No princípio da década de cinquenta do século passado, quando Agostinho Neto escreveu o poema Kinaxixi, o poeta nunca tinha experimentado as celas da prisão colonial. (A primeira prisão efectua-se em Portugal, em 1952. E, posteriormente, entre Portugal e Angola em 1955, 1960 e 1961, vítima de diferentes processos de deportação). É provável que os poemas escritos até 1950, como o Kinaxixi, tenham registos próprios em relação às criações posteriores. A par de Kinaxixi, inserem-se nesta síntese cronológica os poemas Partida para o contrato (1945), O velho negro (1948), Sábado nos musseques (1948), Não me peças sorrisos (1948), entre outros.

Destaca-se neste rol, o poema Kinaxixi, cujo simbolismo remete-nos de imediato à alvorada do movimento moderno de arquitectura em Luanda. Ou, se preferirmos, do "Modernismo Tropical", de acordo com Alexandra Prado Coelho, colunista do jornal Público (2009). A circunstância do poema projecta, logo nos primeiros versos, esse desejo de contacto com um lugar restaurador: "Gostava de estar sentado / num banco do Kinaxixi / às seis horas duma tarde muito quente / e ficar...". Ali, no Kinaxixi, o sujeito poético encontrara um radar que lhe oferece uma visão mais ampla para contemplar "as faces negras da gente / a subir a calçada / vagarosamente / exprimindo ausência no Kimbundu mestiço das conversas".

Consta que o Mercado do Kinaxixe (1950-1958), demolido em 2008, constituía uma referência do movimento moderno em Luanda correspondendo à primeira obra desenhada por Vasco Vieira da Costa (1911-1982), depois do estágio realizado em Paris no atelier de Le Corbusier. O projecto responde à encomenda do Governador-Geral de Angola, Capitão José Agapito da Silva Carvalho, e será desenvolvido entre 1950 e 1952 por Vasco Vieira da Costa, no âmbito das suas funções como arquitecto municipal, na zona alta da cidade: junto ao Museu Nacional de História Natural de Angola (1956) e do cinema Miramar (1964), onde surgirá no início dos anos 50 o bloco "Edifício Cuca" (demolido em 2011), do arquitecto Luís Taquelim da Silva.

É também nos anos 50 que Vasco Vieira da Costa elabora o Plano para a Baía de Luanda desenhando uma linha de edifícios que limitam o crescimento da cidade e, simultaneamente a abrem para a baía através da criação de uma extensa galeria ao nível do piso térreo que marca o embasamento criando um espaço de transição e um percurso confortável. O Mercado do Kinaxixe será um dos edifícios desenhado nos anos 50 que transformará a cidade de Luanda, organizando o espaço circundante com a sua geometria simples e reinventando o lugar.

Embora o poema tenha sido escrito em 1950, com um título topónimo e fazendo alusão a um lugar que, à época, estava na moda tendo em conta o fervor do movimento modernista, esse mesmo movimento é anterior à data em que se escreveu o poema. Apesar do nome, a arquitetura moderna não é tão "moderna" assim. O movimento tem início entre o final do século XIX e início do século XX, perdurando até o começo da década de 80 quando outra ideia de arquitetura começa a se difundir: a contemporânea ou pós-moderna.

O Modernismo Tropical veio demarcar, no plano simbólico, a linha divisória entre o asfalto e o areal (leia-se zona urbana e musseques). Kinaxixi, era uma zona iluminada com luz eléctrica, ao anoitecer, que se diferenciava bastante da narrativa do poema Noite, onde nos é dado a ver o "bairro de escravos / mundos de miséria / bairros escuros", como nos lembrara o poeta, eternizado nas palavras.

*Mestre em Linguística pela Universidade Agostinho Neto