De acordo com a pesquisa do Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior (LabCom), esses conteúdos desinformativos atingiram 8.392.713 de visualizações nas redes sociais (todas as vezes que o conteúdo aparece aos utilizadores, incluindo repetições) e geraram 347.228 reacções, 64.151 comentários e 27.178 partilhas.
Dados nada surpreendentes, confirmando uma prática recorrente de André Ventura e seu partido, visando manipular os media e o eleitorado e assim conseguir adesão às suas narrativas, vencer eleições ou melhorar o seu score eleitoral.
O Chega de André Ventura, racista, xenófobo e anti-imigração também foi o partido que mais divulgou desinformação nas eleições legislativas portuguesas de 2025, nas plataformas Instagram, Facebook, X, TikTok e YouTube.
Na análise das legislativas, os investigadores do mesmo LabCom monitorizaram 4.514 publicações dos partidos concorrentes e concluíram que 81% da desinformação verificada teve como origem o partido português da extrema-direita.
Conforme o relatório da pesquisa, citado pela comunicação social portuguesa, o formato mais utilizado para a desinformação são vídeos, "seja com montagens, cortes ou edições de peças, à frente de um conjunto vasto de imagens estáticas".
Ainda segundo o documento, "as sondagens falsas ou provenientes de entidades não registadas na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) foram o tipo de desinformação mais comum (31,1%), seguindo-se os conteúdos oriundos de falsos órgãos de comunicação (25%) e vídeos manipulados ou publicações que descredibilizam os media (ambos com 18,8%)".
Os milhões de visualizações (mais de oito milhões na campanha para as presidenciais), numa sociedade de baixa literacia político-democrática, na opinião de João Canavilhas, coordenador do estudo, são uma questão "preocupante".
Num país em que mais de 80% da população utilizam as redes sociais e destes 87% usam tais plataformas como fonte primária de acesso a notícias, a situação toma contornos de alarme político-social.
No Brasil, da primeira para a segunda volta das disputadíssimas presidenciais de 2022, que colocaram de um lado Lula da Silva (esquerda) e de outro Jair Bolsonaro (extrema-direita), a circulação de fake news aumentou cerca de 57 por cento.
De uma média diária de 196,9 mil na primeira-volta essa circulação passou para 311,5 mil na segunda e decisiva volta, de acordo com um estudo realizado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Segundo Marie Santini, coordenadora do estudo acima citado, essa disseminação de fake news ficou-se a dever, sobretudo, a "uma estrutura muito bem montada da extrema-direita de desinformação". Em contraste, adianta em entrevista ao jornal digital GloboNews, "não vemos uma infra-estrutura montada da esquerda".
Os dados de Portugal e do Brasil correspondem a um padrão de comportamento político sobretudo de organizações da extrema-direita populista que, não sendo novo, foi potenciado com o surgimento da internet e amplificado pelas redes sociais.
Esses novos meios de divulgação de informação funcionam sem qualquer mediação e sem exigência de cumprimento de normas e regras éticas e deontológicas, diferente dos media ditos tradicionais.
A adulteração, modificação e manipulação dos factos, usando, por exemplo, meias verdades e escamoteando dados e factos, ganharam estatuto de norma em campanhas políticas, mas não só, contribuindo para a polarização da sociedade.
Manipular ou iludir o eleitorado e a própria opinião pública, impor e controlar a narrativa em busca de apoio, aceitação e reconhecimento do eleitorado, num autêntico vale tudo, é o objectivo dessa desinformação.
Nesta era da chamada pós-verdade ou dos factos alternativos para a extrema-direita trumpista, a normalização desses comportamentos representa uma séria ameaça à lisura e credibilidade de processos políticos.
Para Santini, a campanha permanente de desinformação aumenta a resistência dos eleitores às checagens, e deixa as pessoas sem saber em que confiar. A longo prazo, a repetição é capaz de "furar a bolha" do nicho em que foi inserida inicialmente.
