Habituamo-nos a ver os cães de rua (afinal, habituamo-nos a ver meninos de rua!) e raramente nos perguntamos como ali foram parar. Como sobrevivem. Que maleitas os afligem. A vida tornou-se mais difícil com a concorrência dos humanos, pois estes têm direito à primeira escolha nos contentores do lixo. Mas não deixam de beneficiar do mostruário que frequentemente é espalhado ao redor dos mesmos, ficando-lhes mais fácil aceder aos restos dos restos que ali ficam à sua mercê. À medida que o número aumenta, mais difícil a sobrevivência, mais fácil ver a linha quebrada da sua coluna vertebral, mais submisso é o seu olhar, mais subserviente a sua postura.
O cães, dizem, é o melhor amigo do homem. São companheiros e terapêuticos, para além das outras funções que lhe são atribuídas, quando integrados na comunidade humana. Ao longo dos séculos e séculos adaptaram-se para servi-la. Mas tornaram-se dependentes. Na selva urbana, as suas capacidades de sobrevivência são limitadas. Pior do que isso, são vistos como algo incómodo, indesejável, como se tivessem perdido o direito à cidadania por culpa própria esquecendo-nos que a raiz do problema é o abandono.
No nosso país, é frequente vermos animais de rua, cães e gatos em particular, a deambular sob o olhar indiferente dos transeuntes. Não há um política definida para lidar com essa situação, acabando por ficar dependentes de alguma, rara, alma caridosa que com eles se preocupa. Infelizmente, o destino de muitos acaba por ser o atropelamento nas nossas frequentadas ruas e avenidas. Ali jazem e, como o lento esboroar da nossa consciência, abandonado fica o cadáver até ficar reduzido a um amontoado de carne ensanguentada, logo, um pedaço de couro e pêlos e, por fim, pó, o mesmo a que seremos reduzidos. É o destino daqueles a quem o destino não se dignou conceder a atenção de ninguém.
Em Angola já temos algumas associações de voluntários extremamente dedicados que procuram cuidar de animais abandonados. São pessoas excepcionais e que merecem todo o nosso respeito. Mas são poucos, com poucos recursos dada a enormidade da tarefa que lhes é acometida. Precisam de mais apoio. Se é verdade que há muitos cidadãos que cuidam dos seus animais, relativamente poucos se predispõem a estender a mão aos menos afortunados.
Durante as visitas de personagens ilustres à nossa cidade, acontece haver campanhas apressadas de recolha de animais de rua, que são despejados nos canis municipais. O que e triste é que não se criam condições para a sua sobrevivência, sendo abandonados sem água e comida. Durante a visita de Sua Santidade a Luanda, a sua salvação temporária foi uma dessas associações.
O maná proveio do esforço abnegado de quem os considera, afinal, "criaturas de Deus".
