E a exigência mais complicada que Benjamin Netanyhau apresentou a Donald Trump para aceitar acabar com as acções militares no sul do Líbano é que o Hezbollah, a organização xiita que resiste à ocupação israelita há décadas, abandone o "seu" território.

Isto, ao mesmo tempo que às Forças de Defesa de Israel (IDF) terá de ser dada permissão, no âmbito do acordo agora assinado, embora o termo mais adequado será "renegociado", porque já estava em vigor um cessar-fogo que Israel nunca respeitou até agora, para permanecer no sul do Líbano.

Este acordo israelo-libanês é de extrema relevância no contexto das negociações de paz entre EUA e Irão porque Teerão não abdica de incluir em qualquer documento que venha a assinar a frente libanesa como parte do mesmo conflito.

E o Hezbollah, um partido político de base religiosa xiita com um braço armado que visa resistir à ocupação israelita desde a década de 1980, que é ainda o principal aliado regional não-estatal do Irão, não aceita depor as armas se as IDF não saírem do Líbano.

Como vai este complexo xadrez ser resolvido nas difíceis conversações entre iranianos e norte-americanos, com o Paquistão como mediador, ainda não se sabe, porque, como o histórico demonstra, o facto de Beirute e Telavive terem assinado um acordo de cessar-fogo tem um valor relativo.

Até porque, internamente, Benjamin Netanyhau, além de pressionado por Washington para terminar a ofensiva libanesa, já ouviu do seu ministro da Segurança Nacional, o ul-nacionalista e xenófobo Bem Gvir, que dar por findas as operações militares no Líbano é inaceitável.

E isto é um problema porque o partido de Ben Gvir, Otzma Yehudit (Poder Judeu), embora ultra-minoritário no país, é, a par de Bezalel Smotrich, líder do Partido Religioso Sionista, outro radical, e igualmente minoritário, da coligação que sustenta o Governo de Netanyhau, contra um cessar-fogo neste momento considerando que "é um erro histórico imperdoável".

E para piorar a situação, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, já veio dizer que sem um claro e inequívoco fim das operações militares israelitas no Líbnao não se pode sequer pensar em acordo de paz e ainda que se tal não acontecer, "o Irão atacará com força o norte de Israel" e estarão criadas as condições para "o recomeço de uma guerra aberta e sem limitações".

É neste contexto de incerteza que já nesta manhã de quinta-feira, 04, o sul do Líbano voltou a ser atacado por Israel, mostrando que, mais uma vez, o acordo de cessar-fogo é "letra morta" e que Netanyhau não vai abandonar o seu projecto de ocupação perpétua de todo o sul do Líbano juntando este território à sua "geografia de ocupação sionista", como apontam vários analistas.

Recorde-se que uma das forças motrizes mais poderosas que empurram o Médio Oriente para a guerra permanente é o sionismo, que, em síntese, significa o esforço do Governo e Exército israelitas em continuar a conquistar os territórios que a Bíblia atribui ao "povo eleito de Israel", que vai do Nilo, no Egipto, ao Eufrates, no Iraque.

É por isso que alguns analistas, como o major-general Agostinho Costa, no seu espaço de comentário na CNN Portugal, aponta o novo acordo de cessar-fogo como nulo, "não valendo o custo do papel em que está impresso", visto que Israel nunca abdicará dos seus objectivos e Netanyhau apenas mantém a "farsa" para americano ver.

Perante este cenário, resta manter em aberto a pergunta essencial: vai o Irão aceitar qualquer entendimento com os EUA sem uma resolução concreta e definitiva do conflito isarelo-libanês/Hezbollah?

A resposta mais evidente é que a guerra deverá continuar dentro de momentos. Tanto no sul do Líbano como no Golfo Pérsico, onde nas últimas 48 horas voltaram a voar misseis e drones das bases militares e marinha norte-americanas sobre o Irão e misseis e drones iranianos contra navios de guerra dos EUA, as suas bases no Kuwait e Bahrein e ainda contra o aeroporto internacional do Kuwait.