Mas os EUA não levaram muito tempo para fazerem o mesmo, com o próprio Presidente Donald Trump a garantir que a máquina de guerra deslocada para o Médio Oriente no período antes da guerra ali vai ficar para "corrigir" qualquer falha por parte do Irão, ameaçando retomar as hostilidades a qualquer momento.
Momento esse que pode já ter acontecido e a coligação israelo-americana está apenas a reabastecer as suas armas de defesa anti-aérea com misseis interceptores, cujos stocks se esgotaram nas 5 semanas de conflito, e de ataque, cujos paióis estão igualmente vazios.
E sabe-se que assim é porque os media norte-americanos mais prestigiados, como The New York Times, antes de 28 de Fevereiro, noticiaram que os chefes da CIA, John Ratcliff, e o CEMGFA, general Dan Caine, foram à Casa Branca dizer a Donald Trump que os EUA só dispunham na região de munições para entre 7 e 10 dias de conflito de alta intensidade. Já lá vão seis semanas.
Essa a razão pela qual a maioria dos analistas, como Daniel Davis, ex.coronel norte-americano com várias missões nas guerras do Iraque e do Afeganistão, ou Larry Willkerson, antigo chefe de gabinete do secretário da Defesa Collin Powell, na Administração George W. Bush, defendem que os EUA e Israel estão de novo a enganar o Irão conseguindo o intervalo de que precisavam para reabastecer os seus arsenais.
E é tanto assim que as forças israelitas mantiveram e até intensificaram os ataques no Líbano, na sua guerra contra o Hezbollah, o movimento xiita de resistência à ocupação, apoiado pelo Irão, apesar de, como consta dos 10 pontos do plano iraniano que Donald Trump aceitou como base para as negociações, o cessar-fogo também abranger esta frente, no norte de Israel.
O que conduziu a que já esta quinta-feira, 09, o Hezbollah tenha anunciado que está de novo em guerra com Israel e retoma os ataques sobre os alvos militares israelitas, especialmente as forças que Telavive tem no sul do Líbano, a sul do Rio Litani, a 30 kms da fronteira e que já designou como área tampão ocupada pelas IDF, tal como o Irão já fez saber que voltará a atacar Israel se esta frente não acalmar.
Para manter os bombardeamentos sobre civis na capital libanesa, Beirute, matando mais de 250 pessoas em apenas algumas horas após a entrada em vigor do cessar-fogo acordado entre EUA e Irão, o primeiro-ministro Benjamin Netanyhau alega que esta frente de guerra não está abrangida pelo documento aceite por Donald Trump, acusando o Irão de ter "vendido" aos negociadores do Paquistão duas versões diferentes do plano de 10 pontos.
Mas está: não apenas porque a agência de notícias iraniana TASNIM mantém, na sua página em inglês, o plano com 10 pontos onde consta a frente libanesa da guerra, como o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, que foi o principal mediador do cessar-fogo, veio de imediato, citado pela Al Jazeera, desmentir Netanyhau, afirmando que o acordo cobre o conflito israelo-libanês.
E o mesmo fez o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, que, segundo The Guardian, publicou nas redes sociais uma declaração onde lamenta o recuo dos EUA, depois de Donald Trump ter vindo dizer que o Líbano não fazia parte do acordo, afirmando que "os termos não podiam ser mais claros" e que, por isso, Washington "tem de escolher entre o cessar-fogo ou continuar a guerra por arrasto de Israel", sublinhando que "não é possível ter as duas coisas ao mesmo tempo".
Em pano de fundo a esta iminente retoma da catástrofe global que está a ser este conflito no Médio Oriente, com epicentro no Golfo Pérsico, aparece Israel, onde a periclitância do regime de Benjamin Netanyhau o leva a não querer correr riscos internos aceitando um cessar-fogo que os seus parceiros de coligação mais radicais o ameaçaram de fazer cair o Governo se parar os combates no Líbano.
Porém, por detrás deste cenário de incerteza, e apesar de o Estreito de Ormuz ter sido fechado de novo, com o Irão a, desta vez, minar uma parte deste canal estratégico para a economia mundial, por onde passam 20% do crude e do gás mundiais, o calendário das negociações previsto, com a primeira reunião iraniano-americana prevista para a capital do Paquistão, Islamabad, vai mesmo acontecer já nesta sexta-feira, 10.
Para lá convergem já o vice-Presidente dos EUA, JD Vance, à frente da delegação dos EUA, e, embora ainda por confirmar, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad-Bagher Ghalibaf, o mesmo que já disse não confiar nos termos deste acordo de cessar-fogo devido ao histórico recente, onde Washington enganou o Irão por duas vezes, atacando o país no decurso de negociações.
Este encontro está a ser visto como fundamental para averiguar a convicção das partes na prossecução deste cessar-fogo de duas semanas que começou na terça-feira, 07, sendo que o envolvimento do vice-Presidente dos EUA está a ser visto como uma garantia de que assim é, porque tendo Vance ambições políticas de suceder a Trump, cometer o erro de fazer papel de figurante neste capítulo histórico, seria desastroso e do qual dificilmente recuperaria.
A pairar como uma nuvem carregada sobre este momento estão, todavia, as palavras mais recentes de Donald Trump, ameaçando a retoma da guerra se o Irão não abandonar, de facto, a sua ambição - sempre desmentida por Teerão - de obter uma bomba atómica, se não abrir totalmente o Estreito de Ormuz - está fechado de novo, devido aos taques de Israel no Líbano, mas estava aberto antes da guerra -, notando que as forças militares dos EUA estão "a carregar, a descansar e prontas para mais acção".
E dias antes, o seu mais famoso "post" na rede social de que é proprietário, Truth Social, onde diz que "uma civilização vai morrer" em breve, o que foi visto em muitos corredores como um aviso de que pondera usar armas nucleares nesta guerra com o Irão, onde, igualmente assumido pela generalidade dos analistas, está a perder o pé, apesar do seu superior poderia militar.
Especialmente por não conseguir determinar as reais capacidades do Irão, nomeadamente os aparentemente ilimitados misseis balísticos hipersónicos que diariamente estavam a cair sobre Israel e os países do Golfo Pérsico onde os EUA possuem dezenas de bases militares, agora quase todas destruídas total ou parcialmente.
Perante isto, e como sempre, os analistas procuram antecipar cenários, e a maioria dos conhecidos apontam no sentido da retoma das hostilidades, o que é corroborado pelo mais assertivo oráculo que se conhece sobre estes meandros, que são os mercados energéticos.
E o que estes dizem coincide com as expectativas desastrosas da maioria dos analistas: o barril de crude e o gás (LNG), depois de quedas históricas ontem, quarta-feira, hoje, quinta-feira, 09, voltaram a subir e estão de novo à beira dos 100 USD.











