Confesso que fico dividido entre o optimismo da esperança e o pessimismo da inquietação. Acredito que o turismo pode e deve ser um motor económico relevante a curto e médio prazo, mas a sua evolução gera impactos profundos nos territórios e na vida das comunidades. Por isso, o debate público não se pode cingir apenas aos grandes eventos de visibilidade ou aos ganhos financeiros potenciais; é urgente incorporar reflexões críticas que olhem para os custos ambientais e sociais que lhes estão associados.

Mais do que alimentar narrativas optimistas sustentadas em elogios ocasionais de visitantes, cabe ao departamento ministerial fornecer dados fiáveis e transparentes sobre a real fotografia do sector no país. Urge conhecer, por exemplo, a remuneração média praticada na restauração e no alojamento, para aferir se o trabalho gerado é digno ou precarizado frente à média nacional. Da mesma forma, importa mapear o perfil de qualificação da força de trabalho, a pegada hídrica e energética das infra-estruturas turísticas perante os recursos escassos das comunidades locais, bem como as taxas efectivas de tratamento e recolha de resíduos sólidos nos principais destinos do país.

Conhecer estes e outros números ajudaria a desenhar políticas públicas ajustadas às profundas transformações tecnológicas, sociais e ambientais que o mundo atravessa. No campo tecnológico, a digitalização e as plataformas de reserva online revolucionaram o mercado global. Contudo, no contexto angolano, constrangimentos de conectividade, custos elevados de mobilidade interna e limitações nos sistemas de pagamento continuam a impedir a democratização real do acesso aos nossos destinos - tornando, por vezes, mais acessível viajar para o exterior do que fazer turismo dentro do próprio território nacional.

Por outro lado, preocupa-me a pouca relevância dada à sustentabilidade nos discursos de captação de investimento. A própria necessidade de recorrer a mão-de-obra estrangeira - consequência da escassez de quadros nacionais qualificados - obriga-nos a questionar que oportunidades reais de emprego, formação e integração estão a ser asseguradas para os nossos compatriotas que vivem nas imediações desses empreendimentos.

Não podemos correr o risco de replicar, à escala nacional, os erros do passado. Os casos da Ilha de Luanda e do Mussulo são paradigmáticos: no primeiro, o reduto cultural e ancestral da comunidade Axiluanda viu-se gradualmente descaracterizado pela pressão desordenada da restauração e do entretenimento; no segundo, assistimos à privatização progressiva do espaço público e ao bloqueio do acesso das populações nativas ao seu próprio território e recursos marítimos.

Evitar a multiplicação destes "enclaves" isolados e ambientalmente vulneráveis exige planeamento rigoroso e visão estratégica. A questão central que se impõe é simples: queremos um turismo extractivo focado no lucro imediato e na imagem efémera, ou um turismo consciente que promova o desenvolvimento sustentável e preserve a identidade das populações? A resposta que dermos hoje determinará o país que teremos daqui a vinte anos.

*Coordenador OPSA