Quando cidadãos-eleitores votam com base em narrativas e informações falsas disseminadas pelos concorrentes, no limite, levantam-se questões sobre a confiabilidade do processo, incluindo dos resultados obtidos por diferentes organizações e políticos que usam de forma corriqueira a desinformação, as fake news, como instrumento para ganhar eleições.
De que eleição justa se pode falar quando a acção política, nomeadamente os programas e a campanha de alguns dos concorrentes são impunemente baseados em desinformação?
As fake news, também construídas para induzir o público-alvo em falsas percepções, exploram emoções, criam medo e falsificam processos políticos. São igualmente usadas para destruir carreiras e manchar a reputação e legado de gente íntegra.
Nesses casos, dependendo da dimensão dos danos, as vítimas podem ver a sua reputação manchada de tal forma que desmentidos e, eventuais, processos judiciais tornam-se insuficientes para anular os estragos causados pela desinformação.
Em Angola, onde não há estudos sobre a desinformação em contexto político-eleitoral, é comum encontrar internautas, principalmente opositores ou críticos da governação do Presidente João Lourenço, a manifestar apoio ao racista e xenófobo André Ventura, principalmente na rede social Facebook.
Mais do que síndrome de Estocolmo, esse comportamento de angolanos no País e diáspora é justificado pelo posicionamento de Ventura em relação à elite do poder em Angola. Misturando verdades e mentiras, o populista constituiu-se num acérrimo crítico do desempenho do MPLA nestes 50 anos da Independência.
Para gáudio desses angolanos, o presidente da extrema-direita usa as redes sociais para atacar o PR de Angola, a quem acusa de ser ditador sanguinário, corrupto, ladrão, chefe de uma cleptocracia com a qual Portugal devia cortar relações.
Por isso, esses angolanos sonham com a vitória de Ventura nas presidenciais portuguesas, mesmo percebendo que a sua política representa uma ameaça e cria instabilidade aos imigrantes, incluindo angolanos.
Pugnar pela queda de um regime autoritário, apoiando-se num defensor da ditadura de Oliveira Salazar que pretende "acabar com o sistema" democrático e implementar em Portugal um regime trumpista, pode parecer contraditório.
Mas para esses angolanos é normal. Porque se baseiam no princípio segundo o qual o inimigo do nosso inimigo é nosso amigo ou aliado, lógica usada por Jonas Savimbi quando se aliou ao regime de Apartheid para tentar tirar o MPLA do poder.
Neste quadro, aplaudiram a invasão da Venezuela e o sequestro do seu Presidente Nicolás Maduro pela Administração Trump e, alguns, incluindo políticos com responsabilidades na oposição, chegaram mesmo a manifestar o desejo de ver os norte-americanos a fazerem o mesmo em Angola.
No entanto, ignoram a lógica da política dos EUA de protecção dos fantoches a seu serviço e úteis aos interesses americanos. O comportamento desses angolanos, por outro lado, constitui uma confissão do reconhecimento da incapacidade da oposição de desalojar o MPLA do poder.
A elite do poder também usa a desinformação para manipular a realidade, particularmente na sua acção de propaganda para, entre outros, escamotear a elevada taxa de impopularidade que enfrenta, resultante da miséria no Angola, que está entre os 13 países com piores níveis de fome no Mundo.
Adultera dados estatísticos ou falsifica realizações governamentais. Por exemplo, anuncia a construção de determinada estrada numa região, mas logo a seguir é prontamente desmentida com imagens de internautas moradores nessas zonas ou faz promessas, sem qualquer adesão à realidade, como o apetrechamento de escolas do ensino básico com computadores, entre outras.

Na era do pós-verdade, se as redes sociais ajudam a denunciar crimes, regimes autoritários e outras barbaridades, também contribuem para a disseminação de inverdades e meias verdades, como forma de controlar e manipular multidões em qualquer tipo de regime.