitos devastadores do fecho de Ormuz na economia norte-americana podem "afogar" o futuro político do actual Presidente dos EUA.









