Tal como nos gráficos da Bloomberg ou da Reuters, quando o preço do crude sobe, aparece a vermelho, quando desce a verde, mas para as contas dos países exportadores e dependentes da matéria-prima, o vermelho evolui para verde e vice-versa.

O mesmo se passa na flutuabilidade do barril, tanto do Brent em Londres como do WTI em Nova Iorque, em confronto com as águas mais ou menos revoltas do Golfo Pérsico e do Mar Vermelho.

Aqui o vermelho marca o afunilamento nos estreitos de Ormuz e de Bab al-Mandab nestes últimos cinco meses depois de o Irão ter desferido um golpe severo na economia mundial ao responder aos ataques de EUA e Israel apertando ainda mais o... Estreito de Ormuz.

Já em Julho, com uma sucessão de ataques sauditas no Iémen, os Houtis aplicaram a receita iraniana em Bab al-Mandab, que liga o Índico ao Mar Vermelho/Canal do Suez, o que deixou ainda mais avermelhados os mercados energéticos.

É que desde que a coligação israelo-americana lançou o traiçoeiro ataque sobre o Irão quando decorriam negociações entre Washington e Teerão, que o foco dos mercados energéticos está nestas duas passagens marítimas estratégicas para a economia global.

E hoje, com Trump a, de novo, recuar no último minuto, tirando o dedo do gatilho já depois de ter voltado a ameaçar o Irão com o mais forte ataque desde a II Guerra Mundial se Teerão não ligasse o semáforo verde em Ormuz, o barril está a afundar não resistindo aos buracos feitos no embate das ameaças do Presidente norte-americano com as escarpas afiadas da política económica global encalhada em Ormuz e Bab al-Mandab.

Depois de algumas semanas a oscilar entre os 90 e os 100 USD, inevitavelmente ao sabor dos avanços e recuos nas ameaças de Donald Trump, o barril de Brent, que serve de referência maior às ramas exportadas por Angola, caiu perto de 5% para se encontrar às 11:30, hora de Luanda, nos 83,7 USD, um valor que se verificava em meados de Junho.

A mentira quase insustentável

Mas, por detrás deste cenário está a mentira mais ignorada em muito tempo pelos mercados e pelos analistas que por eles respondem, que é o facto de, como Trump chegou a admitir em Junho, as reservas estratégicas dos EUA estarem em níveis catastróficos e em degradação impossível de manter por mais 4 semanas (que já passaram).

Além disso, como a Agência Internacional de Energia anunciava ainda em Maio, os preços foram sendo mantidos em níveis simpáticos para a economia mundial devido á libertação de milhões de barris das reservas nacionais das grandes economias, desde logo os EUA, mas também da China, que só este mês retomou oficialmente as compras nos mercados internacionais.

Além disso, o conflito no Golfo Pérsico produziu avultados danos na infra-estrutura petrolífera de países como o Irão, Arábia Saudita ou Kuwait, e no gás do Catar e também saudita ou iraniano, todos grandes exportadores destas matérias-primas, o que normalmente seria mais que suficiente para fazer disparar o preço do barril muito além dos 100 USD.

Confrontados com esta singularidade, os analistas admitem que o que está a evitar o eclodir de uma crise sem paralelo em muitas décadas, é que a questão é de tal maneira séria que ninguém tem oficialmente coragem para a enfrentar e as manobras de manipulação dos mercados da Casa Branca são vistas como um alívio, mesmo que sejam assim percebidas.

Há, porém, alguns analistas, como Robert Pape, da Universidade Johns Hopkins, que notam sem quase certo que muito em breve esta farsa seja insustentável e o refluxo deste "teatro" se transforme num caos económico que pode mesmo levar a economia mundial para o precipício da recessão.

Tanto assim é que o barril de Brent que vale a três meses, futuros, hoje 83 USD, está a ser adquirido para entrega imediata a valores 20 a 30 USD acima desse preço.

Angola soma ganhos, mas..

O actual cenário internacional tende claramente a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara ainda com os actuais 83, 5 USD, no caso do Brent, cerca de 22 USD acima desse valor.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.