Donald Trump não esconde mesmo que quer esta plataforma, criada com pelo menos 35 países representados, embora muitos se tenham recusado a participar na sua fundação, a substituir o Conselho de Segurança da ONU, órgão que nãos e cansa de considerar moribundo.
Para integrarem o órgão de Trump, os signatários tiveram de pagar mil milhões de dólares, dando essa quantia acesso a fazer parte de "uma organização internacional" que tem como mentor e garante de eficácia o Presidente dos EUA e também a sua poderosa máquina de guerra.
E o anúncio desta formalização surgiu pela voz de Karoline Leavitt, a porta-voz da casa Branca: "A carta está agora em vigor e o Conselho da Paz é agora uma organização internacional oficial".
Há muito que Donald Trump despeja azedume sobre as Nações Unidas, que diz terem perdido a capacidade de agir e impor a paz nos quatro cantos do mundo onde ele acabou, em apenas um ano, com oito guerras e se prepara para extinguir a 9ª, a da Ucrânia.
Na resposta a esta organização, que Trump pretende dar dimensão global, mas que aparece sob a égide de levar a paz e a reconstrução a Gaza, e que, na verdade, não pode ser considerada nada mais que uma organização privada integrada por perto de três dezenas de Governos, a ONU referiu-se a ela como "um Conselho de Paz amorfo".
Farhan Haq, porta-voz adjunto do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, já disse que se trata de um órgão amorfo, que se traduz por algo sem corpo sólido, forma definida ou estrutura orgânica a sustentá-lo, e sublinhou que a ONU mantém o compromisso com a sua "Carta das Nações Unidas" assinada por todos os seus 193 estados-membros.
Na fundação do seu Conselho da Paz, Trump apenas co seguiu que 35 dos cerca de 50 chefes de Estado e de Governo convidados estivessem na sua fundação, que teve lugar em davos na Suíça, onde decorre esta semana o Fórum Económico Mundial, onde convidou todos os países a aderir à organização.
O Presidente norte-americano reafirmou que o Conselho da Paz vai começar por se focar em Gaza, mas depois terá uma actuação global.
"Penso que podemos expandir para outras áreas, pois, à medida que tivermos sucesso em Gaza -- e teremos muito sucesso em Gaza -, podemos fazer inúmeras outras coisas. Uma vez que este conselho esteja completamente formado, podemos fazer praticamente o que quisermos", afirmou Trump.
Apesar de ter prometido trabalhar "em conjunto com as Nações Unidas", Trump, nota a Lusa, criticou a ONU por "não ter feito o suficiente" historicamente.
Muitos dos aliados dos EUA na Europa rejeitaram participar no conselho, como França, Noruega, Eslovénia e Suécia, e muitos outros ainda não responderam ao convite, como Portugal, Reino Unido, Alemanha e a Comissão Europeia.
Da UE, apenas a Hungria participa na criação da organização, bem como Argentina, Arménia, Azerbaijão, Bahrein, Bielorrússia, Egipto, Indonésia, Cazaquistão, Kosovo, Marrocos, Paquistão, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Turquia, Uzbequistão e Vietname, entre outros.
E a Rússia, segundo o seu Presidente, Vladimir Putin, poderá vir a integrar esta organização de Donald Trump focando a atenção em Gaza, sublinhando que o preço de entrada, os mil milhões de dólares, podem sair dos fundos russos congelados pelo Ocidente no contexto das sanções a Moscovo aplicadas logo após a invasão da Ucrânia, em Fevereiro de 2022.
ONU considera Conselho de Paz para Gaza "amorfo"
O secretário-geral da ONU, António Guterres, considerou, através de um porta-voz, que o Conselho de Paz criado por Washington para Gaza é, por enquanto, "amorfo", enfatizando que o apoio ao órgão é "estritamente" pelo trabalho no enclave.
"O Conselho de Paz, em termos do que vai fazer, continua amorfo. Teremos que ver o que fará. Estamos a manter-nos fiéis ao nosso programa. A ONU tem a sua Carta, uma longa história de conquistas e um amplo conjunto de tarefas que devemos cumprir constantemente, e é isso que estamos a fazer", disse o porta-voz adjunto de Guterres, Farhan Haq, na sua conferência de imprensa diária em Nova Iorque.
Embora tenha sido inicialmente concebido para supervisionar a implementação do cessar-fogo na Faixa de Gaza, Trump pretende expandir os poderes do Conselho de Paz e transformá-lo numa alternativa ao Conselho de Segurança da ONU.
No entanto, Haq, citado pelas agências, salientou esta quarta-feira que o Conselho de Segurança apoiou o Conselho de Paz "estritamente para o trabalho em Gaza" e enfatizou que o órgão "continua a cumprir essa resolução".
O porta-voz também afirmou que a ONU "não está preocupada com outras organizações" e destacou que, durante os seus 80 anos de existência, existiram inúmeras entidades que coexistiram com a ONU.
Na conferência de imprensa desta quarta-feira, Haq também respondeu às recentes críticas de Trump contra a instituição, indicando que a organização está a fazer "todos os possíveis" para melhorar o seu funcionamento.
"A ONU continuará a trabalhar incansavelmente pela paz, respeitando plenamente o direito internacional e realizando um esforço abrangente para abordar as causas profundas dos conflitos e garantir soluções sustentáveis para a paz", afirmou o porta-voz.

